“Vinho é emoção”

1554

O ex-publicitário, que atuou em diversos veículos de comunicação do país e chegou a ser premiado como Publicitário do Ano pelo Prêmio Colunistas 1992, resolveu transformar o hobby em carreira há mais de duas décadas. Hoje, é figura conhecida por todos os envolvidos nesse universo. É fundador da Confraria dos Sommeliers, apresentador do programa Wine Actors, exibido pelo canal fechado ChefTV, e autor dos livros Nem Leigo Nem Expert e Vinho para o Sucesso Profissional.

Mantém um site com seu nome, um dos primeiros sobre vinho; dá palestras sobre o assunto e, praticamente todos os dias, até três vezes, participa de algum evento em que experimenta, ao menos, um vinho diferente. Ao todo, já provou mais de 20 mil, quase nada se comparado ao número de vinhos existentes. “Eu sei que vou passar uma vida querendo provar coisas que nunca vou conseguir”, lamenta.

Nesta entrevista exclusiva, feita entre uma harmonização e outra do nosso guia gastronômico, Didú Russo fala de maneira descontraída e descomplicada sobre o mundo dos vinhos. Porque é assim que ele se define: a opinião independente que descomplica o vinho para você. Com vocês, o expert que defende o vinho sem frescuras, aquele que não é feito em um mundo de barões e marqueses, mas por homens com os pés na terra, todos os dias.

Didú por Didú. Quem é Didú Russo?

Um ex-publicitário que se cansou da profissão, depois de quase 30 anos de carreira. Na década de 1990, resolvi me rebelar e transformar um hobby, o vinho, em uma maneira de viver. Propus a minha esposa: “Olha, nós vamos ganhar menos, mas vamos viver bem”.

E ser feliz…

Ah, sim! (risos) Montei um bar de vinhos que não deu certo. Era muito avançado para a época. Mas desse bar nasceu, há 18 anos, a Confraria dos Sommeliers, para promover o conhecimento e a cultura do vinho. Fiz um curso de vinhos que, depois, se tornou o livro Nem Leigo Nem Expert, que está esgotado. Nasceu meu site, o didu.com.br, um dos primeiros sobre vinho. E eu vivo feliz, falando, bebendo e estudando a respeito do que gosto: o vinho. Assim, nasceu o Didú do vinho.

O Didú da opinião independente que descomplica o vinho.

Exatamente! Ainda existem certos preconceitos com relação ao vinho, muita arrogância e muita presunção. Mas o vinho não é isso; ele não pode ser isso. O vinho, na verdade, precisa aproximar as pessoas. Ao contrário do que os leigos pensam, o vinho não é feito em um mundo de barões e marqueses; é feito por homens com pés na terra, todos os dias. Eles transformam um produto da terra em uma bebida que faz bem à saúde, alegra o espírito e aproxima as pessoas.

Seu contato com o vinho começou já na maternidade. É verdade?

Esta é uma história ótima. As pessoas não acreditam nisso, mas é verdade. É uma pena que minha mãe e meu pai já faleceram, senão confirmariam. Enfim, meu avô Cecílio Granja, o pai da minha mãe, brigou com o meu bisavô e veio de Portugal para o Brasil com duas garrafas de vinho do porto Vintage, um vinho muito especial, que envelhece na garrafa e fica fenomenal. Uma dessas garrafas meu avô abriu quando ficou noivo da minha avó. A outra ficou guardada por muitos anos. Nasceu a minha irmã mais velha e meu avô quis abrir, mas meu pai não deixou. Ele era italiano, todo emotivo, e dizia que a última garrafa não podia ser aberta. Nasceu meu irmão, segundo filho, e também não abriram. Quando eu nasci, o caçula da família, o meu avô chegou à maternidade e falou: “Olha, não adianta ninguém me convencer do contrário; hoje eu vou abrir esse vinho e comemorar o nascimento do meu neto”. Abriu e, naquela euforia toda, todos brindando, o neném ali no quarto… e me deram uma colherzinha de vinho do porto (risos). Meus filhos não me deixaram fazer isso com meus netos, ficaram todos com medo. E eu sou o único que trabalha com vinho; é uma coisa, digamos assim, predestinada. (risos)

Como é sua rotina, Didú?

Ah, eu tenho uma vida maravilhosa! Praticamente todos os dias tenho degustação à tarde e à noite. E, quase sempre, um almoço degustação. E pela manhã eu caminho com meus cachorros pela Granja. Escrevo sobre vinhos em dois momentos do meu dia: pela manhã, após a caminhada; e à noite, quando eu volto dos jantares.

