Da horta para a mesa

Moradores da região encontram satisfação e bem-estar, em pequenos ou grandes espaços em suas residências, ao produzirem seus próprios alimentos

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Plantar uma sementinha, regar, observar diariamente o processo, combater predadores, ver a planta crescer e gerar alimentos, enfim, a trajetória do semear ao consumo, é o maior barato. Além de ser ótimo antídoto contra o estresse, é a forma perfeita de garantir que o alimento que chega à mesa é saudável e livre de agrotóxicos.

Vários moradores da região já perceberam esses benefícios faz tempo e estão se aperfeiçoando cada vez mais com técnicas de produção de alimentos.

Alface, rúcula, espinafre, mostarda, berinjela, temperos em geral, ervas para chá, cenoura, beterraba, alho-porró, couve, chuchu, pepino, abobrinha, bananas, criação de aves e, até mesmo, acreditem, lúpulo.

Então…

Vamos falar de lúpulo

Peterson Tremonte é engenheiro mecânico, mas resolveu se aventurar no cultivo de um produto pouco comum: o lúpulo. O início foi, como podemos dizer, meio atrapalhado. Após receber as sementes importadas da Austrália, Peter as plantou, cuidou, regou, disse bom dia, boa tarde e boa noite para a plantinha e, quando ela começou a produzir, eram lindos e suculentos tomates gringos. O fornecedor havia enviado sementes erradas, o que frustrou um pouco o sonho do futuro mestre cervejeiro.

“Na vontade de fazer cerveja de pinhão com produtos orgânicos, queria fazer meu lúpulo e usar o pinhão do sítio em Ibiúna. Mas esse começo foi muito difícil, pois é uma planta que não é adaptada ao nosso clima, está sendo um desafio e um acompanhamento diário. Acredito que em torno do mês de maio terei as pinhas, e com elas, é só fazer a receita da cerveja preferida”, afirma. Ele pesquisou um pouco sobre as outras opções para o lúpulo e descobriu que também dá para fazer chá.

Mas quem vai trocar a receita de cerveja por chá?


Grande produção

Daniela Tremonte optou, pelo grande sucesso que tem em sua linda horta e criação de aves, em Ibiúna, por um espaço com proporção menor, em sua empresa na região da Granja Viana. “Começamos a cultivar uma pequena horta, para uso próprio, garantindo qualidade alimentar sem agrotóxicos, e manuseados pelos próprios funcionários, tanto da jardinagem como da cozinha industrial, com itens de melhor manuseio como, alface- crespa, alface lisa, rúculas, cebolinha, salsinha, tendo um tempero e complemento alimentar delicioso”, afirma. Daniela aproveitou o embalo, e também deu um fim apropriado às sobras da mesa, com a tradicional compostagem, onde tem como resultado adubo e fertilizante orgânico, que utiliza na própria horta. E o que dizer das frutíferas: jabuticaba, acerola, limão, mexerica e muitas bananeiras? Sucesso.


Pezinho de felicidade

A pedagoga e pós-graduanda em arte terapia jungiana Angela Maria Maluf começou a pensar na produção de alimentos durante a maternidade, em que proporcionar alimentação mais saudável aos seus filhos tornou-se uma das prioridades. Em quatro tanques com 1,80 metro de comprimento, 70 centímetros de altura e 1,10 metro de largura, Angela adotou a prática da paciência, e respeitou o tempo de maturação de cada alimento, bem como o período adequado de cada plantio. A atenção especial vai para as minhocas, que segundo ela são as grandes responsáveis pela abundância da horta. “As minhocas são agentes de maior relevância, pois transformarão uma terra pobre em nutrientes, em uma terra fortificada e apropriada ao desenvolvimento das plantas, tornando-as viçosas e prósperas”, diz. De acordo com a pedagoga, a horta caseira simboliza tudo de mais genuíno e pleno que podemos pensar: menos lixo, mais verde pelo planeta; menos pressa, mais respeito ao tempo de todas as coisas, menos agrotóxico, mais saúde e mais felicidade.


