Câmeras na Raposo
 
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A biodanza

Monica Vilhena escreve sobre o sistema de integração humana, de renovação orgânica, de reeducação afetiva e de reaprendizagem das funções originárias da vida

 

A Biodanza é um “sistema de integração humana, de renovação orgânica, de reeducação afetiva e de reaprendizagem das funções originárias da vida, induzida por vivencias através da música, do canto, do movimento e por situações de encontro em grupo”. Esta é a definição clássica que aprendemos na formação de facilitadores de Biodanza, e, na prática, o que cada um desses elementos quer dizer?

Comecemos por entender que a Biodanza é um sistema que estimula a conexão com a vida integrando o indivíduo em três níveis fundamentais : consigo mesmo, com a espécie e com o universo.

A conexão intima consigo começa num abraço a si mesmo, protegendo a chama interior, promovendo a vivencia da felicidade de reconhecer-se continente do próprio ser e intensificando a consciência da maravilha de estar vivo e de ser único.

A conexão com o outro se vivencia no encontro. Perceber a vida que pulsa na batida do coração do amigo, a chama que ilumina o olhar e que revela a alma; sincronizar nossos ritmos, e fluir pela vida com movimentos que se adaptam dissipando a dualidade para vivenciar ser uno com o outro num movimento pleno de sentido.

Estamos sempre fazendo uma roda, em que os indivíduos de mãos dadas, comungam o sentimento de fluir numa totalidade cósmica, sem limites, de estar conectado com cada um e com tudo, sentindo-se pertencer ao Todo,. Não há separação entre o fora e o dentro. A vida que habita em mim é a mesma que permeia a tudo.

Ao despertar a conexão com a vida nesses três níveis, recuperamos a escuta de nossos instintos degradados, que estão na origem das enfermidades que assolam o mundo moderno. Os instintos têm por finalidade a adaptação ao meio ambiente e revela a sabedoria biológica de preservação da vida. Com a essa mesma sabedoria inata, todo organismo vivo tem a capacidade de se renovar e tende sempre ao equilíbrio dinâmico e à auto-regulação. A Biodanza propõe exercícios apropriados para cada situação, num ambiente enriquecido que acelera os processos integradores e a transformação do estilo de vida, aumentando a eficácia da restauração orgânica. Assim, um modo de vida coerente com os impulsos instintos significa a recuperação e manutenção da saúde.

Não é possível falar-se de conexão, de vínculo, sem falar da afetividade. O amor é o substrato necessário para que todo e qualquer processo de integração possa acontecer. A afetividade é capacidade de estabelecerem-se ligações afetivas com outras pessoas e com a natureza. Quando, na definição da Biodanza, afirma-se a “reeducação afetiva” temos a expressão da “condição de aridez e esterilidade na qual o amor é o grande ausente”, segundo Rolando Toro, antropólogo chileno, criador da Biodanza. A afetividade é um potencial inato e que garante a conservação da vida. Ao lado de todos os avanços tecnológicos, temos um enorme abismo no que se refere à sacralização da vida. A afetividade está atrofiada e não sabemos expressá-la. Vivemos um vazio existencial que tentamos preencher na busca incessante da juventude, beleza, conforto e consumo distanciando-nos muito do essencial.

Numa sessão de Biodanza, cria-se um espaço sagrado, no tempo mítico da vivencia do “aqui e agora” rompendo a separação entre o sagrado e o profano. A vida tem uma qualidade sagrada e as danças vão surgindo numa cerimônia de exaltação à graça de experimentar em si mesmo o sentir-se vivo e de pertencer ao todo maior. E são as pessoas o nosso mais poderoso meio ambiente. È na relação que nos revelamos, nos percebemos e existimos. São as pessoas que aceleram nossos processos de integração. Por isso a Biodanza não se faz individualmente. O grupo é a matriz de crescimento, o útero permissivo, acolhedor e afetivo.

Assim, deixamos o pensamento egoísta de pensar-nos como centro do Universo para voltarmo-nos para o Principio Biocêntrico, que coloca a Vida no centro, e o universo compreendido como um sistema vivo. Toda a vida é sagrada, portanto, o divino está presente em qualquer circunstancia em que a vida esteja presente. Nas palavras de Rolando Toro:

“Se você está vinculado de centro a centro com o principio de vida, experimenta a vinculação cosmobiologica, a antiga familiaridade com as pedras, com os pássaros, com o sol, com o mar. Se você age a partir do Principio Biocêntrico, pertence à resistência ecológica: quer os rios claros, transparentes, não poluídos; defende o respeito a fauna e a flora.... é um pedagogo, um amante e um artista. ... nossa meditação deriva numa técnica que consiste em estimular, criar e desenvolver vida nos demais, o que gera mais vida em nós mesmos.”

O termo Biodanza nasceu da meditação sobre o movimento natural da vida, e a metáfora “Biodanza, a dança da vida” traz o sentido original da dança como o “movimento pleno de sentido”. Esse é o convite que a Biodanza nos faz: de recuperarmos, em nós, o gesto pleno de sentido.

Experimente: todo primeiro sábado do mês, no Espaço Ulabina (Av. São Camilo, 288), das 20h às 22h.

Autor: Monica Vilhena (mv.biodanza@yahoo.com)

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