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Maurício de Souza
O pai da Turma da Mônica

Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão. Quem não conhece este quarteto que diverte crianças e adultos há mais de 40 anos? O pai de toda esta galera, não pára de preparar novidades. Durante a bienal do livro, em agosto, lançou a Turma da Mônica Jovem que, este mês, em sua quarta edição, encerra a primeira história com o tão esperado beijo entre a Mônica e o Cebolinha.

Maurício de Souza nasceu em Santa Isabel, mas passou a maior parte da sua infância e juventude em Mogi das Cruzes. Lembra dos tempos de infância com a nostalgia gostosa de quem viveu plenamente essa fase da vida. “Curti tanto, que o que sinto, pensando no passado, beira mais a saciedade do que a saudade”. Filho de poetas, Maurício tornou-se amante da literatura e da música.

Com metas pensadas e cumpridas na maior parte das vezes, Maurício de Souza, tornou-se um grande desenhista, proprietário de estúdio e detentor do maior licenciamento do País.

Fã de Gabriel García Marquez, Vargas Llosa, Jorge Amado, Angeli e do Spirit de Will Eisner, Maurício de Souza ama também seus dez filhos, (isso mesmo! 10 filhos!) com quem faz questão de compartilhar as emoções radicais. “Adoro isso! Falta saltar de pára-quedas e voar de asa delta.”
Conheça um pouco mais da sua história.

Você ainda visita Santa Isabel e Mogi, suas cidades de nascimento e infância? O que elas ainda mantêm dos tempos de antigamente? O que ficou só na memória? Do que você tem saudades?

Santa Isabel ainda guarda muito das velhas paisagens com suas montanhas ainda cobertas de vegetação cercando ruas. E tenho ido lá, sim, de vez em quando, para um ou outro evento ligado a escolas, à cultura. Há um plano para a criação de um museu na casa onde nasci. Mogi, onde passei a maior parte da infância e juventude, me vê de vez em quando. Eu é que não vejo mais minha Mogi. Tudo mudou. É natural. A cidade cresceu, prosperou, e a minha Mogi ficou na memória e nas velhas fotos. Como nostalgia gostosa. Mas curti tanto minha infância, minha juventude, que o que sinto, pensando no passado, beira mais a saciedade do que a saudade. Vivi por inteiro aqueles belos anos.

Em sua biografia consta que seus pais eram poetas. O quanto isso influenciou seu gosto pela literatura e pela ilustração?

Pais poetas, escritores, compositores, pintores nos cercam de um ambiente todo propício para seguirmos o caminho artístico. Nada como abrir os olhos num ambiente com música, livros, desenhos, criatividade. Assim, aprendi a folhear livros desde bebê, a ver figuras desde sempre, a ler desde que me caíram nas mãos os primeiros gibis.

Que livros estão hoje na sua mesa de cabeceira? Quais seus autores favoritos/mais lidos?

Além dos bons quadrinhos, gosto de romancistas como Gabriel García Marquez, Vargas Llosa, Jorge Amado...

Quais seus personagens de quadrinhos favoritos?

Brucutu, Dick Tracy, Spirit, Asterix, Calvin, Capitão Marvel, Ferdinando, Corto Maltese, Mafalda, Rango, todos do Angeli, Níquel Náusea, dentre muitos outros.

Quem foi seu maior inspirador?

Dentre os desenhistas, Will Eisner. Eu lia as histórias do Spirit desde criança. E quando adulto, tive a satisfação de ser seu amigo.

Qual ilustrador atual você destaca?

Temos muitos bons desenhistas. Dos brasileiros, gosto muito do que o Angeli faz.

Quando você teve certeza de que o desenho era o seu caminho profissional?

Vim caminhando em direção ao desenho profissional desde criança. Mas, como todos os jovens, houve momentos de dúvida sobre a profissão. Adorava desenhar, mas também pensava em seguir a carreira musical. Ganhou o desenho.

Como começou sua vida profissional como ilustrador?

Depois de alguns desenhos publicados em jornais de Mogi das Cruzes, quando eu ainda era bem jovem, cheguei a São Paulo buscando um cargo de ilustrador. Não consegui. Fui ser repórter policial na Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo). Mas aqui e ali ilustrava minhas próprias matérias. Até que, em 1959, consegui publicar a tira do Franginha e Bidu, meus primeiros personagens. Então, me decidi pelos quadrinhos. Isso foi 5 a 6 anos depois do início da carreira de repórter.

Da sua contratação até os dias de hoje. O quanto cresceu Mauricio de Sousa nesses 50 anos de vida profissional? De desenhista de um único personagem a proprietário de estúdio e detentor do maior licenciamento do País, como foi essa trajetória?

Naturalmente, foi de muito trabalho. Com metas pensadas e cumpridas na maior parte das vezes. De qualquer modo, tudo o que faço hoje foi planejado há muitos anos, em alguns casos desde o início das minhas atividades profissionais. Mas muitos dos projetos demoraram a sair, a darem certo. O que sempre encarei como uma coisa normal... como também é normal em mim não desistir.

Como lida com a pirataria? Por que seus produtos não são encontrados com freqüência em camelôs e na rua 25 de março? Vocês têm algum tipo de controle?

Tenho um bom serviço para vigilância e ações necessárias para detectar e apreender produtos com nossas marcas. Dá trabalho, é caro, mas necessário. Mesmo assim, sempre aparece um “piratinha”.

Por que depois de montar sua equipe de desenhistas e roteiristas, continua desenhando pessoalmente as histórias de Horácio? Alguma predileção pelo personagem?

