O maior cantor de rap romântico do Brasil, o granjeiro Projota, encarregou-se de destruir, um por um, nesta entrevista exclusiva à Circuito, os diversos mitos criados a seu respeito. De cara, revelou que não há apenas um Projota, mas dois, ou melhor, uma segunda voz que fala por meio dele. “Speak though me” (fale através de mim) diz a tatuagem que leva no braço, dedicada à sua mãe, falecida quando ele tinha 9 anos. “Eu canto por nós dois”, garante. E é ela, mais do que as belas mulheres que aparecem em seus videoclipes, a maior inspiração deste artista que, aos 32 anos, já está montado num sucesso de mais de um bilhão de vídeos baixados no Youtube e pencas de números superlativos nas outras redes sociais. Ele ainda pichou o mito da própria imagem de “bonzinho” e alertou os fãs para não o idealizarem, porque, afinal, “ídolo também faz merda”. Diz que nem sempre é flor que se cheire, confessa que começou a cantar rap achando que só esse estilo aceitaria sua voz “normal” e ainda desconfiou da própria sanidade. “Eu me entendi como louco”, garante. Essas ironias contra si mesmo não são novidade para quem ouve suas músicas, repletas de crônicas de um rapaz nascido em Lauzane Paulista, periferia da Zona Norte de São Paulo, que galgou o sucesso sem perder o humor e o senso crítico. Em suas letras (e aí outra revisão de imagem, ele se considera mais poeta do que músico), Projota parece abrir as vísceras a céu aberto, nada nele acena com algum tipo de falsidade ou receio do que canta. Nas letras, que alcançam momentos de refinada poesia, ele se pergunta se a mãe aprovaria sua vida atual, se orgulha do pai pedreiro, lembra que o “sistema” só deixou ele sobreviver e ter fama por um engano qualquer. Mas também aparece ali se apaixonando por uma garota descolada, se gabando de estar com um mulherão ou curtindo o carrão novo. A “quebrada” e a badalação encontram seu lugar na arte de Projota, que embora conhecida pelo romantismo, está mesmo, ele revela, a serviço da motivação. Ele não tem dúvida sobre o público-alvo de seu trabalho, e o quanto é necessário estimulá-lo a ter autoestima: “Eu escrevo pra moleque de vila, meu negócio é dizer vai lá, mano”. Parece que nada na rotina de Projota, ou José Tiago Sabino Pereira, fica fora de suas músicas, e o segredo ele conta: tem que sair do estúdio e ir par a rua, ouvir o que estão tocando, falar com gente e prestar muita atenção ao que os fãs dizem. Por causa dessa fé na rua, não é raro encontrá-lo por aí na Granja Viana, bairro que escolheu para morar em 2017 por sua “energia mais feliz”. Nesta entrevista, ele fala sobre sua música, poesia e sobre o futuro do rap e como o estilo chegou às altas rodas.

Você canta o bairro pobre de onde veio e o carrão que tem hoje. Fala dos seus pais, do amigo assassinado na rua de baixo, diz que você ter vencido foi “um erro do sistema” e brinca com a badalação que te fazem agora que é famoso. Não tem receio de se expor tanto?

Acho que minha geração no rap é mesmo a primeira a fazer isso. Não me lembro de nenhum estilo musical que fosse tão visceral assim e que se abrisse tanto. Eu, o Emicida, o Rachid, a gente aprendeu a fazer rap junto e temos isso, mas não era assim. Tinha antes o lado visceral, mas falando do social, do bairro, não da própria casa. Eu digo o que acontece dentro de casa, com a família. É meio diferente mesmo, nunca tinha parado para pensar nisso assim tão profundo.

 

Você tem música em que se pergunta se sua mãe, já falecida, estaria se orgulhando de você. Há quem precise passar anos no divã para se expor assim, e você abre numa boa.

Mas fazer música é um divã mesmo, pelo menos para mim. O palco é um divã e as pessoas são todas psicólogas, dão a oportunidade de me abrir. Nem sempre vou ficar de butuca na opinião do que vão falar das coisas da minha vida que ponho nas músicas, mas pelo menos eu desabafo, e sei que alguém está ouvindo, você nunca vai saber se seu psicólogo está realmente te ouvindo, né? Eu não estou pagando para meus fãs me ouvirem, mas sei que eles vão me ouvir.

 

Como é que você sabe? Qual é o retorno?

As mensagens, né? São milhares, todos os dias. Se eu abrir meu Instagram agora, e as minhas DM, com certeza, nas últimas mensagens, vai ter alguém falando algo como “cara, por causa da sua música eu saí da depressão” ou “eu usei sua música para minha prima que estava mal”. Isso é todos os dias, um monte de gente falando, gente que se encontra espiritualmente através da música.

 

É muita gente?

