Onze jovens e muitas revelações

A REVISTA CIRCUITO reuniu 11 jovens de 18 anos para saber sobre seus sonhos, ansiedades e temores. A ideia era compreender melhor o mundo dos adolescentes contemporâneos. Para nossa agradável surpresa, o grupo dos 11 se engajou de maneira surpreendente num papo aberto e cabeça, mas com muita alma. Com isso, jogaram para escanteio visões estereotipadas e revelaram um universo de jovens adultos com os pés fincados no chão e a cabeça nas estrelas.

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É, vamos abrir com… vestibular. Nada mexe tanto com um adolescente dessa faixa etária quanto esse gargalo que divide o mundo e o sonho dos jovens e, por que não, dos pais também? Enzo Costa, ex-aluno do Colégio Objetivo, é o primeiro a falar. Não é para menos: seu alvo é uma vaga para Medicina. É, nada menos que Medicina. O que significa uma pressão gigantesca para conseguir um lugar ao sol preferencialmente numa universidade pública, afinal, uma privada bate na casa dos R$ 7 mil reais por mês – sem contar os materiais.

Enzo diz que sempre quis ser médico, desde pequeno. Quem olha para o moço esbelto, sentado com as costas bem eretas na cadeira, quase o vê vestido de jaleco branco, dada a postura séria e a forma responsável com a qual ele se manifesta. “Meus pais estão investindo muito em mim, é natural que queiram retorno”, justifica. É, se ele fosse um jovem médico sentando atrás de uma escrivaninha num consultório e você chegasse ali com dor nas costas, pegaria a receita dele e iria direto para a farmácia.

Como ele, Gustavo Lopez Fernandez, ex-aluno do Colégio Rio Branco, também mira na vaga para Medicina (e, sim, você também pegaria a prescrição de suas mãos, agradeceria e iria direto para a drogaria). Uma das pessoas que o inspiram nessa trajetória é o irmão mais velho, que já faz o curso na Faculdade São Camilo. Os olhos de Gustavo brilham quando ele conta do irmão chegando em casa depois daqueles terríveis plantões de 36 horas – uma daquelas coisas incompreensíveis da área médica, como é que se pode esperar de um ser humano ficar 36 horas trabalhando direto? – eufórico por ter salvado uma vida.

Há um eco do que gregos, como Sócrates, chamam de daimon – o gênio pessoal que guia o indivíduo na vida se a gente não atrapalhar – nesses jovens que começam, aos poucos, a se abrir. Você quase consegue ver neles o que o psicólogo James Hillman chamou de a semente do fruto do carvalho: a semente da árvore frondosa que um dia se tornarão. “Pensei em fazer Nutrição. Meu pai achava que eu deveria fazer Direito. Mas desde pequena eu tinha uma maquininha de costura e fazia roupinhas de boneca”, conta Giovana dos Santos Araújo, ex-aluna do Rio Branco, hoje cursando Moda na Faculdade Santa Marcelina.

Com toda a razão, os pais se preocupam quando os filhos almejam um alvo que não sugere bons rendimentos no futuro. Que pai sensato não gostaria que o filho tivesse recursos em abundância? “‘Você vai ganhar pouco’, disse meu pai, quando eu falei que queria ser veterinária”, conta Isabelle Nakamura, ex-aluna do Rio Branco que faz cursinho no Anglo para tentar uma vaga na Universidade de São Paulo, a USP.

Do km 22 da Rodovia Raposo Tavares, estamos cerca de dez quilômetros da USP, a maior instituição de ensino pública da América Latina. É pegar a Avenida Politécnica e entrar pelo glorioso portão 2, com suas árvores majestosas que lançam sombras suaves nesta época do ano. Não por acaso, ter uma testa lambuzada com essas três letrinhas é o sonho de muitos pais da Granja Viana e região.

