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Cobras,
aranhas e escorpiões. Para o biólogo Richard Rasmussem
manusear esses animais é tão normal como afagar
um meigo gatinho. Esse seu interesse por animais tão diferentes
surgiu quando ainda era criança. Como o pai era vice-presidente
de uma empresa norte-americana, a família passava oito
meses fora do Brasil e quatro no sítio em São Roque
onde havia muitos bichos. "Foi aí que surgiu o meu
interesse por répteis e anfíbios". Hoje, aos
36 anos, ele conta que a sua vida profissional aconteceu o inverso.
Após trabalhar 12 anos como auditor de empresas, resolveu
cursar Biologia por conta do criadouro conservacionista que montou
na Granja Viana, onde mora desde a adolescência. Há
oito anos, surgiu a oportunidade de comprar uma casa com 16 mil
metros quadrados de terreno na Fazendinha. "Quando adquirimos
a propriedade, ela já tinha uns jabutis. Os registramos
no Ibama e meus filhos diziam que iam morar na Casa da Tartaruga.
Daí veio o nome".
A
Casa da Tartaruga chegou a ter mais de 500 animais, fazendo com
que Richard tivesse mais ainda contato com uma maior diversidade
de animais, de aranhas a até os grande gatos. "Quando
você abre um lugar como esse, aparecem animais de todos
os lugares, da Polícia, do Ibama e de pessoas que vêm
bater à sua porta querendo se desfazer de seus animais.
Eu não estava preparado para isso, não tinha estrutura,
nem staff". Hoje, o criadouro resume-se a poucos animais
particulares como um cavalo, cães e aves, e outros silvestres,
como antas, quatis, capivaras e emas, todos com nota fiscal e
registro do Ibama, além de quatro onças pardas,
das quais é fiel depositário.
Mas
é na natureza muito perto dos animais selvagens que Richard
gosta de estar. Para ele, é muito importante que as pessoas
conheçam as diversas espécies, suas características
e seus hábitos. Há três anos, fez um piloto
neste estilo mostrando para todas as emissoras o trabalho com
uma micro-câmera sobre escorpiões. Um dia, o jornalista
Paulo Henrique Amorim, na época apresentador do programa
Tudo a Ver, o chamou para que fizesse um quadro com bichos. Mesmo
sendo contra animais em estúdios, levou algumas serpentes
e escorpiões. O Ibope do programa subiu e Paulo Henrique
o convidou a fazer um quadro semanal. "Eu disse que não
gostava deste perfil e apresentei a fita que já tinha.
Eles assistiram e o Paulo, que estava indo para o Domingo Espetacular,
me propôs que fizesse um programa piloto.
Richard
foi para Belém do Pará fazer uma matéria.
Trouxe quatro, que foram ao ar. Neste meio tempo, outra emissora
se interessou pelo projeto. Antes da Record se decidir, ainda
fez uma matéria para a TV Futura, voltada para o público
infantil. No dia que iria assinar com a Futura, a Record o chamou
e lhe fez uma proposta melhor. Há um ano e meio, Richard
apresenta, todos os domingos, o quadro do programa Domingo Espetacular,
Expedição Selvagem ao Extremo. Por conta disso,
fica 20 dias fora, gravando, e 10 na Granja".
Além
de viajar o Brasil inteiro, Richard já foi para a África
do Sul onde ficou 20 dias produzindo matérias para a Patagônia,
na Argentina, e para a Flórida, nos Estados Unidos. Em
suas viagens, leva uma equipe composta por apenas três pessoas:
um produtor, que o auxilia com os animais e que tem a mesma pratica
que ele, um câmera e um auxiliar de câmera. É
a própria equipe que faz a produção e a direção
e a Record a edição. "Como a televisão
se preocupa mais com imagens, no começo eu tinha dificuldades
em falar do bicho e, ao mesmo tempo, mostrar a imagem. Mas já
a-prendi a trabalhar com televisão". Para se ter uma
idéia, em sua última aventura, voltou da Argentina
com 40 horas de imagens que vão virar 100 minutos em 10
programas. "A grande vantagem da Record é que eu escolho
as pautas".
Como
não poderia deixar de ser, as matérias de Richard
são de alto risco. Na África, fez safáris
fora dos parques do governo porque neles não é permitido
descer dos jipes. "Para gravar você tem que chegar
o mais próximo possível dos animais". Sua única
garantia de segurança é deixar-se acompanhar por
um ranger devidamente armado. Em certa ocasião, estavam
na savana gravando as pegadas de kudus, um tipo de antílope
grande, quando, ao voltarem, deram de cara com dois rinocerontes
brancos, tranqüilamente postados entre eles e o jipe. "Eles
perceberam a nossa presença e ficaram agitados inchando
as narinas. Apesar de não en-xergarem bem, eles têm
o olfato muito apurado e, em situações como esta,
quando percebem a presença de alguém, eles se arremessam
contra qualquer coisa que se mexa. Eu e o ranger ficamos imóveis,
mas o câmera, que vinha atrás e não sabia
da situação, apareceu cantarolando. Mesmo assim,
mandei ele ligar a câmera e ficar atrás de uma moita,
gravando. Pelo menos, iríamos ter imagens!", conta,
rindo. Tiveram sorte. Os animais acabaram indo embora e o susto
rendeu imagens espetaculares. Vários outros episódios
já fizeram Richard e sua equipe desafiar o perigo como
quando levaram uma corrida de elefantes, na África, e outra
de elefantes marinhos, na Patagônia.
Na
viagem à Argentina, durante cinco dias Richard e sua equipe
procuraram esses gigantes marinhos. "Só encontrávamos
colônias com animais muito jovens ou muito velhos. No último
dia, andamos oito horas seguidas numa cami-nhada que arrebentou
todo mundo, porque ainda tínhamos que carregar equipamentos
pesados. Até que encontramos um macho cheio de cicatrizes
de batalhas, com um harém de umas 20 fêmeas. Ainda
por cima, era a época de acasalamento. Apesar da aparência
de bonachões, os bichos, que chegam a pesar seis toneladas,
são invocados. Nos aproximamos devagarzinho, porque gosto
de colocar a câmera o mínimo de distancia possível.
Só que era uma praia de pedras onde você afunda o
pé e não tem mobilidade para correr. E os elefantes
marinhos quando querem ser rápidos, são impressionantes.
Foi um sufoco para fugir".
Richard
explica que nunca se deve subestimar um animal. "Mas por
incrível que pareça eu sempre me ferro com os pequenininhos".
Ele conta que uma das mordidas mais doloridas que já sofreu
foi a de um grilo que encontrou na caatinga. Outras mordidas também
não vão ser esquecidas, como a de uma cobra opistoglifa,
um tipo de cobra verde, que lhe rendeu um braço inchado.
"Como as presas inoculadoras de veneno ficam no fundo da
boca, para inocular o veneno ela tem de mastigar a presa, tornando
a mordida muito dolorida". Richard explica que, quando está
gravando, toma muito cuidado. "O risco que corro é
calculado, mas acontece. Também não levamos soro
antiofídico porque existe o risco de choque anafilático
pelo próprio soro. É melhor ser carregado para algum
lugar". Mesmo assim, Richard já chegou a deixar a
mão propositalmente para ser mordida por uma sucuri para
mostrar que há muito preconceito com os répteis.
Tudo bem que a espécie não é venenosa, mas
quem senão Richard se habilitaria? E surpresa! Apesar das
várias mordidas de serpentes, escorpiões e aranhas,
ele garante que a mordida mais grave e doida que já levou
foi... a de um cachorro!
Realizar
as matérias, há um esquema especial. Mesmo sendo
biólogo, para poder passar informações sobre
um determinado animal, Richard se aprofunda no assunto. Também
é importante achar a pessoa certa para levá-lo a
esses animais, o que significa economizar tempo. Além dos
animais em pauta, a equipe ainda encontra outros pelo caminho
que podem render boas matérias. E, finalmente, quanto mais
"cara a cara" com o bicho, maior é a interação.
É essa mistura de componentes e combinação
de fatores que fazem seu quadro uma atração. Para
completar, Richard tem uma filosofia. Não mostrar coisas
ruins. "Há lugares que dá vontade de chorar
em ver a devastação e a existência de verdadeiros
lixões em lugares lindos. Mas, procuramos mostrar o que
há de maravilhoso na natureza. Queremos fazer o trabalho
inverso. Em vez de dizer: "Olha como está feio aqui!
Tem que preservar", falar: "Olha como é lindo,
vamos preservar!". É isto que a gente tem feito em
nossas matérias, mostrar o lado positivo. Ninguém
aguenta mais ver morte e destruição...". As
próximas aventuras já estão em pauta. Além
dos pântanos da Flórida e a região do Pantanal,
Richard quer ir mais longe, para o outro lado do mundo. "Conheço
o Brasil todo, mas há lugares ainda inexplorados. Quero
ir para a Austrália e Indonésia".
Mas
o desejo maior do nosso aventureiro é bem mais simples
e próximo. "Hoje, sonho trabalhar com a minha mulher",
diz, referindo-se à Sabrina, que está se formando
em um curso de câmera e que já é fotógrafa.
Longe das câmeras e do perigo, em casa ele é o mesmo
Richard das aventuras. Apesar de parecer estar ligado em 220 volts,
ele se diz uma pessoa caseira e de hábitos simples que
gosta de curtir a mulher e os três filhos. "Eles adoram
as minhas aventuras, mas já se acostumaram. Quando estou
aqui eles curtem e se interessam, mas já não assistem
mais o pai na televisão". Mas, mesmo nos momentos
de folga, não dispensa a companhia dos bichos. Ele explica
que gosta de todos os animais, mas que tem momentos de paixão
por uma determinada espécie. Por conta disso, já
chegou a dormir no recinto de suas duas antas. "Quando estou
em casa, sou muito intenso. Agora estou apaixonado pelos meus
quatis". Aliás, a recíproca é verdadeira.
Uma das fêmeas morre de ciúmes de Richard. Sabrina
que o diga. Por chegar perto do marido levou uma mordida de advertência
na perna. "Todos os bichos aqui acabam humanizados porque
estão em ca-tiveiro". É com a mesma intimidade
com que Richard brinca com as antas e quatis, que entra no recinto
de Cauê, um macho de onça parda de quatro anos, nascido
na Casa da Tartaruga, para brincar. O animal, de mais de 100 quilos,
pula no colo de Richard, abraça-o e ronrona alto como se
fosse um gatinho.
Voltando
à "normalidade", o biólogo faz planos.
Para que o público possa acompanhar as novas aventuras,
Richard está desenvolvendo uma home page. Também
quer escrever um livro, uma espécie de guia de animais
para turistas. "O pouco tempo que sobra, gosto de ficar no
meu cantinho para curtir meus filhos e a minha mulher".
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