Câmeras na Raposo
 
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Crianças violentadas, infância assassinada

Maria Irene Maluf, especialista em Educação Especial e em Psicopedagogia, fala sobre o desenvolvimento da criança de corpo e mentes violados

Diariamente notícias relatam casos de abuso e violência cometidos contra as crianças de diferentes faixas etárias e classes sociais. Inúmeros casos de pedofilia, mau trato por parte dos pais e babás entre outros, geralmente não são denunciados e seus  agressores permanecem impunes.

Por mais que a violência nos diversos setores da sociedade nos impressione, atemorize e cause repulsa, nada é tão lastimável e chocante quanto o abuso e o estupro de meninas cujo autor é justamente um homem que lhes deve socialmente proteção: o pai, o padrasto, o avô, o irmão....

Pior ainda quando vemos que a vítima não é uma só vez manipulada pelo poder dos adultos: quando grávidas essas garotinhas de corpo e mente violada, correm o risco de perder a própria vida enquanto a decisão sobre o que fazer para diminuir a sua dor e lhes emprestar um mínimo de dignidade, tramita entre longas  reflexões teóricas, o descaso e o preconceito.

Donas de corpos ainda imaturos para a sexualidade e logicamente também para a maternidade, muitas vezes sub-nutridas, crianças de todas as idades, muitas vezes nascidas sob o signo da irresponsabilidade, da indiferença e do acaso, coabitam com adultos que não lhes prestam o cuidado que a idade exige e nem o atendimento mínimo necessário para qualquer desenvolvimento saudável, quer físico, emocional, mental, nem no aspecto preditivo, nem no preventivo e nem mesmo no remediativo. Largadas à própria sorte, essas crianças formam um contingente de semi-analfabetas, desnutridas, abandonadas e fáceis presas de uma vida de exploração.

Conclusão: cada vez mais depauperadas, abusadas física, mental e moralmente, chegam à adolescência sem qualquer formação e ainda são julgadas por atos pelos quais não tiveram poder de opção e por segmentos de todas as esferas, quer social, quer religiosa e chegam a ser expurgadas por quem lhes deveria ofertar compreensão, apoio, educação e um mínimo de dignidade humana.

Como é possível ignorar tantas vezes essas meninas abusadas? Onde se esconde nesse momento o bom senso, a humanidade, o sentimento de amor pelo próximo? São crianças que deveriam estar brincando, estudando, sendo amadas, respeitadas e protegidas por seus familiares, pela sociedade, pelo Estado e pela Igreja. Onde estava sua mãe, seu pai, que não preveniu o perigo, não a protegeu? Onde estavam seus professores que não perceberam ou não denunciaram as suspeitas que as marcas do abuso, da violência sempre deixam no corpo, no comportamento e até na capacidade de aprender? Onde estavam os adultos que lidam com as comunidades onde vivem tais meninas?

Na verdade, o maior abuso ainda não é só a violação física e mental, o descaso, o desrespeito. Abuso maior é a repetição de casos e mais casos, anos a fio, sem que os culpados, os responsáveis sejam punidos de modo exemplar e sejam - esses sim - banidos da sociedade, mantidos longe da família e principalmente da vítima, que com seu comportamento abominável, arrancou da infância.

Maria Irene Maluf

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