Terapias Alternativas e a Medicina
Kazusei Akiyama
Até os anos 1960, nos países industrializados ocidentais, a medicina alternativa era considerada um tipo de prática restrita a certos grupos sociais. Como exemplo, a pajelança entre os índios, a medicina oriental na comunidade asiática. A sociedade em geral pouco conhecia ou tinha acesso a tais práticas "desconhecidas".
Na década de 1960, houve um movimento global por mudanças, em busca de liberdade social e familiar. Seu maior expoente foi o movimento Hippie. Nessa época, houve uma maior aproximação com o diferente, como religião, alimentação e práticas de saúde. A sociedade passa, então, a classificá-las como "curiosas", "exóticas", "estranhas".
A década de 1970 consolidou esses valores levantados na década anterior. Houve uma mudança evidente nos costumes, com maior intensidade nas áreas urbanizadas, menor nas rurais.
A situação alterou-se consideravelmente na década de 1980, com a aproximação do novo século, da "nova era" (New Age), do "fim do mundo". As mudanças sociais, incubadas nas décadas anteriores, exteriorizou-se. Houve então uma explosão da procura por terapias "alternativas", quaisquer que fossem elas, sérias ou não. Mas de maneira geral, continuavam pouco conhecidas. A denominação mais usada na sociedade era "alternativa", mas podiam ser encontrados termos como "natural", "contemporânea", "energética", "cultural", "tradicional", "da nova era".
A década de 1990 pode ser caracterizada pela difusão desse tipo de prática, com aumento também no número de praticantes. A imprensa leiga estimulava o interesse e o assunto passava a fazer parte do cotidiano das pessoas. Os médicos passam a estudar mais o fenômeno havendo aumento substancial de trabalhos relacionados à área. O termo mais neutro para esse tipo de prática era o "não-convencional". Foi também nessa época que surge a denominação "complementar" baseado na noção de uso concomitante, aditivo e não excludente como pode insinuar o termo "alternativo".
A presente década pode ser caracterizada pelo crescente interesse da classe médica pelo assunto, uma vez que, para os pacientes não é considerada mais nenhuma novidade. Ambos, médicos e pacientes, hoje em dia, vêem alguma utilidade na "medicina alternativa". Com isso passa a surgir a denominação "integrativa", com propostas de incorporação à medicina convencional.
A confusão começa com a pergunta: O que vem a ser "medicina alternativa"? São tipos de práticas de diagnóstico e de cuidados relacionados à saúde que coexistem paralelamente em nosso meio. A maior parte não é regulamentada. Nesse artigo, vamos assumir como tal, a "medicina" que não é ensinada nas nossas faculdades de medicina.
Em termo de denominação, não existe definição precisa. Ora é alternativa, ora é complementar, ora são ambos, ora é natural e assim vai. Em termos de utilidade, não existe um consenso. Funciona? Quando? Como? Em termos de método, não existe uma padronização. Em termos de efetividade, existe pouca demonstração ou documentação neutra de sua ação, positiva ou negativa. Em termo de prática, não existe uma delimitação clara de quem a usa. Conhecemos muito pouco sobre como ela é praticada. Em termos de regulamentação, não existe uma regra clara e abrangente que regule esse tipo de trabalho. Algumas têm embasamento racional, outras são curiosas, mágicas.
A despeito desse quadro confuso, a medicina alternativa vem recebendo grande atenção por parte dos usuários. Provavelmente um dos maiores motivos é a mudança de paradigma com relação a sua própria saúde que vem ocorrendo nos últimos vinte anos. De uma posição mais passiva, de receber um cuidado paternalista, passou-se a ter uma atitude mais ativa, interessada, de compartilhar conhecimento e responsabilidade com o profissional de saúde. O "paciente" tornou-se "cliente". A decisão de um tratamento não é mais do médico. Ouve-se segunda-opinião. E vai-se atrás de tratamentos ou abordagens que façam algum sentido para si mesmo.
Kazusei Akiyama – médico formado pela USP (1989), com especialização em Medicina Japonesa pelo The Reserach Institute of Oriental Medicine, Kinki University, Osaka (Japão- 1990-1995), tem mestrado em epidemiologia pela Unifesp, especialista em acupuntura médica pela AMB e Doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP. É chefe do Departamento de MTJ do Hospital Santa Cruz de S.Paulo
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