Lição “hortográfica”

Em 2016, por meio de uma ONG, a professora Laila Furquim e a diretora Rosiley, da Escola Estadual João Garcia de Haro, em Carapicuíba, aprenderam como tratar o solo e cultivar hortaliças que poderiam ser usadas na cozinha da escola para a comunidade escolar. Desde então, elas mantêm a horta com ajuda de alunos de 11 anos, que gostam de trabalhos manuais e sujar as mãos. “Temos cinco canteiros e todos os alunos são beneficiados nas refeições, com alface, couve-manteiga, tomate-cereja, cebolinha, cheiro-verde, almeirão, cenoura e chuchu”, conta Laila. Segundo ela, os maiores benefícios em ter uma horta na escola são ensinar a plantar e colher tudo que precisam para sua alimentação sem uso de agrotóxicos; a solidariedade de repartir aquilo que tem; criar um laço de amizade entre alunos que segue pela vida e ensinar as mães como cultivar em vasos condimentos.


Colhendo bom relacionamento

No Condomínio Residence Park, o síndico e um grupo de moradores decidiram, em fevereiro deste ano, implantar uma horta comunitária, com a finalidade de saúde, integração, sociabilização e aprendizado para o bom relacionamento. E não é que além de cultivar a amizade entre vizinhos, estão desfrutando de bons resultados? Nomeado Espaço Horta, com uma área total de aproximadamente 200 m², o local de plantio foi inserido numa reserva de mata ciliar. Um grupo de seis moradores coordena a escolha de mudas e sementes, orienta moradores e o funcionário que trabalha rotineiramente durante uma hora, três dias por semana e esporadicamente quando necessário. Alface, rúcula, espinafre, mostarda, berinjela, temperos em geral, ervas para chá, cenoura, beterraba, alho-porró, couve, chuchu, pepino, abobrinha, bananas, entre outros itens, são o resultado da parceria e cumplicidade entre os vizinhos, agora, cada vez mais amigos.


O economista e diretor de restaurante Paulo S. Alves, desde criança gostava de cultivar horta na casa dos pais e no sítio da família, com o avô. Quando mudou para a Granja Viana, a primeira coisa que fez foi uma horta para plantar com os filhos e ensiná-los exatamente o que aprendeu com o avô: o prazer de mexer com a terra. Sempre plantando ao lado deles, Lucas, Manuela e Pedro, Paulo faz do ato de cultivar, não apenas momentos de diversão, mas também uma terapia e um momento de interação com seus pequenos. Entre tomates, espinafres, couves, beterrabas, repolhos, cebolas, pitangas, jabuticabas, cerejas, limões, mexericas, mangas, abacates, lichias e romãs, rolam todos assuntos com os filhos, e esse tempo juntos funciona como fertilizante para fortes laços familiares. O avô das crianças, o pai do Paulo, também contribuiu com a horta afetiva, pois trouxe de Portugal sementes de tomate cabeça-de-boi. Agora, estão todos torcendo para que a planta vingue.


Agricultura familiar

A horta também é uma tradição familiar na vida da nutricionista Ana Paula Nicoli Lameda. Seu avô era agricultor e sua mãe sempre teve horta em casa. Com a chegada dos netos, ela ampliou a área de cultivo para atender a todos, já que moram no mesmo condomínio. A horta tem aproximadamente 100 m² e produz alface, rúcula, couve, repolho, pepino, abobrinha, chuchu, ora-pro-nóbis, pimentas e ervas, como salsinha, cebolinha, manjericão, tomilho, hortelã, alecrim, sálvia, alho-porró, erva-doce, melissa, louro e boldo. Os alimentos plantados são alterados conforme a sazonalidade. “Oferecer alimentos mais saudáveis e frescos para a família é um prazer para minha mãe. A horta é mantida por ela com o auxílio de um jardineiro. Os demais membros da família ajudam na compostagem e na colheita”, afirma a nutricionista.


Cultivando mudanças

Há cinco anos a publicitária Maria Cecilia Galoro de Sousa Lima resolveu que só trabalharia para projetos que impactassem (OBS: como comentei em outro texto. Palavra da moda. Mas acredito que vocês vão manter) positivamente o mundo, então sentiu a necessidade de começar a mudança pela minha própria casa. Com um quintal privilegiado ­ como muitos aqui na Granja, que já contava com algumas árvores frutíferas ­, decidiu que deveria produzir o que fosse possível em casa. “Conversamos em família e começamos a preparar a nossa horta”, relembra. Uma amiga ensinou a família a lidar com a composteira, que deixou o cultivo ainda melhor. A horta tem 10 m², onde são produzidos ervas e temperos, verduras, legumes, flores comestíveis e raízes. “O plantio é variado, nem sempre temos de tudo, regularmente temos as verduras e os temperos, mas já produzimos por aqui abobrinha, tomate-cereja, chuchu, abóbora japonesa, rabanete, pimenta e mandioca. A terra e variedade são boas”, diz.


