Arte Observada: Antoni Gaudí

Dizia Gaudí que uma obra de arte deve ser sedutora e universal

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O Instituto Tomie Ohtake traz a São Paulo a obra universal do arquiteto Antoni Gaudí, em homenagem aos 90 anos de sua morte. Com trabalhos originários do Museu Nacional de Arte da Catalunha, Museu do Templo Expiatório da Sagrada Família e da Fundació Catalunya-La Pedrera, Gaudí: Barcelona, 1900 reúne 46 maquetes, quatro delas em escalas monumentais, e 25 peças, entre objetos e mobiliário, criadas pelo mestre catalão. Completam a mostra cerca de 40 trabalhos de outros artistas e artesãos que compunham a avançada cena de Barcelona nos anos 1900.

Os curadores da exposição, Raimon Ramis e Pepe Serra Villalba, destacam os processos construtivos dos projetos de Gaudí por meio de modelos tridimensionais que ressaltam detalhes de sua arquitetura. No design, móveis e objetos, que vão de maçanetas de metal a peças em cerâmica e madeira, dão conta de como a criação artesanal conseguiu fundamentar a indústria. O conjunto das obras reunidas do consagrado arquiteto testemunha a invenção de uma original geometria, calculada a partir da observação e do estudo dos movimentos da natureza. Com este princípio, Gaudí instaurou uma estética moderna única que caracterizou a cidade de Barcelona.

Para ilustrar ainda mais a força de um período em que a capital da Catalunha surge como projeto moderno de cidade, os curadores selecionaram 26 trabalhos, entre objetos e elementos decorativos concebidos por artesãos de alto nível, além de 16 pinturas. São artistas contemporâneos a Gaudí, que desenvolveram suas obras conforme os preceitos do modernismo catalão. Neste panorama, a obra de Gaudí condensa o debate técnico, estético, ideológico e social da virada do século.

A mostra foi inaugurada no dia 19 de novembro e segue até 16 de fevereiro de 2017 em cartaz. A entrada é gratuita às terças-feiras.

O primeiro projeto para a basílica foi proposto por Francisco del Villar, em 1882, um arquiteto diocesano que tinha oferecido seus serviços sem cobrar por eles. Del Villar planejou uma igreja no estilo neogótica, que estava na moda na época. Ele queria construir as colunas com blocos inteiriços de pedra, enquanto o gerenciamento da obra defendia um sistema mais econômico. As diferenças tornaram-se decisivas e, em 1883, o gerente Bocabella aceitou a demissão de Del Villar com medo de que não houvesse fundos para construir a igreja com todas suas exigências. Após a saída de Del Villar, Bocabella ofereceu o controle da obra ao seu assessor técnico, mas este não aceitou. Entretanto, ele indicou Gaudí, que era um de seus colaboradores. Nessa época, Gaudí tinha poucos trabalhos implantados, mas já era conhecido por sua dinâmica e originalidade. Gaudí assumiu a obra em 3 de novembro de 1883, aos 31 anos.

Dizia Gaudí que uma obra de arte deve ser sedutora e universal. Pois ninguém melhor do que o próprio arquiteto para colocar na prática a sua premissa. Barcelona é reconhecida mundialmente por sua arquitetura moderna, marcada pela audácia criativa de arquitetos e desenhadores que transformaram a cidade em um templo do Modernismo e da Art Nouveau.

Natural de Reus, um povoado próximo a Barcelona, e de origem muito humilde, Antoni Gaudí (1852-1926) realizou a maior parte de suas obras na capital catalã, onde desenvolveu uma arquitetura autêntica e com forte marca pessoal. Em busca de soluções estruturais e originais capazes de integrar todo seu entorno e sintetizar todas as artes e ofícios, Gaudí desenvolveu um estilo orgânico fortemente inspirado na natureza e que representa a simbiose perfeita entre tradição e inovação. Com o uso original e próprio da luz, dos contornos e da geometria, Gaudí criou uma obra que representa um verdadeiro tesouro arquitetônico e artístico mundial.

A Sagrada Família representa uma síntese da teoria e da prática de Gaudí. Contudo, a obra segue inacabada até hoje, por causa do falecimento do arquiteto, guerras e falta de verbas. Em 1926, quando faleceu, Gaudí só havia construído uma das torres. Do projeto só tinham restado algumas plantas e um modelo em gesso, que foi seriamente danificado durante a Guerra Civil Espanhola. Hoje, 129 anos depois, a construção do templo segue a ideia original do arquiteto e tem previsão de finalização para meados de 2030. Quando estiver terminada, a igreja será monumental, com 18 torres, com a maior delas medindo 170 metros de altura. A grandiosidade desta Catedral deixa qualquer um sem palavras. Repleto de nuances e simbologias, o local é um dos maiores pontos turísticos mundiais. Gaudí dedicou 40 anos de sua vida a este projeto. Morou os últimos 15 anos da sua vida na igreja. Junto ao seu escritório havia uma cama que fazia as vezes de quarto. O arquiteto, inclusive, está enterrado na cripta da igreja.

Há muito tempo, templos religiosos representam, na arquitetura e na arte, o poder e a riqueza de uma comunidade. Por meio desses espaços simbólicos e idealistas manifestavam-se tendências sociais e político-econômicas que guiavam uma sociedade. Mas, às vezes, seu significado supera a sua função inicial. A Sagrada Família é uma obra arquitetônica que virou uma verdadeira obra de arte. Uma obra que quebrou todos os paradigmas de sua época e que prova que a criatividade humana não tem limites.


Vamos Observar

Antoni Gaudí

Basílica Sagrada Família 

Catedral

1882 – inacabada

Distrito de Ensanche, Barcelona, Espanha

Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.