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Meio Ambiente

Colocar a cidade no século XXI
Práticas políticas clientelistas mantêm a população de Cotia à margem da discussão e da
tomada de decisões das questões que afetam todos nós.

Andei fazendo uma consulta informal a amigos ligados à área ambiental e confirmei algo que, no fundo, eu já intuía: nenhum deles acredita que a gestão de Carlos Camargo na prefeitura de Cotia faça alguma diferença significativa em relação ao crescimento sustentável do município. E isso se deve a um ponto fundamental: não há nenhum sinal de que haverá interação entre governo e população para debater seriamente os problemas que afetam Cotia. Como de hábito nesta cidade, as decisões que dizem respeito a todos nós já estão sendo tomadas a portas fechadas, por um número pequeno de assessores, sem debate nem consulta pública (lembremos: as tais “consultas públicas” quando da elaboração da nova Lei de Zoneamento foram farsescas. A participação popular foi mínima e a estrutura das reuniões impedia a real discussão do tema em pauta).

Nem mesmo a iniciativa (louvável) de uma ampla pesquisa em todo o município, para definir prioridades de governo com base nas necessidades dos cidadãos, deu bons frutos. Por um lado porque parcelas significativas da população não foram ouvidas – a promessa de levar a pesquisa a todas as casas caiu no vazio –, o que conduziu a um levantamento tendencioso, representativo apenas das necessidades daqueles que responderam à pesquisa. (O Parque Rincão é um exemplo disso: os moradores dos sítios e chácaras, bem como o pessoal que vive e trabalha ao longo da Fernando Nobre, não foram ouvidos; o pessoal da prefeitura limitou-se à área de ocupação da rua José Menino, que corresponde, se tanto, a 0,01% da população do bairro). Por outro lado, essas pesquisas não foram tornadas públicas – embora custeadas com dinheiro público –, o que inviabiliza, aos cidadãos interessados nos destinos da cidade, o conhecimento e a avaliação de seus resultados.

Em resumo, as informações continuam circulando apenas entre assessores escolhidos a dedo. Nós, o povo, permanecemos à margem dos processos de discussão e decisão de assuntos que afetam diretamente nossas vidas. Essa centralização de temas públicos em gabinetes governamentais é causa e conseqüência do mal maior que está na base da história deste país: a vocação autoritária. Avançamos muito, com a organização e a mobilização de vários setores da sociedade – do sindicalismo sem pelegos às Pastorais católicas e a movimentos como os dos indígenas, dos trabalhadores sem-terra e sem-teto, os Fóruns Sociais regionais e tantos outros –, mas Cotia parece impermeável a essa realidade. Como eu já disse em outra oportunidade, é preciso tirar esta cidade da era feudal e trazê-la ao século XXI.

Na primeira entrevista coletiva concedida por Carlos Camargo, logo após as eleições, senti uma lufada de ar renovador. A disposição do prefeito eleito em reunir-se periodicamente com a imprensa para, por intermédio dela, prestar contas aos munícipes, é uma iniciativa importante – caso venha a se concretizar, claro. Outro passo fundamental foi o compromisso que Camargo assumiu diante de todos quando lhe sugeri criar, a exemplo do que aconteceu em Ribeirão Bonito, uma Sala da Transparência, na qual os cidadãos interessados possam ter, a qualquer momento, acesso, entre outros, a dados relativos a gastos públicos, legislação municipal, folha de pagamento, origem e destino das verbas municipais. Carlos Camargo prometeu criar a Sala da Transparência cotiana, como prometeu assinar o Compromisso Público anticorrupção e pró-transparência.

Quando, após a coletiva, procurei Camargo em separado para detalhar esses assuntos – além de indagar como ele pretendia implementar a gestão democrática da cidade (da qual falara rapidamente na coletiva), o orçamento participativo e que soluções seriam encaminhadas para os problemas da região da Fernando Nobre –, ele não me deu ouvidos. Atendeu, em particular, alguns representantes da mídia (a promessa era de que atenderia a todos) e só. O restante do tempo foi dedicado a cumprimentos a pessoas que não deveriam estar no evento e a posar para fotos com fãs e eleitores (que tampouco deveriam estar na coletiva, destinada à imprensa).

Encaminhei algumas questões a ele, por meio de sua assessoria de imprensa, sempre solícita. Dois meses depois, ainda aguardo as respostas. Sei que é importante dar um voto de confiança ao novo governo, mas, diante dos fatos, volto ao ponto inicial deste artigo: não há nenhum sinal de que haverá interação entre governo e população para debater seriamente os problemas que afetam Cotia. Entre eles, obviamente, encontra-se a questão ambiental, numa cidade que continua permitindo a expansão imobiliária desordenada, a instalação de “bota-fora” (terrenos onde o lixo é depositado de maneira irregular e ilegal) em áreas vegetadas e de mananciais, as queimadas de mata e de dejetos tóxicos, a poluição sonora.

Assim, fica difícil imaginar Cotia participando do século XXI. Teremos mais quatro anos de práticas medievais? Com a palavra, o prefeito eleito. Espero que com este convite público possamos dar boas notícias aos leitores.


Baby Siqueira Abrão, jornalista, autora e editora de livros, é formada em Filosofia
pela USP e pesquisadora nas áreas de Ciências e Ambientalismo, Ética e
Responsabilidade Social Corporativa.

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