Segunda-feira, dia de sol, chego pontualmente às 11horas ao apartamento do cineasta Bruno
Barreto. Foram várias as recomendações: que eu fosse pontual, que não demorasse muito, que fizesse perguntas interessantes, inteligentes, que não falasse sobre isso, que mencionasse aquilo.
Cheguei apavorada, esperando por um cineasta excêntrico, histérico ou coisa parecida. Enquanto
espero, começo a fazer as fotos do lugar. Bruno mora em uma cobertura localizada nos Jardins. Um
pedaço do paraíso em meio ao caos paulistano, o lugar é pura luz, cor, magia. Nada de excessos, ou
exageros. Pelo contrário, o charme e bom gosto estão estampados nas cores escolhidas, nos pequenos
detalhes. De bermuda e camiseta, ele chega, elegantemente, 10minutos atrasado e, com um sorriso
no rosto me convida para sentar. “Não quer tomar nada?”, oferece, talvez por educação, talvez
para quebrar o gelo. Atencioso, se diz tímido.
Nascido no Rio de Janeiro, em março de 1955, é filho de Lucy e Luis Carlos Barreto, produtores
cinematográfi cos de sucesso, considerados, por muitos, como os maiores do Brasil na atualidade. É
irmão da produtora Paula e também do diretor Fábio Barreto (O Quatrilho). Pai coruja de Helena, com
quem deverá trabalhar em seu próximo fi lme e, do caçula Gabriel, 16, que gosta mesmo é de música“Gabriel tem ouvido absoluto! Quem sabe ele escreva músicas para cinema”.
Dono de uma sólida carreira, tão invejada como precoce, dirigiu seu primeiro curta –metragem
aos 11 anos. Aos 17, dirigiu seu primeiro longa, o tão elogiado “Tati, a garota”. E, aos 21, com seu terceiro
longa, “Dona Flor e seus Dois Maridos”, Bruno transformou-se no diretor de maior bilheteria na
história do cinema brasileiro, tendo levado mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas. Suas
conquistas não param por aí. Em 1998, seu fi lme “O que é isso, companheiro?” concorreu ao Oscar
de melhor filme estrangeiro. Dentre tantos talentos por ele dirigidos estão nomes de peso no cinema
mundial como Robert Duvall, Andy Garcia, Gwyneth Paltrow, Jennifer Connely, Eric Stoltz, sua ex-mulher
Amy Irving, Lou Diamond Phillips, entre outros. Isso sem contar as estrelas nacionais.
|
Você sempre soube o que queria fazer da vida, nunca surgiu uma dúvida?
Quando era pequeno, queria ser fotógrafo. Na época, meu pai trabalhava na revista “O
Cruzeiro” como repórter-fotográfi co, ou seja, um repórter que escreve e fotografa. Fiz até uma
matéria para essa mesma revista que foi publicada. Isso quando eu tinha uns 11 anos. Mas
o que eu queria mesmo era fotografar. Comecei a fazer curta-metragem porque queria fotografá-los. No meu terceiro curta, adaptei uma crônica de Paulo Mendes Campos e foi aí que
eu senti o gosto de contar uma história, senti como é bom contar uma história. Foi aí que eu
disse a mim mesmo “puxa, é isso que eu quero fazer, contar histórias, legal fazer as pessoas
se emocionarem, rirem, é uma sensação muito boa”. Porque ser diretor de cinema é você ser
um bom contador de histórias.
Seu maior sucesso foi “Dona Flor e seus Dois Maridos”.
É o terceiro maior sucesso de
bilheteria no Brasil (em se tratando de cinema nacional e internacional, como um todo, no
Brasil). Até pouco tempo atrás, era o segundo maior sucesso, só perdia para “Tubarão”. Aí
veio “Titanic”. Eu até brinquei com Steven Spielberg dizendo para ele “poxa, Steven, no Brasil
eu só perco pra você!” e, depois de “Titanic”, falei com ele de novo “Agora o James Cameron
ganha de nós dois no Brasil! (risos)”.
Como foi o impactante sucesso de “Dona Flor” na vida do jovem diretor?
