Respiração correta: é sinônimo de qualidade de vida?
Dr. Ernesto Nascimento Filho, cirurgião-dentista, comenta a importância de uma respiração correta e cita os problemas ocasionados pela dificuldade na respiração
O nariz não é enfeite! O ser humano utiliza o nariz não apenas para usufruir do sentido do olfato, mas também para possibilitar que o ar inspirado chegue aos pulmões devidamente filtrado, aquecido e umidificado, assim independentemente da temperatura ambiente, o ar que passa pelo nariz chega aos pulmões com a temperatura corpórea.
Rinite alérgica, amigdalite crônica hipertrófica (aumento das amígdalas), crescimento da adenóide (uma espécie de amígdala localizada atrás do nariz), desvio de septo nasal e uma língua grande demais, são algumas das causas que levam crianças, adolescentes e adultos a não respirarem normalmente pelo nariz.
Os chamados ‘Respiradores Orais’ são obrigados a manter a boca aberta constantemente para suprir a deficiência do ar inspirado normalmente pelo nariz. A ‘Respiração Oral’ faz com que a língua repouse no assoalho da boca, deixando de exercer pressão no palato, o que ocasiona estreitamento no maxilar e o palato assume uma forma ogival. Maxilares mais estreitos também provocam estreitamento na arcada dentária superior (dificultando uma erupção dentária normal), gerando uma má oclusão dentária e com isto prejuízo na mastigação, principalmente por alimentos sólidos. Mandíbulas caídas em consequência de boca constantemente aberta, associada com maxilar estreito tornam a face longa e estreita.
‘Respiradores Orais’ apresentam certas características físicas que facilitam sua identificação, entre elas, o selamento labial inadequado. Este fato adicionado a exposição da gengiva ao sorrir, clínicos e pesquisadores afirmavam que o aumento de lesões de cárie e gengivite ocorria somente na região anterior da boca, devido a desidratação salivar, naqueles que fazem ‘Respiração Oral’. Estudo clínico realizado na cidade de São Paulo com crianças ‘Respiradoras Orais’ na faixa etária de três a cinco anos, com dentição decídua completa (dentes de leite) e ainda sem os primeiros molares permanentes, demonstrou diferenças significativas na quantidade de lesões incipientes ativas (lesão de cárie inicial, estágio reversível) nos dentes posteriores, quando comparadas com crianças respiradoras nasais da mesma faixa etária. Estes resultados sugerem que a suscetibilidade à lesões de cárie é maior em crianças ‘Respiradoras Orais’, não se restringindo somente à região anterior da boca, mas também à posterior.
Pesquisas com crianças a partir de três anos de idade com dentição decídua completa e mista, que analisou toda a arcada dentária, observou-se um índice de sangramento gengival por toda a gengiva significativamente maior nas crianças ‘Respiradoras Orais’, sugerindo que os efeitos maléficos da ‘Respiração Oral’ não se restringem à região anterior da arcada, mas também à posterior.
Todos os problemas provocados pela dificuldade de respiração pelo nariz, exigem tratamento multidisciplinar. Para evitar complicações na adolescência e na fase adulta precisamos “arrancar o mal pela raiz”. Primeiramente, os pais devem procurar ajuda de especialistas de outras áreas como otorrinolaringologistas ou alergistas. O problema é que mesmo resolvida a causa da obstrução nasal, muitos não perdem o hábito de respirar pela boca. Neste caso um fonoaudiólogo também deve ser consultado.
Como identificar uma criança que respira pela boca
- abertura constante da boca principalmente ao dormir
- olheiras
- cansaço
- sono agitado
- dificuldade de mastigar
- ingestão de líquidos durante a mastigação
- preferência por alimentos pastosos
- alterações na fala
- ronco
- hábito de babar a dormir
- apnéia noturna
- lábio inferior mole voltado para fora
- exposição de gengiva ao sorrir
- má oclusão dentária
- cuspir ao falar
- cabeça e ombro projetados para frente
- diâmetro vertical da face mais alongado
Dr. Ernesto Nascimento Filho, Cirurgião Dentista e Pesquisador da Universidade Federal de São Paulo
Mestre em Ciências Otorrinolaringológicas – UNIFESP
Comente este artigo