No Facebook, são quase sete milhões. No Spotify, um milhão e setecentos mil por mês. E um bilhão no Youtube, cara!

 

Não fica curioso para ler o que essa multidão comenta?

Eu vejo sempre. Principalmente quando lanço uma música, presto muita atenção nos comentários. Mas tem que saber filtrar muito bem na minha cabeça o que me afeta e o que não me afeta. É uma tentativa de entender como a galera está pensando. Aí, vou ver como está o trabalho dos outros artistas, o que a galera está comentando no deles, porque se, por exemplo, estiverem gostando de uma parada que acho uma bosta, e aí estão falando o mesmo de mim, então não vou ficar deslumbrado, entendeu? (risos). Mas eu vejo sim, no Youtube, no Instagram, fico sempre de olho nos números também.

 

Que responsabilidade, hein? É muita gente botando energia ali…

A música, em si, já tem essa capacidade de unir as pessoas, e essas pessoas que se encontram por minha causa, essas que eu represento, eu entendo total. Muitas vezes preciso me posicionar sobre algum assunto, porque eles esperam isso. Eles estão pensando aquilo e precisam falar aquilo para o mundo, aí eu falo, e é exatamente o que eles estavam querendo falar. É muito doido porque é tudo espontâneo, não é como na política em que você tem que escolher alguém. Eles vêm porque querem mesmo, o que os move é muito mais importante, é o pensamento deles, as crenças, sou um tipo de representante dessas coisas.

 

Você alimenta uma imagem, tipo “o cantor de rap romântico” ou algo assim?

É exatamente o contrário. Não crio a imagem, faço coisas e as pessoas geram uma imagem minha. Na hora que começa a grudar, tento sair correndo. Por exemplo, sempre tive uma imagem meio de romântico, o bonzinho, porque não uso drogas, tenho o lance de passar mensagem positiva etc. Isso já foi um problemão para mim, chegou num ponto que eu estava começando a ficar louco com isso, e não é por uma questão de imagem, de mercado, mas por causa das pessoas que embarcam total.

 

Os fãs exageram?

Tem músicas que escrevi para dizer: mano, não sou essa flor que se cheire, não vai por mim assim, também já errei muito, machuquei as pessoas, e não se esqueçam disso. Porque senão, a pessoa quer ser igual a mim, só que esse “igual” é o que ela idealizou de mim, um tipo de ídolo para ser celebrado, e ela nunca vai conseguir, porque só existe na cabeça dela, certo? Então tem que dar uma quebrada e dizer: olha, eu não sou tudo isso, também erro. Meu último disco (“A milenar arte de mandar o louco”) tem algumas músicas em que digo isso.

 

Isso o quê: que você também erra?

Isso de desabafar, abrir algumas portas que não tinham sido abertas, falar algumas coisas que não tinham sido faladas, exatamente para a galera parar de achar que eu sou tão foda. Eu sou assim, eu sou mesmo foda, mas assim, humanamente foda. Sou um cara da hora, fiz muita coisa legal, cheguei num ponto bacana, não preciso me meter na demagogia aqui, mas peraí, ninguém é Deus, segura a onda.

 

Você é da quebrada, vem da periferia, mas é contratado pela Universal, faz shows no Brasil inteiro, na TV etc. Como equilibrar esses dois mundos?

Uma coisa que faz toda a diferença é que meus amigos são os mesmos. Posso ter mudado de casa, minha vida financeira, ter ajudado minha família, essas coisas, mas o meu dia a dia, o lazer é muito parecido com o que era antes. Tenho os mesmos amigos, não rola só alta roda porque sou famoso. Cara, raramente você vai me ver com outro famoso, tem alguns mais próximos, mas são pouquíssimos. Amigos de verdade, aqueles que vem falar comigo no WhatsApp todos os dias, que a gente se encontra para um churrasco, são os mesmos de quando eu tinha 7 anos. Agora a gente tem um lugar para fazer um churrasco, é só essa a diferença, e uma piscina pra pular. Antigamente, a gente tinha que andar três horas para ir nadar num pântano. Eu morava no Lauzane (Paulista, bairro da Zona Norte de São Paulo), a gente tinha que passar por duas favelas para chegar num barranco onde a água empoçava, no verão, na época de chuva. A gente ia lá nadar no meio das garrafas.

 

A inspiração para sua música vem daí?

Minha música vem do que eu vejo na vida. São minhas experiências. Se eu me fechar aqui no estúdio, a informação não vai circular. Pego meu carro, vou para os lugares e boto o rádio para tocar para saber o que está rolando, é isso, viver, ir pra rua.

 

Mas você está no palco com o Marcelo D2, com a Anitta, ídolos do país todo. Como é que você consegue mergulhar nessa badalação toda, sem, como dizer, sair de Lauzane Paulista?

