Se tem uma coisa que me impressiona e me acalma na aviação comercial é a voz dos comandantes
nos speeches durante os vôos. Em geral os caras têm voz de locutor de rádio
inglesa de música clássica com phd em efeitos sonoros: - “Senhores passageiros, bom dia.
Quem vos fala é o comandante Washington. Nosso pouso em São Luis será às 19h08”. A voz é
gutural, grave, pausada e treinada para passar confi ança aos tensos passageiros. E passa.
Não era o caso do comandante Dimas, que nos levou de São Luis do Maranhão para
Barreirinhas, porta de entrada de uma das maravilhas do planeta, os Lençóis Maranhenses. Dimas
tinha voz de taquara rachada, era quase gago e falava com forte sotaque maranhense. Traduzindo,
no quesito voz, Dimas era o oposto do comandante Washington. O avião monomotor Sertanejo
da Embraer fabricado em 1968, também não cooperava para nos dar um mínimo de sensação
de segurança. A coisa piorou mais ainda, quando o comandante Dimas me mandou sentar ao seu
lado no lugar reservado ao co-piloto que tudo indicava, seria eu!
Rindo para não chorar, afivelei o cinto de segurança, respirei fundo e encarei o bravo pássaro
de aço. Trinta minutos de vôo e começamos a sobrevoar as dunas e lagoas dos Lençóis.
A paisagem deslumbrante, a sensação de liberdade e a perícia do comandante, criaram uma
atmosfera mágica e geraram em mim um torpor misto de calma e euforia que foi o sufi ciente
para me sentir literalmente nas nuvens. Nessa altura passei a chamar o comandante Dimas de
comandante Dimais! Demais, assim foi meu primeiro encontro com essa região cuja beleza é
de tirar o fôlego de qualquer um. Fomos recebidos com uma salva de rojões e pousamos no
aeroporto de Barreirinhas. Mais tarde vim a saber que os rojões não foram uma homenagem à nossa chegada e sim uma rotina para espantar aves intrusas que podem prejudicar o pouso
das aeronaves. Dei um abraço de despedida, entre emocionado e aliviado, no comandante
Dimais! e parti para a pousada.
Imagine um rio virgem, limpo, largo, caudaloso, de águas cálidas e preguiçosas, cujo nome é, não por acaso: Rio Preguiças. Visualize um resort entre palmeiras buritis, carnaúbas e babaçus,
debruçado numa das margens da preguiça, digo do Preguiças. Sol, brisa, calor de 35 graus
e um céu azul, azul até demais. Tudo isso sem pernilongos ou similares. Perguntei aos nativos
se por lá havia dengue e eles me disseram: - não, por aqui a única praga é a família Sarney, desde
1966 eles nos sugam.
Imagine um rio virgem, limpo, largo, caudaloso, de águas cálidas e
preguiçosas,
cujo nome é, não por acaso: Rio Preguiças. Sol, brisa, calor de 35 graus e um
céu azul, azul até demais.
Na manhã seguinte partimos num veículo 4x4. Passamos por Barreirinhas, pegamos uma estrada/trilha
e entramos no parque estadual que abriga os Lençóis. Rodamos mais um pouco e estacionamos aos
pés da 1ª muralha de areia que marca o início da maravilha. Subimos a pé a montanha de areia e, putz!!
Bom daqui para frente vai ser difícil achar as palavras certas para descrever a sensação. Perdi o fôlego!
Um pouco por conta da subida e muito por conta da paisagem. Dezenas de lagoas com águas transparentes,
límpidas e de um tom azul turquesa cintilante, rodeadas por paredes de areia fina e branca que se movem
suavemente ao sabor dos ventos. Som do silencio. No horizonte, o encontro do azul anil do céu com
o branco fosforescente das areias. A sensação é de estar num lugar virgem e intocado pelo homem. As lagoas
têm nomes próprios, temperaturas, cores e formas diferentes, compondo um mosaico com o azul do
céu e o branco das areias digno da visão do paraíso. Só faltaram os anjinhos tocando harpa. Caminhei por
horas e feito criança me envolvi na suavidade daqueles Lençóis, com a sensação de liberdade que só natureza
nos proporciona. São 70 hectares de dunas e lagoas dentro de 150 hectares de parque estadual.
Pela beleza, deve ganhar fácil como uma das sete maravilhas da natureza. Na volta paramos em
Barreirinhas. Chamou-me a atenção a grande quantidade de meninas em gravidez precoce. Mães prematuras.
Jovens mal saídas da infância, com 12/13 anos de idade e já carregando seus filhos, no ventre ou
no colo. Crianças gerando crianças, despedaçando-se assim a juventude. Um nativo local, logo me explicou:
- É o “Bolsa–Transa”. O governo federal paga até R$3.000,00 através do Fundo Rural para a mãe
por filho nascido, mais a mesada do Bolsa-Família...