Tentei passar todos os personagens para a equipe. E os resultados têm sido ótimos. Ao contrário do Horácio, que não foi bem “entendido” pelos nossos roteiristas. Mas... é uma história que eu prefiro desenhar, mesmo. Me dou, ali.

Como se dá seu processo de criação? Primeiro vem o desenho ou a personalidade?

Primeiro nasce um rascunho. Depois “preenchemos” com a alma. E, depois, soltamos no mundo, ou melhor, dentro de um roteiro.

É verdade que cada um de seus dez filhos é inspiração para um personagem? Quem é quem e por quê?

A Mariangela virou a Maria Cebolinha. Era tal e qual, quando engatinhava pela casa. A Mônica é a própria. A Magali, também. Depois veio o Mauricio Spada que virou Professor Spada, que se transforma no temível Dr. Spam. As gêmeas Vanda e Valéria vêm em seguida (lançadas nas revistas da Mônica Jovem), a Marina é a própria, o Mauro é o Nimbus, o Mauricio Takeda é o Do Contra, e fica faltando somente o Marcelinho, caçula, ainda em estudos.

Como é ter um personagem como a Mônica que é embaixadora da UNICEF e do turismo do Brasil?

Essas indicações aumentam nossa responsabilidade junto ao público, principalmente o infantil, porque a Mônica, como embaixadora do UNICEF ou do turismo brasileiro, tem que se conservar como uma referência em termos de valores e comportamento. Estamos cuidando para que essa boa imagem se mantenha em trabalhos ligados ao turismo, à saúde, à educação.

Em jornais desde 1959 e na revista da Mônica desde 1970, seus personagens viram mais de uma geração crescer. Quais foram as principais mudanças entre as gerações e em que mudaram também seus personagens? O quanto eles acompanharam seus leitores?

Naturalmente houve mudanças comportamentais, de ótica social, de sistemas de vida nestes mais de 40 anos de criação da Turma da Mônica. E nosso trabalho é fazer com que a turminha acompanhe essa evolução para continuar falando a língua do leitor.

De onde surgiu a idéia de “adolescer” os personagens? Como ficaram a Mônica, o Cebolinha, a Magali e o Cascão? Como foi o processo de adaptação de cada um da infância para a juventude? Com que idade eles estão hoje? O que vai ser dos personagens Rolo, Tina e Pipa?

Em primeiro lugar, é bom esclarecer que a Turma da Mônica tradicional continua forte como nunca. A Turma da Tina é voltada para um público jovem e adulto, e tem vida própria além da turminha.
A Turma da Mônica Jovem veio de uma lacuna que tínhamos entre essas duas faixas de público, que fica entre os adolescentes de 15 anos em média. Percebi que estávamos perdendo leitores dessa faixa para os mangás (quadrinhos japoneses). Como já havia uma curiosidade sobre como seriam os personagens na adolescência, tanto do público quanto nossa, resolvemos encarar o desafio. Eles são os mesmos personagens, com uns anos a mais.
O Cebolinha fez um tratamento com uma fonoaudióloga e resolveu seu problema de troca de “r” por “l”, em parte. Ainda fala “elado” quando está nervoso ou em situação difícil. A Magali continua comendo, mas agora pensa melhor na qualidade da comida que come. A Mônica está mocinha, mas não abandonou seu gênio forte e nem seu coelhinho. O Cascão já tomou banho, apesar de não gostar - ele vive precisando de mais banhos por causa de sua prática de esportes radicais.

Por que a opção pelo estilo mangá com histórias em preto-e-branco?

Há algum tempo venho observando o efeito mangá em uma fatia de público jovem. Fui muito amigo de Osamu Tezuka, o desenhista que lançou esse estilo, e até tínhamos planos de trabalharmos juntos num filme. Mas na produção da Turma da Mônica Jovem acho que fazemos um mangá diferente, uma mescla do estilo tradicional japonês com o nosso traço. O mangá é produzido normalmente em preto-e-branco e em capítulos, como estamos publicando.

Quem criou os figurinos? Qual é o estilo de cada personagem? Eles são antenados com a moda?

O público adolescente é muito bem informado sobre o que lhe interessa. E o modo de se vestir é um item importante. Foi primordial a ajuda da Alice Takeda, diretora de arte do estúdio e minha esposa. Tem que ter uma percepção aguçada para isso, pois os personagens crescidos não terão roupas fixas e podem mudar a cada história. Os meninos gostam de roupas mais largas e despojadas. Já as meninas gostam de combinar cores e formas.

Acha que as histórias darão espaço para discutir temas como gravidez na adolescência, drogas, tecnologia, primeiro emprego?

Claro que podemos discutir diversos temas que façam parte dos questionamentos dos jovens nos dias atuais, mas sempre lembrando que muitas crianças estão lendo essas histórias também. Assim precisamos ter cuidado com a forma de comunicação, com as informações.

Quem é este novo leitor?

É o leitor antenado em seu tempo e mais exigente quanto ao conteúdo das histórias. Quer personagens falando de suas realidades, seus amores, suas frustrações e alegrias.

Quais seus projetos para o futuro?

Vamos continuar nessa interatividade com o leitor. Tenho lido as cartas, emails e discussões no Orkut e algumas críticas nos servem de balizamento.

Em tempos de final de ano, alguma mensagem para o Natal e ano novo?

Os mesmos votos de sempre. Feliz Natal e um bom ano novo para todos. Com muito gibi à mesa. Além de todo o restante necessário, lógico.

O que deseja em 2009 para você, sua família, seus personagens, seu público, o Brasil e o mundo?

Muito bom humor. Em cada momento.