Já que comentou sobre a Granja Viana, qual é a sua relação com o local?

Eu não aguentava mais morar em São Paulo e decidi me mudar para o meio do mato. Isso foi há 15 anos. Escolhi um lugar especial, onde tem macaco, tucano, esquilo… ah, é um paraíso. Tenho uma horta que, até brinco, é meu refúgio biodinâmico.

Voltando ao mundo dos vinhos, quais critérios você utiliza para avaliá-los?

Olha, tecnicamente, um vinho é avaliado nos seguintes aspectos: visual, olfativo e gustativo. Há uma ficha própria para avaliação, com todos os aspectos e atributos, cujo total de notas é 100. Mas eu, normalmente, não dou e não divulgo nota de vinho. Sou contrário a isso! Vinho é emoção, e não pontuação!

E a avaliação é subjetiva…

Muito subjetiva! Sim, claro, tem uma parte técnica, mas a avaliação, no geral, é bem subjetiva. Na Confraria dos Sommeliers, por exemplo, fazemos degustação às cegas e veja o que acontece. Temos de atribuir uma nota para classificar qual foi o vinho preferido do grupo, o segundo, o terceiro e assim por diante. Só que, curiosamente, o vinho que eu mais gosto quase nunca é o mais bem pontuado. Isso porque, quando você avalia separadamente os itens, percebe que tecnicamente o vinho, às vezes, é melhor que o outro no total, mas não é o que te agradou mais. Olha que maluco! É uma questão delicada e subjetiva. E assim também ocorre com as pessoas: às vezes, um pequeno defeito, um estrabismo na moça, uma pintinha (risos), alguma coisa que seria considerado defeito é o que dá o charme. O mesmo acontece com o vinho.

Também tem muito a ver com seu estado emocional…

Ah, completamente. Tem vinhos que, pelo cheiro, remontam às melhores memórias. O mesmo acontece quando viajamos: você toma um vinho naquela viagem e adora; depois, já em casa, compra aquele mesmo vinho e, quando toma, não é a mesma coisa. Claro, na viagem você estava feliz, estava acompanhado por alguém que ama, não tinha de prestar contas de nada… aí, de repente, você volta e quer que o vinho seja igual? Não dá, né? (risos)

Qual seria o vinho especial?

Vinho sem interferência. Biodinâmico e natural, que não teve acréscimo de insumo de verificação, de levedura, de sulfito… Atualmente, os vinhos que me apaixonam são aqueles em que você mergulha o nariz na taça e o tempo parece te levar para a casa do produtor, no meio daquela vinícola. Aquele cheirinho, mostrando com sinceridade o que aquela região e paisagem têm a oferecer. Esse é o vinho que realmente me sensibiliza.

E qual seria o inesquecível?

Um vinho branco Coulée de Serrant, de Chenin Blanc. Faz 12 anos que tive a oportunidade de provar esse vinho branco, totalmente sem interferência, que tinha 17 anos e tinha sido aberto havia dois dias. Deixou-me saudade e ficou no coração. Acabei me tornando amigo do produtor, o Nicolas Joly, um dos principais homens da biodinâmica, com vários livros publicados.

Qual país é o melhor em produção de vinho?

Difícil responder. A França é considerada o berço do vinho por causa da variedade de estilos e produtos. Mas tem a Itália, com aquela enormidade de regiões e vinhos maravilhosos… o mesmo vale para a Espanha. E Portugal, então? É uma loucura um país tão pequeno ter mais de 400 castas diferentes e regiões absurdamente distintas. Você tem vinho madeira, vinho verde, vinho do porto… Ah, é impossível responder a esta pergunta.

E como está a produção de vinho no Brasil?

A produção melhorou bastante. Acho que o Brasil vai ter um lugar importante no cenário mundial, mas ainda precisa perder a mania de querer imitar vinho de outro lugar. Os grandes produtores, ainda hoje, têm como meta reproduzir o vinho chileno, que faz muito sucesso por aqui (de tudo o que importamos, 65% vêm do Chile). Esse caminho é errado porque o Brasil não tem o estilo do Chile e nunca vai ter. O clima não é o mesmo. Tudo é diferente! Fazer uma coisa assim me parece, além de falta de personalidade, uma perda de tempo. No futuro, o que uma pessoa vai querer de um vinho é a sinceridade. Hoje, nós temos muitos produtores fazendo coisas maravilhosas nessa linha de vinhos sinceros e naturais, sem interferência. Agora, os grandes produtores ainda estão buscando um estilo chileno. E é engraçado porque o chileno quer ser francês e o brasileiro quer ser chileno. Perda de identidade.