Mas, por outro lado também, o que não falta em São Paulo é universidade privada de qualidade. João Pupin, ex-aluno do Colégio Sidarta, está cursando Direito na Faculdade Getulio Vargas. Ouviu do pai, procurador de Justiça, e da mãe, promotora de Justiça, que essa não era sua praia – ou área, se preferirem. Do ponto de vista psicológico, talvez seus pais não saibam (ou talvez o saibam bem) é que nas narrativas mitológicas, essa figura, chamada de guardião, tem a função de testar o comprometimento do jovem herói ou jovem heroína com a trajetória que está escolhendo ingressar. João insistiu e não só está gostando do curso como já está se demonstrando um futuro líder, por meio da participação ativa no Centro Acadêmico.

Yudi Strongoli, por exemplo, ex-aluno do Colégio Granja Viana, conta que “sempre foi da vibe do skate”. Na dúvida, “começou a raciocinar sobre o que fazer” no ensino superior. Por conta própria, ligou na Faculdade Cásper Líbero, uma das mais antigas e respeitadas instituições de São Paulo, e, no último minuto, encaminhou sua nota do Enem. Conseguiu o ingresso e está cursando Relações Públicas. Num certo sentido, percebeu e abriu seu próprio caminho, com segurança e maturidade.

Quando Paulo Henrique Morgani, do Colégio Mario Schenberg, fala o que gostaria de estudar, todos da sala quase juram ouvir “música audiovisual”. Uau, um novo curso. E parece bem legal. “Não”, ele esclarece, “música ou audiovisual”, conta Paulo, que desde pequeno tem canal no YouTube. Mas música audiovisual parece algo tão bacana, pensam todos – passa na mente o fantástico show recente do U2, no qual a música era alinhada de forma tão perfeita com os telões que projetavam imagens fantásticas que a imersão nessa ambiência era surpreendente. De fato, há demandas contemporâneas que ainda nem sequer foram pensadas como problemas, e que devem levar ainda um tempo para terem cursos superiores para atendê-las.

Eita mundo novo 

Muitos dos pais dos jovens de 18 anos nasceram na era pré-Internet. Isso faz toda a diferença. O desenvolvimento dos ambientes digitais mexeu com o mundo, que passou a ser conectado de uma forma veloz, sem precedentes. Difícil, às vezes, compreender os desafios dos nascidos no mundo digital.  Para começo de conversa, o indivíduo passou a ter uma possibilidade incrível de opções.

E onde é que esses jovens bebem na fonte de informações? Afinal, como indica o estereótipo, jovens não leem e não se informam, certo? É, errado de novo. Estes aqui, ao menos, sabem direitinho não cair em Fake News.

“Quando quero me informar sobre algo, jogo no Google, vejo as fontes, se é de um local renomado e de credibilidade”, conta Paulo. “Eu vejo as informações de um veículo mais alinhado com a esquerda, como a Carta Capital, e comparo com algum outro [mais à direita]”, diz Júlia Ducatti Pereira, do Colégio Rio Branco. Diferentemente dos adultos, com visões mais cristalizadas, os jovens parecem demonstrar uma abertura maior para cenários possíveis – pelo menos estes.

Desafios do gênero

E com a inserção da mulher no mercado de trabalho atingindo os níveis mais altos de todos os tempos, a questão de gênero começa a se diluir. Como lembra Evelyn Ferreira Lima, ex-aluna do Anglo que hoje faz cursinho na mesma escola para tentar uma vaga em Relações Públicas – como Yudi –, só que na… na Escola de Comunicações e Artes, a ECA, na USP. O papo resvala um pouco na questão de gênero. “Hoje, cada mulher escolhe o que quer fazer”, pontua Jasmin Caparroz, ex-aluna do Colégio Sidarta, hoje cursando Design.

Essas estudantes da área de Comunicação representam bem um cenário revelado em estudos recentes, como o que acaba de ser divulgado sobre o mercado de trabalho de jornalistas nos países do bloco do BRICS (que envolve Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), cuja análise no Brasil foi realizada pela pesquisadora Claudia Lago, da ECA-USP: as mulheres que atuam nesse segmento aqui não têm a percepção de que sofrem mais limites no desempenho de sua atividade do que os homens. Por exemplo: apesar de ser a maioria nas redações hoje em dia, elas ainda não ocupam cargos de liderança, portanto não têm, em geral, voz ativa na tomada de decisões. Por outro lado, elas cobram mais de si mesmas, sentindo-se mais responsáveis pelos cuidados com a família e filhos.