Quando o filme
estreou eu tinha 21 anos. Ninguém esperava. Foi incrível. O sucesso é como uma droga.
Se aprende muito pouco com ele. Infelizmente só se aprende com o fracasso. De qualquer
forma, é uma sensação muito boa. Eu era muito jovem. Nunca me esqueço que aos 23, fui
para NY, onde fizeram uma baita festa no Studio 54 (lendária discoteca nos anos 70-80, em
Manhattan, NY), que foi fechado para a estréia do fi lme, com convidados como Liza Minnelle,
Bianca Jagger, Robert De Niro correndo atrás da Sonia Braga, e muitos outros. Os garçons
vestindo a camiseta do fi lme, uma loucura!
Por outro lado, tamanho sucesso deve ter acarretado uma certa pressão...
Senti. E agora?
Qual é o próximo filme? O que vou fazer? Foi difícil pois era realmente muito jovem. Naépoca, a maior agência de talentos a CAA (Creative Artist Agency) veio atrás de mim, me ofereceu
fi lmes para fazer nos EUA e eu nem li os roteiros. Estava no meu país, fazendo os filmes
que eu queria. Na verdade, eu não tinha nem a dimensão do que estavam me oferecendo.
Era apenas um moleque. Quando fiz “Gabriela”, em 1983, tinha 28 anos, enfim, tudo
aconteceu muito rápido. E era um trabalho de muita responsabilidade.
E como foi dirigir Marcello Mastroianni, um mito cinematográfico?
Foi impressionante!
Lembro que quando os produtores fecharam o contrato, ele me ligou e disse “Bom, nós vamos
fazer um filme juntos, então acho que você precisa convencer esses produtores a começar
gastar logo o dinheiro e te mandar aqui para Paris, para a gente se conhecer. Eu moro
em Roma, mas estou em Paris fazendo uma dublagem de um filme (Casa Nova em Revolução).
Venha, pois precisamos conversar, nos conhecer”. Liguei para os produtores que imediatamente
me mandaram para Paris. E quando dei por mim, estava lá, com Marcello Mastroianni.
Esse tipo de coisa, não dá para achar que é normal porque não é. De repente, estávamos
em uma boate onde encontramos o Serge Gainsbourg (compositor). Só sei que saímos os
três e fomos parar na Place de la Concorde, às 3 da manhã. Eu, que não estava no mesmo
grau alcoólico que meus companheiros, pois além de ser sempre mais comedido, não queria
perder a lucidez naquele momento fantástico que estava vivendo, a certa altura, Marcello vira
para mim e diz “olha, dois dias em Paris não
foram o suficiente para nos conhecer. Faz o
seguinte, estou indo amanhã para Marrakesh,
para fazer um fi lme, vem comigo”. E lá fui eu
para Marrakesh, onde fi quei mais cinco dias,
conversando, acompanhando e, aliás, uma
das melhores cenas do fi lme Gabriela surgiu
dessas conversas.
Quanto aos atores e atrizes com quem você
já trabalhou, quem foi uma surpresa?
Giovanna Antonelli, que estreou no cinema
comigo. Quando ela fez “Bossa Nova”, ainda
não era conhecida, era uma atriz coadjuvante
da Globo. Foi uma surpresa porque ela
trazia comportamento, trazia elementos para
o personagem que não estavam no roteiro.
Outra grande surpresa foi a atriz americana
Christina Applegate (fez o seriado“Married
with children”). Ela foi sensacional. Quis muito
trabalhar com ela. Outra que me surpreendeu
também foi Gwyneth Paltrow. Já sabia
que ela era uma grande atriz, a surpresa foi
descobrir que ela era também uma grande
comediante. No fi lme em que trabalhamos
juntos (Voando Alto), ela fez um papel que
nunca tinha feito até então, e que nunca faria
inclusive pois você jamais pensaria nela para
fazer um papel de uma aeromoça cafona,
gostosa, etc. Para esse tipo de papel, você
pensaria na Cameron Dias, por exemplo,
para fazer o “white trash” e não nela. Ela até
brincava comigo dizendo “só você Bruno, só
mesmo um brasileiro to make me really slute”.