Então podemos dizer que o que falta é uma cultura do vinho?

Ah, é o que mais falta no Brasil! Está comprovado, por mais de 2 mil estudos científicos, que o consumo de uma taça de vinho, por refeição, faz bem para a saúde, para o coração, para a pele… mas as pessoas não sabem disso. No Brasil, pesquisas apontam que temos 30 milhões de consumidores de vinho, mas que só consomem 15 milhões de garrafas… ou seja, ao invés de tomar uma taça por refeição, toma uma por semana. Há muito potencial de crescimento, mas o setor não investe na informação. É um setor muito competitivo, que olha apenas seu espaço na sua venda. Além disso, temos aqui um grande inimigo chamado governo, que recolhe 22 tributos em cima de uma garrafa de vinho. Quando uma pessoa toma uma garrafa de vinho, ela está pagando a que bebe e mais quatro em forma de tributos. Isso é um absurdo e encarece o produto. Ainda há um longo caminho a se percorrer para que o vinho, apesar de todos os seus benefícios, se torne uma bebida popular em um mercado maior.

Como o vinho brasileiro é visto no exterior?

As exportações do vinho brasileiro começaram há cinco anos e vêm crescendo com o passar do tempo. O espumante é muito bem recebido no mercado da Inglaterra. E os vinhos naturais estão participando das feiras na França e fazendo muito sucesso. O principal cara dos vinhos laranja (vinhos brancos vinificados, como o tinto, que ficam com casca durante a fermentação), o italiano Josko Gravner esteve no Brasil, provou os vinhos laranja da Dominio Vicari e ficou admirado. Na época, comentou que nunca imaginou tomar um vinho assim no Brasil. O vinho brasileiro está no início, mas fazendo muito sucesso, tanto os convencionais Miolo, Salton e Valduga, como os mais artesanais. É só uma questão de tempo.

Em sua opinião, qual vinho brasileiro ganha destaque entre os demais?

Existem vários, mas se fosse para escolher um… eu escolheria o vinho Fulvia Pinot Noir, do Atelier Tormentas, de Marco Danielle.

Há algum vinho que queira degustar e ainda não degustou?

Nossa, tocou no ponto da minha angústia. O mundo tem cerca de 5 mil castas de uvas diferentes e 40 tipos de solo indicados para o vinho. Ninguém sabe dizer, ao certo, quantas vinícolas existem no mundo, mas eu chuto 200 mil. Se cada uma produzir 10 vinhos diferentes, o que não é nenhum exagero, estaremos falando de 2 milhões de vinhos. Eu já provei 20 mil, talvez um pouco mais, ou seja, apenas 1%. Eu sei que vou passar uma vida querendo provar coisas que eu nunca vou conseguir. Isso é dramático! Não me importa se é bom ou não, meu desejo é provar. Quanto mais variedades, melhor.

Mesmo degustando tanto vinho, quando você chega em casa ainda abre uma garrafa?

Todos os dias. Geralmente, abro uma garrafa no almoço e provo uma ou duas taças. Deixo essa garrafa só com a rolha e provo de novo, à noite, para ver como evoluiu.

E qual é seu vinho do dia a dia?

Eu recebo muitos vinhos para provar e, obviamente, dar minha opinião. Então, não posso dizer que tenho um vinho do dia a dia. Se eu tivesse, seria um megabox de vinho biodinâmico que, no Brasil, infelizmente não tem. Quando eu volto da Europa, sempre trago. Na França tem uma loja chamada BiBoVino que vende 40 tipos de produtores diferentes de biodinâmicos em megabox.

O que nunca pode faltar na sua adega?

Um vinho natural.

O que te dá mais prazer em realizar nesse mundo do vinho?

Trazer pessoas para o consumo de vinho, mostrar a maravilha que é esse mundo e seduzir essas pessoas para uma vida mais saudável. Tudo isso é o grande prazer.

Por fim, o que você considera uma heresia nesse mundo?

Acho que é dar nota ao vinho, dizer que o vinho tal é melhor porque é famoso e pagar muito mais do que vale. Isso é heresia! Heresia é a arrogância que precisaria acabar porque o vinho é uma coisa simples. Vinho é saúde. É alimento. É integração de amigos.