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Educar crianças é tarefa complexa...

Apesar de todas as valiosas contribuições que as ciências humanas trouxeram no último século para uma maior compreensão da infância e suas necessidades específicas, a missão de educar, para pais e educadores, não se mostra hoje uma tarefa mais fácil ou menos desafiadora.
Educar, na família, na escola e na sociedade em geral, é trabalho para gente grande e dá trabalho mesmo.Exige paciência, energia, tempo, dedicação, clareza de objetivos, perseverança, doação e uma grande dose de amor.Exige também, e principalmente, que nossas atitudes cotidianas sejam coerentes com as palavras e que reflitam, diante dos olhos de nossas crianças, princípios e valores sólidos de convivência, que estimulem seu desejo e sua capacidade de estar junto e compartilhar.

À família, berço dos ensaios iniciais da criança no exercício de ser e estar no mundo, compete a enorme responsabilidade de prepará-la para trilhar os caminhos de um tempo marcado pela falta de tempo, pelo excesso de estímulos, pelos apelos para um consumo irrefreado e inconseqüente, por uma crise de valores que estimula a prevalência do ter sobre o ser, do prazer imediato sobre o esforço planejado para a conquista de um objetivo e dos interesses individuais sobre o bem estar coletivo.
Diante desse cenário, deparamo-nos, cada vez mais, com a imperiosa necessidade de oferecer aos nossos filhos ferramentas que contribuam para o desenvolvimento de um olhar crítico, sensível e comprometido com a realidade em que vivem.E nesse caso, a nossa atitude vale mais do que mil palavras.
Ao proporcionarmos à criança a experiência de relações familiares amorosas, respeitosas e justas, estamos despertando nela as sementes de virtudes importantes como a solidariedade, a generosidade, a gentileza, a tolerância e a justiça.
Ao estabelecermos limites claros e firmes para nossos filhos - e se conseguimos fazê-lo com a delicadeza e o cuidado que exige a infância - estamos ensinando lições valiosas para a sua formação humana: que eles não são o centro do mundo, que conviver com um grupo implica em perder e ganhar a todo instante, que não é possível fazer apenas o que se gosta, que muitas vezes é preciso esperar para conseguir o que se quer , que a maioria das coisas realmente importantes da vida exigem esforço e perseverança para serem conquistadas e mantidas e que ao enfrentar as inevitáveis frustrações, podem tornar-se pessoas mais fortes e seguras de seus potenciais.
Ao conduzir o olhar, a escuta, o sentir, o tocar e as palavras da criança em direção ao bom e ao belo que habitam o mundo em suas diversas formas de expressão, estamos lançando as bases para que ela reconheça e deseje -o que é fundamental- -a presença dessa dimensão maior em sua própria vida.
Todos aqueles que se relacionam com crianças de forma sensível e interessada sabem que elas aprendem o que vivem, muito mais do que o que ouvem.
Talvez seja justamente aí que reside o maior desafio da educação e também o seu maior mérito: educar alguém implica em estar aberto para rever conceitos, modificar atitudes, reeducar o olhar, questionar padrões estabelecidos, assumir nossos desejos e expectativas, reconhecer e enfrentar nossas limitações e confrontar fantasmas da nossa própria história.
Implica também em reaprender com nossos filhos, assistindo às suas incansáveis batalhas e conquistas diárias na direção do crescimento, que somos passíveis de erros e acertos e que a capacidade de tentar novamente, superar desafios e recomeçar é o que nos faz humanos e nos permite avançar, crescer e nos tornarmos pessoas melhores.
Que nesse processo fascinante que é educar outro ser humano, possamos aprender humildemente com o exemplo de nossas crianças a manter o coração e os braços bem abertos para dar, mas também para receber e para ensinar, mas também para aprender.
E que ao longo do caminho, mesmo diante das dificuldades que a vida fatalmente nos impõe, possamos reconhecer em nossos filhos e em nós mesmos os frutos maduros de sementes boas que cultivamos uns nos outros, ambos mestres e aprendizes, parceiros inseparáveis no apaixonante exercício de viver.

Cintia Chati é psicopedagoga

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