Família! Hoje sou muito feliz por ter chegado a um ponto onde dá pra fazer meu ritmo. Não gosto de fazer muito show e atravancar minha semana. Eu sou compositor. Antes de tudo, sou um poeta e escrever é o que me faz bem. Mas só escreve quem vai e vive, quem tem o que contar. Preciso estar com os amigos, a família, viajar sem trabalho, ver coisas para que eu possa pensar a respeito e escrever. Não adianta eu, de sete dias, passar cinco fazendo show e nos dois dias que sobram morrer em casa de cansado. Gosto de fazer show três dias por semana, sexta a domingo, ou quinta a sábado, e ter os outros dias para isso que a gente está fazendo aqui: falar com gente. Ontem eu estava de folga, sabe o que eu fiz? Na-da, joguei videogame, e estou muito feliz com isso, porque olha só o que seria a alternativa…

 

Que alternativa ruim seria essa?

Taí todos os dias. A gente acabou de perder o Mac Miller (cantor norte-americano, morto em setembro) por overdose. A overdose não é um suicídio, mas ela vem da luta com problemas psicológicos que o cara está tendo, por isso essa necessidade de se entregar para as drogas. Veja: nunca usei drogas e, por causa disso, consegui manter minha mente sã. Principalmente esse tipo de artista, que carrega uma ideologia, a gente já perdeu quantos? São tantos ao longo dos anos, inúmeros ídolos perdidos para o suicídio e as drogas. A cabeça não estava em ordem.

 

De onde vem o título do seu último CD, “A milenar arte de meter o louco”?

Tenho a consciência de que sou louco para eu escolher esse caminho, escrever essas coisas. Eu sou louco, por isso que meu último disco saiu com esse título. Eu me entendi como louco, não tive nenhum diagnóstico que atestasse insanidade, só sei que eu sou. Então, me apego às coisas mais puras da vida, para que eu não me entregue, não caia de vez e consiga administrar essa loucura… tipo Raul Seixas, né? Controlando a minha maluquês, misturada com a minha lucidez, é exatamente isso. Tenho em mim essa loucura junto com o mais comum de tudo, gosto de estar com minha namorada, minha avó, meu pai, meu irmão, meus amigos fazendo um churrasco. A vida para mim é esse balanço.

 

Mas o que é esse “louco”?

Quando tinha 16 anos, eu escolhi cantar esse estilo de música. Todo mundo olhava e dizia: “mano, você está louco? Você vai cantar rap?” “Você é inteligente, Tiago”, tinha muito disso, era meio desprezo pela minha escolha. “Você é inteligente, podia fazer uma faculdade”… A frase que mais ouvi foi “vai fazer um concurso público, você vai passar, vai ter um emprego aí para o resto da vida…“ (ri). Entende? Não é menosprezar a carreira pública, um emprego, mas fiz uma escolha que, nesse contexto, foi uma loucura. Mas eu não ouvi, eu meti o louco.

 

E qual era o plano?

Quando decidi fazer rap, lembro que minha intenção era salvar algumas vidas. Sério! Eu tinha 16 anos e falava isso: se eu fizer a diferença e salvar a vida de uma ou duas pessoas, então valeu a pena isso que eu estou escolhendo. Imagino o que ia na cabeça dos meus ídolos quando fizeram a escolha deles, quando jovens. É uma escolha de vida mesmo, vou tirar um pouco de mim para dar para os outros, pensar um pouco menos em mim para pensar no próximo, representar uma turma. Eu ainda fui fazer um estilo de música que ninguém vivia disso. Tinha só Racionais, Marcelo D2, Gabriel Pensador, mas era algo muito pequeno. Na história do movimento, meia dúzia de pessoas conseguiu realmente viver e ter um crescimento financeiro em casa com isso. Eu podia estudar, fazer faculdade, ter uma carreira tradicional, mas escolhi fazer isso, então foi tirar de mim para poder mudar essas vidas.

 

Ajudar como?

A questão motivacional é a principal do meu trabalho. Não é nem o romântico e nem o político. Minha música é muito para moleque de vila: “vai, vai lá, mano, não tenha medo do pior”.