E ela estava adorando, os fi gurinos, o
desafi o. Foi muito bacana porque ela fez isso
muito bem. Eu não sabia até então, que ela
tinha isso dentro dela pois é sempre um grande
risco escalar um ator “against tipe” ou seja,
escalar o oposto do “phisic du role”.O normal
é escalar de acordo com, mas, às vezes, você
vai pelo oposto, pelo contraponto, pelo inesperado.
É um baita risco. Tem gente até que
acha que o fi lme não deu certo porque ela foi
mau escalada. Eu acho que não. Eu acho
que ela está ótima no papel.
E dos atores?
Kevin Space (duas vezes vencedor
do Oscar: em 95 como coadjuvante em“Os Suspeitos” e, em 99 como melhor ator em“Beleza Americana”). Quando escalei o Kevin
Space para trabalhar comigo ele ainda não era
conhecido. Foi em 1989, eu estava em um hotel
em Los Angeles, montando o elenco para o
fi lme que iria fazer (Assassinado sob duas bandeiras)
e quando vou fazer um filme, costumo
ver televisão, vejo muito teatro, vejo filmes, procuro
ver o que está acontecendo, e, certo dia,
estava no quarto do hotel, assistindo a uma série
de tv (Wise guys) e achei interessante e tal.
No dia seguinte, estava tomando café da manhã
no restaurante do hotel, na piscina, e vejo
na mesa ao lado um sujeito idêntico ao sujeito
da série que eu tinha visto na noite anterior. Aí,
eu fi cava olhando, olhando, pensando “será
que é aquele cara que eu vi ontem? Poxa, gostei
da atuação dele.” Até que ele me pegou
olhando para ele e perguntou “Why you’re staring
at me”, e eu, morto de vergonha. Nesse
momento, tive vontade de me jogar na piscina,
fiquei branco de vergonha porque ele estava
do lado, eu jamais olho para ninguém, sou uma
pessoa muito discreta, não sou de puxar papo
com desconhecidos ou com a pessoa do lado
em restaurante, esse tipo de coisa. Olhei para
ele e disse “você me desculpa, jamais faço isso
mas é porque eu vi uma série ontem à noite na
tv e é você que faz essa série?” Ele disse “é,
sou eu mesmo”, e eu “é porque estou escalando
o elenco de um filme...” e antes que eu terminasse
a frase ele solta “Oh! You’re casting a film”, se
levanta e senta na minha mesa, de repente, simpaticíssimo!
E deu super certo. Ele realmente é
sensacional. Embora um pouco obscuro(risos).
Mas isso são outras histórias...
Um ator ou uma atriz com quem você ainda
não trabalhou e gostaria de trabalhar.
Ah! Tem vários! Mas para te dizer um, quero
muito trabalhar com o Fábio Assunção. Acho
que ele é um grande ator. Acho que ele roubou
o fi lme “Sexo, amor e traição”, que é um
filme simpático. Ele é um grande ator.
Inclusive, quero muito fazer um livro do Mario
Sergio Conte “Notícias do Planalto”, que é a
saga da família Collor, eu quero que ele faça
Fernando Collor.
Um filme que você considere imperdível.
“O ano em que meus pais saíram de férias”
do Cao Hambúrguer. Ele já não está mais
nos cinemas, mas acho fundamental ver esse
fi lme. É de uma delicadeza, um dos melhores
filmes que vi ultimamente. Alugue em DVD.
Vale a pena.
Depois de 17 anos morando nos EUA, porque
São Paulo?
Eu sempre gostei muito de
São Paulo e quando vim fazer “O Casamento
de Romeo e Julieta” (com Luana Piovani, Marco Ricca, Luís Gustavo, Mel Lisboa) fiquei quatro meses por aqui e pensei que se algum
dia eu saísse de Nova Iorque único lugar no mundo que eu iria morar é São Paulo, porque
São Paulo é uma cidade estrangeira, dona de uma diversidade. A verdade é que: uma vez
que você sai da sua cidade natal, que no meu caso é o Rio de Janeiro, fi ca fora muito tempo,
no meu caso morei 17 nos EUA, você vira um imigrante em qualquer lugar do planeta, um
cidadão do mundo. E eu adoro São Paulo. Além do que, depois de 17 anos de EUA, São
Paulo engana bem!).
