Uso privado de áreas públicas: aberração e ilegalidade em Cotia
Caso do Tempo Zu-lai, na estrada Fernando
Nobre, que anexou um trecho da rua São
Vicente a seu terreno.
Imagine que você comprou um lote, não sem sacrifício,
a prestação. Terminado o parcelamento,
deu início à construção da sonhada casa própria.
Percorreu lojas em busca de ofertas, comparou preços,
entrou em financiamentos, cortou despesas de
toda ordem a fim de pagar o arquiteto, o engenheiro,
o mestre de obras, os pedreiros, o encanador, o
eletricista, o paisagista, o jardineiro...
Um dia colocam uma
cancela na entrada do
seu bairro, cercam-no
com muros e mandam lhe
a conta dessas e de
outras “benfeitorias” na
forma de boletos com
vencimento mensal.
Surpreso, você se torna
um “condômino” ou “associado” sem jamais ter sido consultado
Imagine agora que, anos depois da compra
do lote, você finalmente consegue se instalar na
moradia que, claro, não está completamente finalizada. Faltam alguns acabamentos e o projeto da
nova decoração terá de esperar a estabilização da
situação financeira, abalada por um longo período
de obras. Nada disso, porém, o desanima. Livre
do aluguel e numa casa construída a seu gosto,
você sente um imenso bem-estar. O resto, como
se diz por aí, se ajeita.
Um dia, porém, colocam uma cancela na entrada
do seu bairro. Cercam-no com muros. E mandam-lhe a conta dessas e de outras “benfeitorias” na forma de boletos com vencimento mensal.
Surpreso, você se torna um “condômino”, ou “associado”,
sem jamais ter sido consultado e pior, sem
ter dado seu consentimento a isso e às novidades
que uma “associação” – da qual você nunca ouvira
falar – decidiu instalar na área.
Você reclama. Em vão. Sofre todo tipo de
constrangimento – do desrespeito a seu direito
de ir e vir a ameaças, veladas ou abertas. Procura
a justiça, mas o juiz de primeira instância dá ganho
de causa à associação e obriga ao pagamento
dos boletos. Você recorre, indignado com uma
decisão judicial sem respaldo na Constituição. A
morosidade da justiça emperra o processo. Os
anos passam, sua “dívida” se acumula e uma tarde,
ao voltar do trabalho, você recebe a notícia
de que sua casa será penhorada. Depois de tanta
luta, tudo que você conseguiu na vida pode
virar pó. Claro que você lutará por seus direitos,
frontalmente atacados. Claro que você se unirá
a outras vítimas na mesma situação. E claro que, quando o processo chegar à suprema instância jurídica do país, você ganhará
a causa. Mas... e o desgaste por tantos anos de batalha? O estresse? A insônia?
A depressão? A intranqüilidade? A perda da alegria, da vitalidade, da saúde?
O dinheiro necessário para a defesa de um direito que não deveria exigir
defesa, por ser garantido pela lei maior do país?
Essa situação esdrúxula – e inconstitucional –, que mais parece um pesadelo, é real e muito comum aqui em Cotia. A lei que permitiu os bolsões residenciais
cria problemas para os que moram neles e para aqueles que não moram,
mas que se vêem impedidos de usar as ruas – que, apesar de públicas,
são fechadas e tratadas como particulares pelas tais “associações”. Essa prática
ilegal, que agride e humilha os cidadãos, precisa acabar.
O que têm a dizer os candidatos a prefeito sobre o assunto? E sobre outras
questões ligadas à preservação de direitos garantidos por leis federais e estaduais?
Ao meio ambiente? Ainda não sabemos, mas saberemos. Esta coluna encaminhará
um questionário aos candidatos a prefeito e publicará uma análise crítica
das respostas no próximo número da Circuito. Será um compromisso público que
cada um deles assumirá com todos os munícipes. É preciso não apenas melhorar
nossa cidade, mas tirá-la do domínio de práticas feudais e colocá-la, de uma vez
por todas, no século XXI.
Para saber mais sobre a luta contra os
loteamentos ilegalmente fechados, visite:
Templo Zu-lai se apossa de área pública e seguranças
ameaçam vizinhos
Nem só de loteamentos ilegais vive Cotia. Há também
aqueles que se apossam de ruas e vielas. É o caso do Zu-lai,
na estrada Fernando Nobre, que anexou um trecho da rua
São Vicente a seu terreno. Não há separação entre o templo
e a rua. Ao contrário: os passeios que cortam a área verde do
Zu-lai dão diretamente na São Vicente, a tal ponto que o acesso
dos pedestres que o visitam é feito por ela. Certa vez parei
meu carro naquele trecho e o porteiro teve o desplante de cobrar
R$ 6 pelo “estacionamento”... Não paguei, claro.
Recentemente, foi colocada uma corrente com cadeado
no portão próximo à Fernando Nobre, impedindo os
moradores da chácara vizinha de acessar, pela rua, a propriedade.
Mais: os seguranças do templo os ameaçaram.
Um deles chegou a dizer que quem entrasse naquele trecho
da rua levava tiro. Com a palavra, o Zu-lai e a prefeitura:
por que uma rua pública foi fechada? Por que o trecho
foi anexado à área do templo? Por que portões, cadeados
e ameaças? Aguardamos as respostas.
Baby Siqueira Abrão, jornalista, autora e editora de livros, é formada em Filosofia
pela USP e pesquisadora nas áreas de Ciências e Ambientalismo, Ética e
Responsabilidade Social Corporativa.