Algumas observações sobre as uniões interreligiosas...
A psicóloga Mariana Taliba Chalfon cita que a tolerância e a postura disponível para o diálogo aberto ajudam o casal a estabelecer referências para a convivência familiar e para a orientação religiosa de seus filhos
As uniões interreligiosas são aquelas cujos cônjuges pertencem a diferentes religiões e optam pela não-conversão. O casal que vive nessa situação apresenta, pelo menos teoricamente, uma certa disponibilidade para conviver com o outro considerado “diferente” pelo fato de não haver imposição de uma ou outra crença religiosa. Sendo assim, o homem pode ser católico e a mulher budista, ou judeu e adventista, e assim por diante.
As diferentes combinações interreligiosas podem ser inúmeras, e o casal que toma a decisão de partilhar uma mesma casa e não partilhar a mesma crença parece estar disposto a conviver com diferenças... No caso das divergências religiosas, elas se expressam para além do templo ou igreja e ganham espaço no cotidiano, aparecendo na celebração de datas religiosas, na alimentação, no vestuário, no dia da semana tido como “santo”, nos hábitos de oração e nas tradições da religião, entre outras coisas... Por isso é importante que o casal tenha consciência do lugar que a crença religiosa ocupa na vida de cada um e os desdobramentos que ela implica.
Existem diversas maneiras de se relacionar com a religião, mas aqui vamos citar apenas duas possibilidades comumente observadas para exemplificar a situação. A religião pode estar configurada como uma “busca espiritual” e, dessa maneira, estará formatada de modo muito peculiar na vida de cada um com orações, devoções e práticas significativas. Não é regra mas, geralmente, aqueles que vivenciam de maneira mais acentuada este aspecto da religião se posicionam mais independentemente em relação aos dogmas estabelecidos por determinada instituição religiosa. No entanto, a religião pode ser vivida de outra maneira, ressaltando a idéia de “comunidade”. Viver a religião configurada por cunho comunitário implica em estabelecer relações sociais por meio dela, e a religião olhada sob este aspecto formata uma rede de apoio social onde os indivíduos podem ajudar e serem ajudados ao mesmo tempo. Alguns exemplos deste caso são os grupos de encontro de casais, orações ou ajuda aos necessitados. Geralmente, quem vive a religião desta segunda maneira está em constante interação com a comunidade e sua instituição religiosa.
A percepção dos parceiros a respeito destas possíveis maneiras de vivenciar a religião pode facilitar a convivência mútua, uma vez que aponta os desdobramentos que a crença tem no cotidiano e as diferenças com as quais irão se deparar. Nestes casos a tolerância e a postura disponível para o diálogo aberto são qualidades primorosas que ajudam o casal a estabelecer referências para a convivência familiar e para a orientação religiosa de seus filhos.
* Mariana Taliba Chalfon é psicóloga e autora do livro “Entre a Cruz e a Estrela”.
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