Gato maracajá e macaco son-gokuu
O acupuntor Yoshihiro Odo cita uma declaração de Marina Silva para ilustrar o momento atual da acupuntura no Brasil
“A onça sendo grande e desajeitada pediu para o gato Maracajá ensiná-la uma forma eficiente para ela se locomover com mais destreza e dinamismo. O gato a ensinou a dar pulos acrobáticos, fazer tocaia e a onça foi treinando… Um belo dia, a onça deu um pulo em seu professor a fim de comê-lo e ele correu e deu um pulo totalmente desconhecido. Então a onça exclamou: - “Poxa, gato, este pulo aí você não me ensinou !!!” Aí o gato respondeu:- “Se eu tivesse ensinado, você teria me comido”.
Moral da estória: os acupuntristas não tiveram ao longo do tempo a sabedoria do gato Maracajá. Não reservaram o trunfo, entregaram várias receitas de bandeja para os médicos que, hoje, só os reconhecem quando fazem a faculdade de Medicina.”
Este pequeno conto, citado na entrevista da Senadora Marina Silva no Jornal de acupuntura (www.cieph.com.br) ilustra o momento atual da acupuntura no Brasil.
Entretanto, pela sua limitação histórica e geográfica, a Senadora mostrou desconhecimento a respeito da categoria dos acupuntores originais independentes, os verdadeiros gatos maracajás. Os personagens que aparecem neste conto foram apenas a onça pintada de médico e os diversos terapeutas, as onças pintadas de acupunturistas.
Até mesmo pelo desconhecimento da amplitude do universo da acupuntura, as onças pintadas passaram a disputar algumas receitas de bandeja. Mesmo com estas poucas receitas, a Ordem médico-científica ficou deslumbrada e resolveu desbancar os outros para ser o seu dono exclusivo.
O mundo da acupuntura tem uma existência milenar, durante a qual aperfeiçoou a profissão do acupuntor original e independente. O universo de conhecimento acumulado dos acupuntores originais é tão amplo que não cabe dentro de uma determinada divisão da ciência, seja médica, fisioterapeutica, psicológica, enfermeira, etc… Não há como delimitar a acupuntura como complemento de atividades das profissões atualmente existentes no ocidente. O médico acupunturista, o fisioterapeuta acupunturista, o psicólogo acupunturista, os terapêutas alternatives acupunturistas, fazem da acupuntura apenas um complemento das suas práticas. E percebendo a eficácia terapêutica da acupuntura, mesmo com o seu conhecimento parcial, passaram a travar disputas deste conhecimento.
O acupuntor original, assim como o gato maracajá, se escondeu, não transmitiu os segredos mais importantes. Vale dizer que nem há como transmiti-los todos, de tão amplo que é o universo da acupuntura. Aliás as diversas onças pintadas se perderam na disputa pelo poder e não enxergaram ainda o tamanho o universo que tentaram incorporar.
Quero ilustrar este momento da disputa pela acupuntura com o seguinte conto budista do macaco Son-Gokuu, cuja estória inspirou o mangá e desenho animado “Dragon Ball”.
O macaco Son-Gokuu foi crescendo, adquirindo os conhecimentos e habilidades humanas, e junto com isso muitos poderes fantásticos. Usava um bastão que crescia e diminuía de acordo com a sua vontade. Dominava a núvem denominada “Kinto-un” e voava montado nela para qualquer canto do mundo. Adquiriu o poder para transformar cada um dos seus pelinhos em objetos que desejasse.
Com tantos poderes resolveu desafiar o imperador. Lutou e derrotou os seus exércitos. Já não restavam mais forças que defendesse o Imperador. Este então pediu ajuda ao buda Shakha-Muni.
O Buda prontamente aceitou conversar com o macaco Son-Gokuu.
- Gokuu é o seu nome ? deixe-me saber um pouco sobre você.
- Que monge é este ? de onde você é ?
- Gokuu, estou te perguntando primeiro. Onde você nasceu, como é que você veio parar aqui ?”
- Gokuu então contou a sua vida, desde o nascimento, o aprendizado sobre todos os seus poderes e conhecimentos. O Buda Shakha-Muni riu e comentou.
- O Imperador viveu mais de cem milhões de anos. Aprendendo e se aperfeiçoando para chegar ao que é. Você, macaco que qcaba de aprender as coisas, não é adversário para ele.
- Aprendi todas as 72 transformações, sei também voar sobre as nuvens. E num instante consigo voar oito mil léguas. Duvido que alguém me alcance.
- Então Gokuu, vamos fazer uma aposta.
- Que aposta ?
- Se você conseguir sair desta minha palma da mão converso com o Imperador para te passar o Trono deste mundo celestial. Que tal ?
-Que tarefa mais fácil. Está me subestimando. Desta palma da mão tão pequena, saio num pulo. Chamou a núvem Kinto-um e saiu voando.
Voou, cruzou as montanhas, mares, continentes, um dia inteiro, à noite e chegando de madrugada avistou cinco enormes torres. Se aproximou delas e concluiu: Estas devem ser as Torres do fim do mundo.
- Bem, vou assinar o meu nome para comprovar que cheguei até aqui.”
- Arrancou um pelo, trnasformou num pincel e escreveu seu nome. Aproveitou para urinar no pé de uma das torres.
Apanhou a nuvem Kinto-un e voou de volta. No meio do caminho escutou uma voz estrondosa vindo do céu.
- Pare com a brincadeira, Gokuu.
- Que voz é esta, onde você está ? E viu um enorme rosto no horizonte, era o rosto do Buda Shakha-Muni.
- Eu fui até o fim do mundo, onde encontrei umas torres e como prova assinei ali o meu nome, Se duvida venha comigo.
- Nem preciso ir.
- Por que ?
- Veja onde você está, veja a palma da mão.
- O que é isso ? O que aconte ?
- Gokuu viu que estava sobre a palma da mão do Shakha-Muni, e no seu dedo médio a assinatura do seu nome. Além disso, na base do dedo, uma mancha molhada.
- Envergonhado Gokuu chamou de novo a núvem para fugir. Mas Shakha-Muni, bravo, apanhou Gokuu pelo colarinho e o confinou debaixo da Serra dos cinco elementos. Gokuu foi condenado a viver 500 anos em confinamento e reflexão.
Mitologias, parábolas e contos fazem parte do ensino cultural e arquetípico no oriente para formar o homem sábio, simples e respeitador. Quem sabe o ensino no Brasil, com acesso às mais variadas culturas do mundo, desde as sabedorias dos índios – povos ancestrais – até as do extremo oriente, passando pelos povos e culturas de todos os continentes, venha a se redirecionar mais para a formação de sábios integrais e humildes e menos de intelectuais divididos, aficionados por honrarias e poderes.
Autor: Yoshihiro Odo - Acupuntor - Set/2003
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