Você costuma sair à noite em São Paulo?
Tem algum restaurante preferido?
Eu adoro
essa coisa que, aliás, nesse aspecto São Paulo lembra muito Nova Iorque, é uma cidade
enorme, cosmopolita, mas, ao mesmo tempo, tem seus enclaves. Ontem saí de casa a pé
e fui tomar uma sopa no Piselli, que é como minha casa. Conheço o Juscelino Pereira há
muitos anos, desde a época dele no Gero que, também é outro lugar onde me sinto em
casa. Têm vários lugares.
Granja Viana, Alphaville, Aldeia da Serra...
Na verdade, ainda conheço pouco de São Paulo,
que é enorme! Conheço bem Alphaville pois filmei “Caixa Dois” lá. Acho interessante, me lembra
uma cidade americana, uma cidade jovem. Uma vez, estava saindo de lá à noite e vi várias
pessoas fazendo jogging por umas ruas arborizadas. Muito bacana. Aliás, outro dia fui a
Paulínia (118km da capital), na inauguração de um pólo de cinema, peguei a Bandeirantes e
parece que você está em uma estrada nos EUA. É fascinante. São Paulo, não só a cidade,
o estado é fascinante, é o motor do Brasil. Adoro isso aqui.
Você tem um hobby? Gosto muito de cozinhar, de viajar, mas pode-se dizer que meu hobbyé o cinema. Não preciso ter hobby porque meu hobby é minha profi ssão. Não tenho hora para
trabalhar, trabalho sempre porque isso, para mim, não é um trabalho, é um prazer.
Qual seu próximo filme? Meu próximo filme é o “174” que conta a história do menino que
acabou no ônibus e que fi cou ao vivo na televisão durante 6 horas (seqüestro do ônibus no
Rio de Janeiro, em junho de 2000) e que era um dos meninos que sobreviveram a Candelária
(chacina da Candelária , em julho de 93 ). Não é um filme violento. Trata-se de um drama
humano, a história desse menino que é muito tocante. Esse é um projeto que eu tenho há
quatro anos, desde que vi o documentário do José Padilha fiquei enlouquecido. É, sem dúvida,
um dos melhores documentários que vi na minha vida. Quando vi, achei que aquele
documentário estava implorando por uma versão fi ccional porque, quando terminei de ver
eu tinha tantas perguntas na minha cabeça, e pensei “bom, só uma versão ficcional é que
vai responder todas essas perguntas”. Finalmente vou fazer, com roteiro do Bráulio
Mantovani, que escreveu “Cidade de Deus” e foi indicado para o Oscar como roteirista por
esse mesmo filme, que, aliás, é o melhor roteiro que já tive na minha vida, sensacional! Ao
mesmo tempo, é engraçado, sabe aquele sonho que você tem e quando se realiza começa
a dar um certo medo? Estou meio apreensivo, porque agora vai sair, vou ter que arrasar, o
filme não pode ser nada menos do que excelente, é muita pressão. É fogo! Dá dor de estomago.
A gente pensa que a cada fi lme vai fi car mais fácil mas é ao contrário, fica cada
vez mais difícil. É sempre uma estréia, é sempre uma primeira vez. Acho que esse é o charme
da coisa, é o porque, é o que te move. E nesse fi lme, eu, que sempre trabalho com atores
experientes, dou sempre preferência a atores com background de teatro, vou trabalhar
com atores amadores, atores jovens e isso por várias razões, por opção e porque, como é
um fi lme muito realista acho que até pede isso, então, estou entrando em território novo, o
que é muito excitante mas ao mesmo tempo causa um certo medo.
Na foto, Bruno e Alan Arkin, vencedor do Oscar 2007 de
melhor ator coadjuvante por Little Miss Sunshine, em 1998
|