Envelhecimento populacional: conquista ou problema?

"Em pleno século XXI, ao invés de comemorarmos essa grande conquista estamos apavorados com as consequências dessa longevidade: custos crescentes da atenção médico-hospitalar; necessidade urgente de reforma da previdência social; preparo para os cuidados especiais com idosos acamados e incapacitados", escreve o médico Antonio Monteiro.

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Talvez o mais importante indicador do sucesso do avanço tecnológico, para a melhoria da qualidade da vida humana seja o explosivo aumento da longevidade ocorrido no século XX.
Um estudo do Departamento de Odontologia Social da FOUSP (Antunes,J.L.F.; 1998), o qual avaliou indicadores da transição epidemiológica no município de São Paulo, no período 1901 – 1994 mostrou que em enquanto em 1901 apenas pouco mais de 10% das pessoas morriam após os 50 anos (Índice de Swaroop-Uemura), ao final do período esse valor ficou próximo de 60%, isto é, a maioria das pessoas conseguiu viver mais de 50 anos.
Essa é uma clara demonstração da velocidade do crescimento da população idosa, para a qual não estávamos preparados.
Por isso, hoje em pleno século XXI, ao invés de comemorarmos essa grande conquista estamos apavorados com as consequências dessa longevidade: custos crescentes da atenção médico-hospitalar; necessidade urgente de reforma da previdência social; preparo para os cuidados especiais com idosos acamados e incapacitados.
Parece que a grande conquista virou um grande problema!
Isso está ocorrendo, porque acordamos muito tarde para essa realidade e não fomos nos adaptando gradativamente aos efeitos do processo.
Agora a OMS propõe que a década 2020-2030 tenha como foco o envelhecimento saudável.
Sinceramente vejo isso como mais uma utopia, afinal sou de uma geração que ouviu a proposta de “Saúde para Todos no Ano 2000” lançada pela OMS ao final dos anos 80.
Para que isso deixasse de ser uma utopia seria necessário mudar nossa atual idolatria do TER, para entender que só poderá haver vida saudável para todos se optarmos por uma filosofia de SER.
Desejo sinceramente que eu esteja errado e que a OMS consiga atingir seus objetivos nesse curto período.

Antonio Monteiro é médico clínico geral e preventivista formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.