Paulo lembra que o Brasil “sempre foi uma sociedade machista” e que há questões, como a violência doméstica, que precisam ser discutidas.

Engajamento

Adolescente de hoje em dia é um alienado, certo? A julgar pela moçada ali, errado. No dia anterior, por exemplo, Jasmin estava acompanhando o Projeto Bambuzeiras no assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST.  “É preciso sair da bolha, ir atrás de movimentos sociais, entender o que está acontecendo de verdade”, lembra a jovem. Mas não é só ela: Júlia, por exemplo, participa do trabalho voluntário do Interact, programa para jovens do Rotary International. E João e seu Centro Acadêmico da GV estão arrecadando roupas usadas e por aí vai.

Acreditar em algo transcendente também faz parte do cotidiano dos jovens. Na mesma perspectiva da não imposição e da liberdade da escolha. Enzo acredita que haja uma energia superior. Jasmin frequenta o templo budista tibetano Odsal Ling, localizado em Cotia. Giovana é católica. Paulo já foi até coroinha, “aquele que ajuda o padre nas missas”, e sente falta e saudades desse tempo.

Independência ou… a mesada

Yudi lembra aquela frase batida, de tabus que não eram tocados, como política, futebol e religião. “Tem coisas que tem de pôr em pauta e discutir e tentar esclarecer, sim”, defende. Bom, se é para debater, como anda, então, o diálogo com os pais? Para eles, mais aberto, sim. Júlia, que hoje cursa Psicologia na PUC-SP, fala com carinho da fase em que a mãe estava recentemente separada e elas saíam juntas, como amigas. Hoje a mãe está numa segunda união estável e, segundo ela, o papo segue fluindo abertamente.

Pais abertos ao diálogo sim, mas impondo alguns limites, comme il faut. Jovens na Granja Viana e região, segundo estes onze jovens, se sentem independentes… pero no mucho. E aqui se toca num ponto importante, o da independência versus, digamos, mobilidade e autossustentabilidade econômica. Jasmim lembra que é importante o incentivo ao transporte público e, infelizmente, muitos dos condomínios da Granja Viana não são pensados para se usar transporte público, salvo os mais próximos das vias com acesso a ônibus.

“Moramos no país Granja Viana”, brinca Júlia. “Meus amigos estranham eu dizer que temos o céu estrelado.” De mobilidade e independência, claro, o assunto logo chega ao preço que se paga por uma cerveja – afinal, há coisas que não mudam aos 18 anos, pelo menos no Ocidente. E aqui começa a ser desnovelado um nó interessante: o da vida social dos jovens. “É difícil. Melhor chamar os amigos para ir em casa”, diz Júlia. Não é à toa que Júlia chamou “de país Granja Viana”: essa coisa gostosa, quase europeia, de morar em casa e poder receber. Um luxo se pensar que estamos, como dizem os anúncios dos empreendimentos imobiliários da região, a apenas 30 minutos da Paulista (sim, é o imaginário da região, estamos pertinho, desde que a Raposo esteja de bom humor).

De repente não é mais a Granja que não tem lugares legais para ir. E aí começa a permear a conversa o nome deste ou daquele barzinho. É, o país Granja Viana tem seus points. É o fato de que se trata de um universo conhecido, que onde se vai se encontra amigos, que atrai e, paradoxalmente, incomoda. Nesse sentido, pegar a Raposo e conhecer outros espaços em São Paulo soa como algo interessante não somente pelo lugar em si – de novo, limitado pelo preço cobrado na garrafa de cerveja, mas pela oportunidade de se travar novos contatos, de se aventurar no mistério do desconhecido.

Namoro ou amizade?

Em ambientes novos, claro, aumenta a possibilidade de cruzar com um(a) crush. E o assunto dos relacionamentos amorosos, finalmente, entra por si em cena. Logo todos estão contribuindo para uma definição do que é um crush. Que, convenhamos, talvez a maior parte da geração dos pais desses jovens, que conheceu o mundo mais ou menos pela sequência – ou resistência ativa – às fases da paquera, namoro, noivado e casamento (e, posteriormente, talvez tenha enfrentado um divórcio) não conhece. É interessante, aqui, como palavras como “ficar” refletem uma revolução no vocabulário que ilustra a mudança de alguns costumes. Mas que, pela fala desses jovens, em alguma medida mostra que não houve tanta alteração assim na monogamia seriada ainda praticada pela maioria das pessoas. “Meu pai não entende o que é pegar”, brinca Evelyn. “Se for esperar, os homens não chegam nunca”, especula Giovana. “Amor diferente a gente não vê muito abertamente por aqui, como bi e pansexuais”, destaca Jasmin. “Há muita fofoca por aqui, aí as pessoas ficam com medo de ser o que são”, observa Yudi.

A questão da sexualidade é tratada por eles, ao mesmo tempo, com seriedade e leveza (e num mundo da hiperexposição, será que é preciso fazer com que os jovens revelem tudo de si, se exponham tanto?). Depois de terminar um namoro de quatro anos, Yudi “está à procura”. Evelyn está namorando. Giovana namora há sete meses com o Rafael, ex-colega de turma do Rio Branco que adora games e entrou na Poli (sim, a das três letrinhas). Enzo namora Iasmin Barbio, que observa tudo bem quietinha, com seu ar compenetrado, sentada ao seu lado esquerdo.

Futuro

O que provoca inquietação para valer é a pergunta para se projetarem daqui a 20 anos. O que estarão fazendo em 2038? (Bom, é mesmo uma pergunta marota, quem é que aos 18 anos sabia os caminhos que se abririam pela frente?). Evelyn não tem dúvidas: “quero conhecer o mundo todo, ir para a Romênia, Egito…”. E o fato de ser Relações Públicas vai ajudá-la nesse intento. Enzo quer “se destacar na área médica, dar palestras”. Gustavo faz um prólogo de uns 15 minutos para tocar no ponto: “não sei se vou ficar aqui ou se vou para fora, para o exterior”. Júlia está na dúvida se estará trabalhando como psicóloga na área hospitalar ou criminal, mas quer, mesmo, “trabalhar como palhaço do tipo Doutores da Alegria em hospital”. Giovana, se tudo sair como o previsto, quer “estar casada (sim, se tudo der certo, com o Rafael) e trabalhar na indústria da moda ou ter seu próprio ateliê”. Yudi se vê numa vida simples, numa casa na praia, surfando pela manhã e trabalhando com eventos esportivos.

“Até pouco tempo eu tinha as coisas mais certas para mim. Depois que terminei um namoro de três anos, planejo tudo mais devagar”, pontua Isabelle. E Jasmin, que nunca gostou de planejar, lembra que “está se descobrindo ainda”. Talvez estará morando numa comunidade e trabalhando com cenografia, que gosta, pois “design está em tudo”. Quer continuar ligada aos movimentos sociais. “Da vida pessoal, ainda não tenho nada definido.” João, que gosta de mexer com a parte civil e tribunal, espera ter uma perspectiva de vida estável e viajar muito. Paulo quer morar fora, conhecer muita coisa, talvez “ter um emprego fixo legal”. Iasmin quer ter um emprego estável para se sustentar e sair da casa dos pais. “Quero estar casada, trabalhando com Direito, que gosto muito, mas sem filhos.”

Onze jovens, onze sonhos diferentes. O curioso é que, mesmo em se tratando de jovens antenados, um importante denominador comum quanto ao futuro parece ser a questão da estabilidade financeira. A palavra “emprego fixo”, por exemplo, ainda permeia seu vocabulário. Será mesmo que em 2038 o trabalho, como o conhecemos hoje, em franco processo de transformação, ainda existirá? Enfim, quem chegar lá, como esses jovens, verá. Parece que alguns sonhos, como a perspectiva de estabilidade, por mais efêmera que seja, são eternos. Teria razão a irreverente cantora Elis Regina (1945-1982)? “Minha dor é perceber/Que apesar de termos/Feito tudo, tudo/Tudo o que fizemos/Nós ainda somos/Os mesmos e vivemos/Ainda somos/Os mesmos e vivemos/Ainda somos/Os mesmos e vivemos/Como os nossos pais”.


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