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Conflitos entre casais podem culminar em atos de violência contra os filhos

Sebastião Alves de Souza, psicólogo e terapeuta familiar, comenta que identificar personalidades egocêntricas e tentar resolver desentendimentos sem envolver os filhos é a melhor atitude

Nos últimos tempos, a violência tem estado mais presente dentro de casa. Diariamente, os veículos de comunicação divulgam casos de agressão, maus-tratos e até assassinatos, principalmente de crianças. Os abusos partem de pais, padrastos, madrastas e até avós – que habitualmente eram tidos como generosos com os netos.

Muitas vezes esses casos de violência são causados por conflitos e crises não resolvidos entre os casais que transformam filhos em vítimas de retaliações e de vinganças: crianças e adolescentes inocentes morrem e sofrem agressões físicas de alto grau de perversidade por conta de distúrbios emocionais e psíquicos que emergem na relação conjugal.

De um ano para cá, o caso que mais chamou a atenção da opinião pública foi o da família Nardoni, cujo pai e a madrasta teriam matado a pequena Isabella ao atirá-la pela janela do apartamento. Até hoje o casal não foi julgado, mas não há outros suspeitos. Mais recentemente, um pai em Goiânia roubou um avião, sequestrou a filha Penélope, de 5 anos, provocou queda da aeronave e consequente morte de ambos. Em São Paulo, um professor de Direito de 39 anos matou o filho de cinco e suicidou-se em seguida. Em todos esses casos, houve antecedentes de embates entre os pais – geralmente por ciúme ou pela guarda dos menores.

Crianças e adolescentes são envolvidos nos conflitos entre pai e mãe e se tornam vítimas de agressões físicas, maus-tratos de toda espécie, abusos sexuais, sequestros e homicídios. Disputas de guarda e partilhas de bens materiais são usadas como desculpas para retaliações por um dos pais e quem sofre com as consequências de atos impensados e perversos são os filhos.

Lembro de outro motivo para desentendimentos: novas formações familiares, em que os pais trazem, para a convivência do casal, filhos de outros casamentos, tornam a vida de crianças e adolescentes conflituosa. A adaptação a novos hábitos, somada a rancores entre os ex-cônjuges e a não aceitação, pelos filhos, da madrasta ou do padrasto, culmina em situações bastante complexas. Este não é um padrão ou regra, pois nem toda família recasada é um desastre.

O ato extremo de tirar a vida de inocentes pode ser considerado uma psicopatia em alto grau. Deixa sequelas emocionais e psíquicas permanentes em quem sobrevive. A mãe ou o pai que fica vivo carrega a culpa de não ter percebido que convivia com alguém afetado por sérios problemas emocionais e psiquiátricos.

Personalidade agressiva

Nem sempre é fácil ao leigo identificar a personalidade agressiva, já que ela pode ser guardada no inconsciente por toda uma vida. Porém, estudos indicam que a força de vida e o instinto de morte convivem no organismo dos seres vivos, principalmente dos seres humanos. Quem controla o instinto de morte é o sentido de vida e o instinto de conservação. Porém, em indivíduos com certas características de personalidade, o instinto de morte gera a pulsão de agressividade, que opera, muitas vezes, em silêncio. Essa pulsão só pode ser reconhecida quando a pessoa age em direção ao mundo externo, geralmente contra outros seres humanos.

Pessoas que não controlam a pulsão agressiva e autodestrutiva são indivíduos narcisistas que supervalorizam seu ‘eu’. Essas pessoas se consideram onipotentes e se sentem o próprio ‘deus’, com plenos direitos sobre sua vida e a de terceiros”, observa. “O narcisismo, de certa forma, as protege do ‘eu’ mas, quando se veem frustradas ou humilhadas, a proteção narcisista se rompe e cria brechas. Surge o ‘surto psicótico provisório’ e afloram sentimentos de inveja e destrutividade.

Enxergo, nesses casos, a idealização da morte como solução para todos os problemas: a banalização da vida numa sociedade competitiva e cheia de impunidades gera nos pais total insanidade mental, na qual os sentidos de vida e de morte se igualam – morrer e matar ou viver são duas facetas da mesma moeda.

Para evitar situações extremas, sugiro que o cônjuge perceba em seu par comportamentos de isolamento social e afetivo: devem-se observar eventuais reações explosivas e exageradas para fatos irrelevantes, além de onipotência, arrogância e egocentrismo. Esses indivíduos se comportam vingativamente, guardam rancor por muito tempo ou reagem intensamente em situações nas quais se sintam frustrados, vencidos ou perseguidos por tudo e todos. Geralmente desenvolvem profissões que lhes conferem autonomia e se escondem atrás de uma racionalidade patológica. São pessoas que não admitem perdas, seja no campo pessoal, emocional ou profissional.

Em minha opinião, a solução para famílias e casais é, diante de conflitos ou crises não resolvidas, fazer a distinção entre o que é a vida e o que é a morte. Enquanto isso não ocorrer, quem irá pagar o preço são crianças e adolescentes inocentes.

 

Sebastião Alves de Souza, psicólogo, terapeuta familiar e diretor da Escola VinculoVida


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