Cara de bunda

“A massacrante rotina os transforma em máquinas de atender. Mal olham na cara do freguês e, apesar do esforço individual, caem na pressão das filas, dos chefes, dos mal-humorados de plantão e do escambau”

0
1182

Um dos meus esportes favoritos é quebrar o gelo nas situações rotineiras do dia a dia e acabar com a cara de bunda dos mal-humorados-nervosinhos da hora.

Desde as pessoas com quem cruzo no caminho até os caixas de supermercados, bancos, lotéricas, estacionamentos, manobristas, garçons, porteiros, operadores de telemarketing etc. Anônimos desconhecidos, cumprindo suas funções, mergulhados nos seus problemas, geralmente com uma rotina desgastante, estressados com um script a cumprir e com pouca disposição para conversar com estranhos.

Nos estabelecimentos comerciais os funcionários atendem centenas de pessoas em um pequeno espaço de tempo e são treinados para ser rápidos, eficientes e corteses. Nem sempre dá certo.  A massacrante rotina os transforma em máquinas de atender.

Mal olham na cara do freguês e, apesar do esforço individual, caem na pressão das filas, dos chefes, dos mal-humorados de plantão e do escambau.

Os clientes sofrem dos mesmos males. Ou seja, todos de cara feia, ou cara de bunda, mau humor, falando apenas o indispensável e prontos para explodir ao menor desvio na operação. E o cliente tem sempre razão.

Haja razão para aguentar as razões dos chatos da vez. Em ambos os lados há honrosas e divertidas exceções, que acabam transformando as rotinas em vida e em momentos saborosos. Voltando ao esporte favorito, quebrar o gelo e transformar as caras de bunda em sorrisos dá um prazer incomensurável!

Uma sensação de ir contra a maré de agressividade e paranoia que se apossa da maioria silenciosa.

Experimente fazer um cumprimento mais cordial, um sorriso mais largo, uma pergunta fora da rotina ou até mesmo um comentário engraçado com quem te atende.

Normalmente, a resposta vem em forma de um generoso sorriso, um olhar complacente e um agradecimento.

Você sente o gelo derretendo e a cara de bunda indo embora, e certamente contribuiu para um dia melhor para ambos.

Uma simples pergunta cordial fora da rotina mostra que você respeita quem te atende e melhora a autoestima alheia.

Se nada lhe convence a sorrir, pega essa: Segundo o Google, enquanto usamos 13 músculos para sorrir, a famosa cara de bunda movimenta 50. Sorrir com franqueza. É gratificante tirar pessoas do limbo da rotina e trazê-las a uma sintonia mais positiva. Está ao nosso alcance. É a mesma sensação de quando você dá a vez àquele mal-educado motorista que tenta furar a vez e entrar na sua frente.

Com um gesto cordial, você cede a vez e destrói a agressividade e a raiva que o cidadão tem do mundo e ele agradece constrangido com um sorriso amarelo. Na próxima vez, certamente, vai pensar melhor e pedir com educação para entrar na frente de alguém. Vai deixando de lado a hostilidade.

Com pequenos gestos vamos ajudando a construir uma sociedade mais feliz. É como bocejar. Já reparou que o bocejo é contagiante?

Quem vê um bocejo não resiste e boceja em seguida, criando uma reação em cadeia no ambiente.

Cordialidade atrai cordialidade e gera um ambiente de felicidade. Em países com altos índices de civilidade, como a Noruega, Dinamarca e Nova Zelândia, os índices de felicidade do povo são igualmente altos.

Sempre ouvimos que o brasileiro é, por natureza, um ser cordial. Estamos perdendo essa característica na medida em que os processos mecanizados e massificados avançam.

O mundo virtual também contribui para esse retrocesso isolando as pessoas e tornando-as mais egocêntricas, exigentes e distantes do mundo real. Então vamos quebrar o gelo e acabar com os caras de bunda?

Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas.