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Entre
os moradores da Granja Viana, existem alguns criadores de pássaros
de nossa fauna. A Revista Circuito há muito tem interesse
em estrevistá-los, não só devido ao interesse
que a biodiversidade da natureza nos provoca, como também
para saber por quê profissionais, bem sucedidos em suas
atividades, voltam seu olhar e sua experiência para criar
pássaros em regime de domesticidade. Assim, entrevistamos
o advogado PAULO RUI DE CAMARGO, experiente criador e pesquisador,
entre outros, de canários-da-terra, pássaros nativos
do Brasil dos mais apreciados.
>CIRCUITO:
COMO SURGIU ESTE AMOR PELOS PÁSSAROS?
Paulo
Rui de Camargo:
Desde pequeno, sempre gostei de aves. Aos oito anos ganhei de
meu pai meu primeiro casal de canários-da-terra (classificado
cientificamente como Sicalis flaveola brasiliensis). No início,
fui apenas colecionador-mantenedor e tinha esse hobby como distração
ocupacional. Depois, passei a criar esta espécie em minha
casa, há cerca de 15 anos, antes mesmo de residir na Granja.
Possuo vários casais que criam filhotes em gaiolas criadeiras.
Atualmente, estou me dedicando às mutações
em canários-da-terra, ou seja, pássaros cujas cores
nas penas diferem da cor padrão original da espécie.
>C:
EXPLIQUE O QUE É MUTAÇÃO, OU MELHOR, UM PÁSSARO
MUTANTE?
P.R.:
Mutação é uma alteração genética
que pode ocorrer no homem ou nos animais. Isto acontece espontaneamente
na natureza. Em genética, mutação é
obra do acaso. Algumas mutações são raras
e só ocorrem 1/1.000.000 de vezes. Isto é, quando
aparece um indivíduo mutante, já nasceram um milhão
de indivíduos considerados "normais". Os pássaros
também evoluem para melhor se adaptarem ao meio ambiente.
E, durante esta escala evolutiva, podem ocorrer mudanças
no DNA. Desta forma, pode-se definir mutação como
alteração ou modificação permanente
do DNA. Para nós, ornitófilos, o que interessa são
as mutações que transformam, alteram ou mudam a
coloração e os desenhos das penas dos pássaros,
já que, em ocorrendo a mutação, as tonalidades
e os desenhos passam a apresentar diferenciações
de seus ancestrais nativos. As mutações em canário-da-terra
já são conhecidas há mais de 35 anos, quando,
na década de 1966/1967, apareceu um pássaro mutação
canela, na coleção de meu amigo Nelson Machado Kawall.
>C:
COMO COMEÇOU SEU INTERESSE EM MUTAÇÕES DE
CORES?
P.R.:
Meu interesse teve início, como acontece com quase todo
aficionado, em função da beleza estética,
das novas cores que aparecem, da genética aplicada, dos
cruzamentos que podem ser feitos e dos novos indivíduos
mutantes que vão surgindo. Isto sempre representou, e ainda
representa, um desafio ao criador de aves, criar e fixar estas
cores novas. Este é um assunto que permanecia quase embrionário
na ornitofilia brasileira. Muita gente nem sabe que existem mutações
em canário-da-terra. Além disso, ainda são
raros e esparsos os criadores que se dedicam a criar e pesquisar
canários-da-terra mutados. Já esta carência
de informações, todavia, não acontece, por
exemplo, com o Serinus canarius, ou seja, com o canário
doméstico (também conhecido como canário-do-reino,
ou canário-belga, canário-de-cor ou canário-roller).
Segundo consta dos manuais de canaricultura, o referido pássaro,
originário do arquipélago das Ilhas Canárias,
vem sendo criado pelo homem, em regime doméstico, há
mais de 500 anos.
Durante este longo período, dezenas de mutações
de cores surgiram, foram fixadas e transmitidas ao longo dos anos.
Hoje, nesse pássaro, o número de cores novas já
ultrapassa quatrocentas (diferentes do tipo normal silvestre).
>C:
EXISTE ALGUMA ENTIDADE ORNITOLÓGICA QUE CLASSIFICA, REGISTRA
E JULGA ESTAS MUTAÇÕES?
P.R.:
O tema "mutações em canário-da-terra"
era quase desconhecido da população e da maioria
dos passarinheiros, como já afirmei. Poucas e esparsas
informações existiam, mas não havia nenhum
registro oficial sobre o assunto. Quando fui nomeado para o cargo
de Diretor Técnico de Criação de Canário-da-Terra
da COBRAP
(Confederação Brasileira dos Criadores de Pássaros
Nativos), resolvi criar um Comitê de vários experts,
para analisar, descrever e classificar, oficialmente, as várias
mutações que foram fixadas nesse maravilhoso pássaro
canoro.Mais adiante, nosso intuito é trabalhar para a criação
de um corpo de juízes para julgar os pássaros mutantes.
>C:
JÁ EXISTE ALGUM ÓRGÃO OFICIAL REGULAMENTANDO
A DEFINIÇÃO DE NOMES E NOMENCLATURAS DAS CORES?
P.R.:
Sim, já existe. Recentemente, em função de
nosso empenho pessoal e de outros companheiros, o referido Comitê
reuniu-se em Belo Horizonte, em 7 de abril p.p.. Nessa reunião,
foram oficializadas definitiva e nacionalmente as nomenclaturas
das mutações existentes, com suas descrições
e classificações. Foi criado o termo Sicalis de
Cor para definir os canários-da-terra mutantes. E na II
Expo minas, realizada nos dias 8 e 9 de abril, nas dependências
da SCBCBH
(Sociedade dos Criadores de Bicudos e Curiós de Belo Horizonte),houve
abertura ao público dos trabalhos do Comitê, na análise
dos pássaros que foram exibidos nessa exposição.
Dessa forma, os participantes do evento puderam ficar cientes,
ver e aprender os critérios de seleção, desmembramento,
divisão e diferenciação de cada mutação
em particular
>C:
QUAIS AS MUTAÇÕES QUE FORAM DEFINIDAS OFICIALMENTE
NO CANÁRIO-DA-TERRA?
P.R.:
O Comitê identificou, separou e classificou as seguintes
mutações: canela, isabelina, opalina, pastel e feo.
Na mutação opalina são subdivididos os opalinos
verdes e canelas, o mesmo ocorrendo na mutação pastel.
Existem em estudo outras mutações, que dependem
de futuras homologações.
É
BOM LEMBRAR QUE ESTE PÁSSARO DA NOSSA FAUNA ESTAVA EM PROCESSO
DE EXTINÇÃO NA NATUREZA. MEU LEMA SEMPRE FOI E CONTINUA
SENDO "Criar para não extinguir".
Para
entrar em contato com o entrevistado: prcamargo@terra.com.br
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