O Mestre e o Cotovelo
O discípulo estava com os olhos fechados. Meditava. Seu semblante, tenso e visivelmente agoniado, sinalizava o seu desequilíbrio diante do único tema, proposto pelo seu Mestre, que teimava em fustigar a sua mente durante todos aqueles anos do seu longo e penoso aprendizado.
Exausto de tanto buscar uma solução para o enigma proposto há anos pelo Mestre, e cuja resposta nunca chegava, lembrou do dia em que chegou-se a ele e fez a pergunta que iria selar, nas trevas, o seu buscar.
- Mestre!
- Sim.
- O senhor sempre falou que o meu próximo sou eu mesmo, certo?
- Sim.
- Que, sendo o meu próximo, eu sou ele, certo?
- Sim.
- E que se Deus é uno em si mesmo, criou tudo o que nele está contido, certo?
- Sim.
- E que assim sendo, eu sou Deus na minha fração possível, certo?
- Sim.
- E que sendo a minha fração possível de Deus, eu me encontraria nas outras frações que o compõe, certo?
- Sim.
- E me encontrando, encontraria o meu próximo em mim mesmo, certo?
- Sim.
- Se assim o é, prove-me!
- Não o posso fazê-lo.
- Não?
- Não! Mas posso indicar-lhe o caminho para que possas chegar à sua própria conclusão.
- Certo! Como chegarei à minha própria certeza?
- Simples – respondeu o mestre. Observe a menor partícula do seu cotovelo esquerdo, e quando tiver consciência dela vislumbre o seu cotovelo direito e, neste momento, encontrarás a resposta que buscas.
- Cotovelo esquerdo? Cotovelo direito?
- Sim.
E foi neste exato momento que começou a sua angústia. O fato é que ficou horas, dias, semanas, meses e anos observando o seu cotovelo esquerdo sem nada acontecer. E, em nada acontecendo, não podia passar para o cotovelo direito que iria, em tese, comprovar a teoria do seu Mestre.
Agora, depois de tantos anos de uma busca infrutífera e rendido diante da sua ignorância, foi, humildemente, procurar o seu Mestre.
- Mestre?
- Sim.
- Lembra do cotovelo esquerdo e do direito?
- Sim.
- Passei todos estes anos meditando e nada consegui. Humildemente, venho suplicar que o senhor me revele o seu segredo.
Surpreendentemente o Mestre respondeu:
- Sim, eu vou atender ao seu pedido!
- O que devo fazer?
- Escutar!
- Estou escutando!
- Feche os seus olhos e procure abstrair. Aniquile o seu ego e dê passagem para o seu espírito – falou o Mestre.
Depois de um tempo, o Mestre continuou.
- Agora, vá com o seu espírito para um átomo, apenas um, do seu cotovelo esquerdo. Foi? Agora, imagine que você está nele na mesma proporção em que está no planeta Terra. Imaginou? Ótimo!
Em seguida, continuou.
- Nesta referência, procure se olhar como um todo. O que você está vendo?
- Estou vendo milhões de pequenos planetas, ou melhor, átomos. É incrível! Eles estão separados em anos luz de distância um do outro. – respondeu o discípulo.
- É verdade, é isso mesmo o que você dever estar vendo. Qual a sua conclusão desta visão?
- É que eu sou formado por milhões de átomos, mas, entretanto, nesta referência, eu não sou mais uma massa concreta, um corpo denso, muito pelo contrário, sou formado por espaços entre si.
- Sim. É isso que você é. Que todos somos. Somos uma aglutinação de energias. Tudo é uma questão da referência. Desta que você está, a micro, é assim que você parece ser.
- Pareço ser?
- Sim, apenas parece ser.
- Como assim?
- Agora, procure mentalizar um átomo qualquer que esteja localizado no seu cotovelo direito. Agora vá para ele da mesma forma que o fez no seu cotovelo esquerdo. Mentalizou? Agora olhe para aquele mesmo átomo do seu cotovelo esquerdo. Nesta perspectiva, você juraria que ele não é você. Seria, nesta relação, apenas mais um átomo, distante de você e, no entanto, ele é você. Ele o é, assim como todos os milhões de átomos que o compõe.
- Acho que entendi...
- Neste micro universo em que você está mergulhado - continuou o Mestre - eu, que não faço parte dele, continuo te vendo apenas como uma massa de carne que chamo de discípulo. Aparentemente concreto e sem espaços possíveis de serem observados.
O discípulo ficou extasiado. Sem possibilitar qualquer reflexão ao seu aluno, o Mestre continuou:
- Agora volte! Voltou? Então imagine o nosso Sistema Solar. Imaginou? Agora a Via Láctea. Imaginou? Amplie ainda mais a sua visão e materialize na sua alma milhares de sistemas solares. Da onde você está não é possível ver o todo, assim como no átomo do seu cotovelo você não conseguiu se ver. Ainda assim, a realidade externa é exatamente igual à realidade interna. O que é Macro, Micro também o é. Em outras palavras, se Deus, seja Ele o que for, é o Todo, tudo que Nele está contido é sua própria fração, que na soma, o torna absoluto em si mesmo. Desta forma, fica claro que eu sou você e você sou eu, pois ambos somos parte integrante da sua soma, assim como todas as criaturas que o compõem. .
- Finalmente entendi. É tudo tão simples...
- Sim! E esse é o paradoxo, pois todos procuram fora o que dentro está.
- Mestre, apenas uma última pergunta...
- Sim.
- Um Mestre nunca revela ao seu discípulo a lição dada. O senhor revelou-me. Qual o motivo que o levou a isso?
- O tempo é findo!
Rubens Costa - 06/02/2008
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