A necessidade da
existência do conceito
sustentabilidade
mostrou, no fundo, a
falência do modelo
econômico baseado no
lucro-a-qualquer-preço.
Sustentabilidade é um conceito relativamente
novo. Apareceu nas últimas
décadas do século XX para indicar,
basicamente, duas coisas: a
necessidade de utilizar os recursos do planeta
sem esgotá-los e a urgência de mudanças
num sistema econômico voltado exclusivamente
para o lucro, sem levar em conta fatores
ambientais, sociais e culturais.
A necessidade da existência do conceito
sustentabilidade mostrou, no fundo, a falência
do modelo econômico baseado no lucro-aqualquer-preço. O custo da manutenção desse
modelo, já muito alto – miséria, fome e desemprego,
para ficar nas conseqüências mais
gritantes –, será cada vez maior, com a extinção
de riquezas naturais e o aumento, em
número e intensidade, de calamidades como
secas, furacões, inundações, terremotos.
Previsões funestas como essas deram fôlego
novo a programas que há anos vinham
alertando para esses riscos e sugerindo mudanças globais, como Nosso Futuro Comum,
Agenda 21, Objetivos do Milênio e Protocolo
de Quioto (veja quadro). Mas o alerta vermelho
soou em fevereiro de 2007, quando da
divulgação do relatório do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC). Soube-se, então, que a
situação é mais grave do que se pensa. E que
foi gerada por nós, seres humanos.
O relatório do IPCC é a prova do colapso
da nossa civilização. Não se trata, porém, de
um colapso circunstancial. Ele tem uma história,
que se inicia no surgimento da espécie
humana e se desenrola no percurso que essa
espécie fez ao longo de milhares de anos.
A predominância do tipo de cultura que caracteriza
o mundo ocidental – em detrimento, por
exemplo, de práticas orientais milenares – não
aconteceu à toa. Nossas raízes, fincadas na
Grécia e na Roma antiga, no mundo judaicocristão,
deram origem a um tronco torto. Do
Gênesis bíblico ao aquecimento global, passando pela filosofia natural e sua transformação
em ciência, o ser humano sempre se colocou
acima da natureza, como se não fizesse
parte dela. Pior: como se ela existisse para
servi-lo. Não admira, portanto, que séculos
de pretenso domínio sobre o mundo natural
tenham nos levado a quase destruí-lo.
Sem ter clareza de que somos parte do
mundo que habitamos, e que nossas ações
o constroem (e destroem) a cada segundo,
daremos à sustentabilidade somente o status
de moda passageira. E tornaremos a
Terra quase inabitável. Somente a consciência
de que também somos natureza nos
levará a atitudes práticas que evitarão tragédias
maiores. Da reciclagem do lixo caseiroà cessação do desmatamento e da
poluição, todos podemos colaborar. Apenas
a sincera união de esforços entre população,
empresariado, associações civis e poder
público pode reverter as conseqüências do
aquecimento global.
Sustentabilidade é ...
...a ação de suprir nossas necessidades, no presente, com o uso racional
(sem desperdício) dos recursos naturais, para que eles não se esgotem. Os
projetos que visam à sustentabilidade precisam ter ao menos quatro requisitos
básicos: ser ecologicamente corretos, economicamente viáveis, socialmente
justos e culturalmente aceitos.
Programas da ONU
Nosso Futuro Comum
Também conhecido como Relatório Brundtland, foi elaborado em
1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Destacou a pobreza nos países do Hemisfério
Sul e o consumismo abusivo das nações do Hemisfério Norte
como causas das crises sociais e ambientais.
Agenda 21
Documento ratificado por 179 países durante a Conferência das
Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-
92), no Rio de Janeiro, em 1992. Propôs a reinterpretação da noção
de “progresso” e a colaboração entre governos, empresas,
associações civis e populações na busca por soluções para os
problemas socioambientais.
Objetivos do Milênio
Programa da ONU elaborado em 2000. Propõe oito objetivos: fim
da fome e da miséria; educação de qualidade para todos; redução
da mortalidade infantil;igualdade entre sexos e valorização
da mulher; melhoria da saúde das gestantes; combate a aids,
malária e outras doenças; qualidade de vida e respeito ao meio
ambiente; trabalho de todos pelo desenvolvimento do planeta.
Protocolo de Quioto
Resultado da Terceira Conferência das Partes da Convenção das
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Japão, 1997). Estabelece
a redução, entre 2008 e 2012, das emissões de dióxido de carbono
(CO2) e outros gases por parte dos países industrializados. Os Estados
Unidos, maior emissor de CO2, não assinaram o tratado por considerá-lo “caro demais”.
Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC)
Órgão da ONU que reúne 2.500 cientistas de todo o mundo. Criado
em 1988, elabora relatórios com informações científicas sobre o
clima no planeta.
* Baby Siqueira Abrão, jornalista, autora e editora de livros, é formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo e aluna do curso de divulgação científica do Núcleo José Reis, da Escola de Comunicação e Artes da USP. É pesquisadora nas áreas de Ciências e Meio Ambiente, Éticae Responsabilidade Social Corporativa.