Diversificação das obras de Pixote Mushi

Povo nordestino, indígena, negro, cultura popular, temas sociais e espirituais são as temáticas das obras de Pixote Mushi, que se diversificam em três ramos: a arte muralista, o graffiti e as xilogravuras.

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Pixote Mushi é o nome artístico do Clodoaldo Almeida da Silva, nascido em 1984, em Diadema, São Paulo. Desenha desde os 7 anos e começou sua trajetória na arte influenciado pela cultura do Hip-Hop, que lhe apresentou o break dance, que acabou o levando para a pichação, que finalmente abriu o caminho para que ele encontrasse o graffiti e a arte. Tudo isto até completar seus poucos 12 anos de idade, por isso o apelido de Pixote. Para quem não se lembra, Pixote, a Lei do Mais Fraco é um filme brasileiro de 1980,  dirigido por Hector Babenco. Neste filme, conhecemos um dos mais cruéis retratos da realidade das ruas de São Paulo, onde crianças têm sua inocência roubada ao entrarem em contato com um mundo de crimes, prostituição e violência. Diadema foi considerada a cidade mais perigosa do Brasil em 1999. Além de recordista brasileira, está entre os lugares mais violentos do mundo. Mas a grande e populosa cidade vem se recuperando e melhorando a cada dia, graças a investimentos nas áreas de tecnologia, educação e arte! Pixote, hoje, tem um papel fundamental de fomento à cultura na cidade, que reconhece e conhece suas obras.

Trabalhou como artista de modelagem 3D e Concept Art para as maiores produtoras de publicidade e cinema de São Paulo. Enquanto isso, Pixote procurou aprofundar sua pesquisa em arte, adquirir novas técnicas e desenvolver seu trabalho em diferentes mídias, despreocupado em definir um estilo ou identidade visual. Depois de 9 anos experimentando técnicas digitais, escultura, diversos tipos de pintura e pelo próprio graffiti, passou, então, a buscar uma definição poética e estética. Esta é a busca mais importante de um artista, que define sua identidade e sua relevância na cena artística que habita. Com mãe mato-grossense e seu pai cearense, que faleceu quando o artista tinha 7 anos, embarcou em uma viagem para o Ceará para resgatar suas origens. Passou um tempo em Juazeiro, onde conheceu sua família paterna e por lá aprendeu a técnica da xilogravura. A xilogravura, como imagem ilustrativa de folhetos de cordel, tem traços firmes e identitários da cultura nordestina e é facilmente vinculada ao público popular. Vai além do universo dos poetas populares e se expande, com seus temas, para os gravuristas urbanos. O percurso da xilogravura no Nordeste do Brasil é longo e rico. Mushi se encontrou na xilogravura e entendeu o seu amor pela arte popular. Sua obra ganhou muita força desde que começou esta jornada. A técnica também o ajudou a redescobrir seus verdadeiros traços que, por anos, foram anulados por ele mesmo.

Hoje, temas ligados ao povo nordestino, indígena, negro, à cultura popular, temas sociais e espirituais são as temáticas de suas obras, que se diversificam em três ramos: a arte muralista, o graffiti e as xilogravuras.

 

 

VAMOS OBSERVAR

Conversão, 2017 Tinta de serigrafia sobre tela

100 x 100 cm Pixote Mushi

 

A obra Conversão fala sobre o que indica o seu título: a mudança de um caminho para o outro. Apesar de ser feita em tela, tem todas as características de uma xilogravura. Xilogravura ou xilografia significa gravura em madeira. É uma antiga técnica, de origem chinesa, em que o artesão utiliza um pedaço de madeira para entalhar um desenho, deixando em relevo a parte em que pretende fazer a reprodução. Em seguida, utiliza tinta para pintar a parte em relevo do desenho. Na fase final, é utilizado um tipo de prensa para exercer pressão e revelar a imagem no papel ou outro suporte. Um detalhe importante é que o desenho sai ao contrário do que foi talhado, o que exige um maior trabalho do artesão. A xilogravura popular é uma permanência do traço medieval da cultura portuguesa transplantada para o Brasil e que se desenvolveu na literatura de cordel. Quase todos os xilógrafos populares brasileiros, principalmente no Nordeste do país, provém do cordel.

Composta de uma figura central ambígua, que flutua em um mar, a obra é cheia de símbolos que nos ajudam a compreender o que o artista quer nos dizer. O farol na cabeça é uma metáfora ao direcionamento. Marinheiros se utilizavam de faróis para saber para onde ir. O barco é uma metáfora para a vida: flutuando em mares, ora calmos, ora bravos, às vezes ancorando, às vezes afundando. A casa azul é o único elemento em solo firme na composição. A casa representa as nossas bases, a família, as nossas raízes. Os peixes têm um simbolismo específico de transformação ou de renascimento psíquico. Acima de tudo, peixes simbolizam o elemento líquido. Na mitologia hindu, a manifestação aparece na superfície das águas, que salva a humanidade do dilúvio e que revela aos sábios o texto sagrado dos Vedas. Na tradição cristã, os peixes representam o peixe milagroso, Jesus pescador de homens, o batismo da água. A simbologia do dragão está associada ao mal e ao terror, mas, ao mesmo tempo, também simboliza a proteção dos tesouros. Lutar e vencer o dragão traduz a iniciação e a evolução por meio da provação. Este animal mitológico é, também, símbolo da imortalidade, da união dos contrários e do poder divino. Nas mitologias de muitas tradições, o dragão é o guardião dos tesouros secretos que se deve vencer para ter acesso aos mesmos. Na mitologia do Ocidente, é um dragão que protege o Jardim das Hespérides, que guarda o Tosão de Ouro e possui o tesouro da imortalidade no mito germânico de Siegfried. Na Bíblia, o dragão é associado à serpente e simboliza o mal que é vencido por Cristo. Na sua ligação com a água, os dragões estão associados às nascentes e à chuva que fecunda a terra. Se juntarmos todos os significados dos símbolos com o estilo que a pintura foi criada, temos uma narrativa completa que nos remete às indagações não só do artista, mas também às indagações e narrativas do Brasil, e isso faz a obra do artista universal. Pixote, junto a um grupo de artistas contemporâneos que seguem uma linha parecida de trabalho, cultiva a nossa história de forma contemporânea, garantindo que as próximas gerações tenham contato e conhecimento dela.

Esta e outras obras do artista estão em exposição na mostra Matrizes Culturais Nordestinas, em cartaz até 30 de dezembro, na Galeria PontaPonta, na Vila Mariana, em São Paulo. A entrada é franca e todos estão convidados.

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Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.