Ao alcance das mãos

A zootecnista Ana Paula Urtado sempre opta ir para o lado orgânico da alimentação, por isso em sua horta com metragens de 3 m² a 10 m²,(OBS: confirmar, mas creio que é isso mesmo) cultiva temperos e frutas em seu quintal. “Não preciso sair para comprar hortelã para tomar um chazinho ou manjericão para um queijinho ou caipirinha. Além disso, temos afinidades com produtos naturais, que fazem parte dos hábitos da família”, comemora. Sua plantação tem manjericão, salsinha, sálvia, orégano, alecrim, algumas verduras, inhame, açafrão da terra, uma jabuticabeira e limão-siciliano. “As frutas não dão trabalho e os temperos precisam de sol. De acordo com as estações, os mudamos para pegar mais sol”, declara.


Fazendo direito

Desde 2008, quando chegou à Granja Viana, a consultora jurídica Lídia Gomes Wahhab e seu marido começaram a plantar. “É mais saboroso ter um prato de saladas colhidas em uma horta, sem agrotóxico, totalmente orgânica e ainda utilizar o lixo orgânico, como vegetais, cascas de cenoura, batata, chuchu, casca de ovos como forma de adubo”, afirma. Em suas terras, já colheu abóboras, mandiocas, milho, maracujás, quiabo, beterraba, jiló, alface, tomate, espinafre, almeirão, rúcula, cenoura, brócolis, salsão, alho-poró, cebolinha e salsinha. Mas tomate, diz, é difícil de cultivar na Granja. “Aqui o clima é úmido, e temos mais dias frios do que quentes, por esse motivo, minha maior dificuldade é manter os pés de tomates saudáveis”, afirma.


Expandindo os negócios

“Na casa da avó Bene já tivemos muitas aves como faisão, galinha, peru, codorna, ganso. Hoje só tem um papagaio”, declara a bem-humorada diretora de escola Estela Aparecida Martins Garcia Cassaguera. É lógico que o papagaio não serve de alimento, mas o canteiro com manjericão, manjerona, alecrim, salsa, cebolinha e espinafre é um grande aliado para turbinar as comidinhas produzidas na casa da diretora. Ingredientes para chá, como hortelã, erva-doce, arruda, almeirão e agrião, não faltam. A horta deu tão certo que abriu até uma filial na casa da avó Bene, que, por bem da verdade, poderia ser a matriz com seus 8 m por 2,5 m, contra os dois canteiros com 0,25 cm por 2,45 m e 3 m por 0,23 cm da casa de Estela.


Ovos gigantes

Pudim de leite, ovo poché ou omelete. Tudo feito com os enormes ovos de três gansas, Guga, Cris e Quinloui, carinhosamente cuidadas pela advogada Maria Goreti Silva Camarano. Tudo começou em 2012, com a chegada da primeira ave batizada de Donald. “Nossa pretensão não era criação comercial, e sim os cuidados primários para que ficasse sadia e forte para retornar ao lago de origem. Mas isso não aconteceu, pois foi ficando, logo chegavam outras aves e entravam pelo portão de casa. Fomos nos apegando às peraltices e carinhos dados e recebidos”, relembra Goreti. Ela diz que os gansos são muitos espertos, curiosos e atentos a tudo e a todos, ótimos sinalizadores dos que se aproximam do seu terreno e, por vezes, melhores que cães, somado ao fato de afastarem animais peçonhentos. Um ovo de ganso equivale a quatro de galinha. “O benefício é o mesmo que de um ovo tradicional de galinha, mas com a riqueza de ser maior. Um diferencial que percebo é que ovo de gansa não tem o mesmo odor do outro, especialmente nas comidas, além de ser mais cremoso que ovo de pata, mais comum para gemadas”, explica. E quanto ao sabor da ave? “Aqui em casa, comê-las, jamais!”, faz questão de frisar.