MEIO AMBIENTE

por Carlos Bocuhy

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Fevereiro - Eduardo Catharino


Inundação: como revogar
a Lei da Gravidade


Desde a semana passada, essa frase tem o poder de causar temor na população. A terça-feira, 7 de dezembro, amanheceu cinza e úmida em São Paulo. Se o problema fosse só o clima, os paulistanos poderiam se acostumar a ele. Afi nal, já fomos a terra da garoa. Mas, desta vez, muitos moradores da metrópole não conseguiram chegar a seus empregos e às salas de aula. A população ficou ilhada, envolta em águas poluídas e malcheirosas. Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram, carros foram cobertos pela água, os trens pararam, moradores perderam móveis e, o pior, alguns perderam seus entes queridos. A pane em uma das quatro bombas na Usina Elevatória de Traição, na Marginal Pinheiros, agravou a situação, que já é problemática. Cada vez mais a cidade está coberta por um tapete de concreto que invade o leito maior do rio – sua várzea. A quem reclamar sobre as inundações? Bem, Martin Afonso, Anchieta e Tibiriçá aninhavam-se nos altos do Pátio do Colégio, sábio exemplo ignorado pela especulação imobiliária. Tínhamos centenas de campos de futebol de várzea, quando a invasão cultural inglesa começou. Hoje são raros. Perdemos na democracia esportiva. Sem amplo acesso, mudou o perfil do jogador, já mais elitizado, depois que as várzeas foram destinadas a funções menos nobres e sábias do que conter inundações – e na estiagem proporcionar a prática esportiva. Perdemos mais. Perdemos inteligência na governança.

Cada vez mais a cidade está coberta
por um tapete de concreto que
invade o leito maior do rio – sua várzea.

Basta ouvir os depoimentos à imprensa negando e justifi cando o caos na cidade. A gestão do prefeito Gilberto Kassab deixou de investir R$ 353 milhões em obras de combate a enchentes na cidade de São Paulo. O governador José Serra disse que basta colocar mais bombas na Usina de Traição. Bom nome este, traição, não é? A obra pretende consolidar ainda mais o bombeamento do ralo para a caixa-d’água – do Pinheiros para a represa Billings, 30 metros acima, revogando a lei da gravidade. A represa Billings, que teve sua lei de proteção sancionada pelo governador José Serra este ano, transformou-se em uma “sopa de poluição e detritos”, como descreveu a jornalista Laura Capriglione, numa expedição arqueológica que acompanhei, como que para desvendar a cultura paulistana contemporânea, identificando nas margens garrafas Pet, galões de plástico, papéis, isopor, pedaços de madeira, calçados, embalagens de graxa, de óleo e mais uma infinidade de objetos de nossa voraz sociedade de consumo. Participei ativamente como representante ambientalista no Conselho Estadual de Meio Ambiente, de forma crítica, do processo de licenciamento do rebaixamento da calha do rio Tietê, apresentada à época como obra de saneamento. Para a contrariedade dos técnicos encarregados de comprovar a obra milagrosa, apontei insistentemente, em várias audiências públicas, a perenidade da obra, como um paciente safenado que continuaria dedicado ao tabagismo. Apontei a falta de declividade do Tietê e, consequentemente, a criação do maior piscinão do mundo, digno do Guinness Book.

Agora vamos continuar a política de nonsense. Vamos turbinar
o
ralo para a caixa-d’água, revogando a lei da gravidade.

A vida útil da obra? Quinze anos, no ritmo frenético de impermeabilização da metrópole. Isso foi em 1996. Segundo meus cálculos iniciais, a água voltaria a bater no bumbum do paulistano em 2011, e para esse conforto de 15 anos pagaríamos R$ 1,3 bilhão. Isso mesmo, R$ 86 milhões por ano.

Agora vamos continuar a política de nonsense. Vamos turbinar o ralo para a caixa-d’água, revogando a lei da gravidade. A Cidade do México preferiu outra obra megalômana – e a construiu. Um sistema de drenagem profunda, como um ralo aberto para a vertente oceânica por túneis. A moda pega. Santiago do Chile aventou recentemente a construção de um megaexaustor sobre a cidade para resolver o problema da poluição dos veículos. Aqui vamos resolver de forma ainda mais inteligente. Revogando tecnologicamente a lei da gravidade, vamos ligar o ralo com a caixa-d’água. Canal do Pinheiros, Billings, Cubatão... O que é pior: vamos privar o curso do Tietê e de seus sucessores até o estuário do Plata, criando um sistema para lançar a escassa água doce no oceano. Parece até um by-pass nos argentinos, só porque têm mais várzea para futebol por lá...


Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), conselheiro do Conselho Estadual de Meio Ambiente de São Paulo (Consema) e do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Cinama). Além disso, coordena o Programa Metrópoles Saudáveis, que tem o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Revista Circuito • Janeiro 2010