 

E o interessante é que hoje o rap chega aos bailes de debutantes dos bufês e ao horário nobre da TV. Porque a mensagem é cada vez mais universal. Quando canto Mayday, por exemplo, ou Sr. Presidente, falo da política. Não é só periferia que concorda com o que eu estou falando. Hoje o rap não fala mais só da questão da periferia, os músicos tiveram a oportunidade de conhecer mais coisas, é raro falar com um rapper aí que nunca viajou para a Europa ou os Estados Unidos. Por outro lado, o pessoal tinha muito preconceito contra o rap, dizendo que fazia apologia da criminalidade, mas o que eu ouvi no Dexter, no Racionais, no MZO, o que eles passaram para mim, era uma mensagem bem diferente, tipo, mano, não se entrega pras drogas, não entra para o crime. Eles falavam da verdade que não estava passando na televisão, o jornal não mostrava, mas eles falam na música, porque estava acontecendo ali, na rua de trás, o amigo morrendo, tá ligado? O outro amigo que outro dia estava ali jogando bola com a gente está passando armado, porque agora ele é do crime, então eu vivi isso de perto, e eles também. E a mensagem do rap trazia isso. Fui fazer uma faculdade, convivi com uns caras que achava que eram playboys, e percebi que não, que eram gente boa pra caramba, eram classe média, mas a vida deles não tava fácil também, acabei vendo que até eu também era preconceituoso. O tempo mostra a verdade para a gente.

 

Você cita sua mãe em suas músicas. Quantos anos você tinha quando ela morreu?

Sete anos quando ela sofreu o AVC e 9 quando ela faleceu.

 

Foi quando você começou a compor?

Minha mãe já compunha, e também era cantora. Só que muito jovem ela largou porque na época mulher sendo artista não dava certo. A família brigou muito e não deixou, achavam que isso era tirada de puta. O que eu falo na minha música das mulheres, eu falo por ela. Tenho até uma tatuagem aqui (mostra o braço, com uma tatuagem de duas pessoas em uma só, cantando) “speak through me” (fale através de mim), que é exatamente isso, a minha mãe fala por meio de mim, eu sinto isso, eu canto por dois, desde moleque penso isso. Acho mesmo que tenho mais força do que os outros, porque os outros cantam por um, eu canto por dois, desde os 15 anos. É uma das coisas que me faz falar de mulheres na minha música, de cobrar quem é sexista, falar contra o machismo.

 

Foi isso que inspirou esse seu lado romântico?

Cresci ouvindo muita música romântica por causa dela. Seu maior ídolo era o Roberto Carlos; o segundo, Julio Iglesias. Era o que eu mais ouvia nos domingos de manhã ou mesmo quando ela fazia o serviço de casa, ela era dona de casa. Meu pai dava para ela todo ano o vinil do Roberto Carlos, ela tinha uma coleção que nas mudanças acabou se perdendo.

 

Você foi o primeiro rapper a gravar romântico?

Não, longe de ser o primeiro. O primeiro rap romântico que conheço era do Ndee Naldinho ainda, e olha que ele era o cara mais gangstar do rap, o que mais falava dessa coisa de criminalidade nas letras. Ele tinha uma música chamada Aquela mina é firmeza (lançada em 2000), foi a primeira que eu me lembro. Depois, teve o Trilha Sonora do Gueto, que eram os caras que abriam os shows dos Racionais, lá em 2001, 2002, eles tinham uma música que era Vida Loka também ama. E depois, a geração que fica entre o Racionais e a minha, tem o Kamau, que fazia muita música romântica, o MC Marechal. Eles não estouraram nacionalmente como a minha música, mas dentro da cena do rap eram bem conhecidos, eu era fã. Então eu tenho muitas referências. O que fiz foi conseguir popularizar na real a música romântica no rap.

 

Você sempre cantou rap?

Quando comecei a compor, com 11 anos, as primeiras coisas que compus eram hinos de igreja. Eu frequentava a igreja evangélica e comecei a fazer rock tipo Oficina G3, rock gospel. Mas eu me deixava fazer outras coisas também. Não tinha muita coisa romântica não, era mais passar alguma mensagem.

 

O que do rap te ganhou? Foi a letra, a batida, o clima…

Olha, foi a letra. Eu não ouvia rap, porque não gostava da batida. Gostava de rock, de coisas mais harmônicas que o rap daquela época. O rap era aquela coisa tuuu tu-tu-tuuu, mais quadrado, não falava comigo. Quando o Racionais MC lançou “Nada como um dia após o outro dia”, eu me apaixonei por Vida Loka, que é mais harmônica, tinha um violão, é uma música de uma banda inglesa que eles samplearam, era diferente, conversou comigo e eu disse: mano, olha essa letra. Aí fui ouvir o disco, e vi que era uma letra melhor que a outra. Acho que houve um salto, uma evolução do Racionais muito grande do “Sobrevivendo no inferno”, que eu criança não curti tanto, para o “Nada como um dia após o outro dia”, é uma lírica diferente, que comigo conversou melhor, mais metáfora, era diferenciado e era uma outra fase da minha vida. Eu, com 15 anos, era rebelde, doido para ser levantado pela rebeldia, para ser punk, e o rap foi meu punk na vida, sabe?

 

E quando você começou a compor?

Desde os 11 anos, mas eu não sabia cantar. Quando comecei a ouvir rap, confesso que pensei: isso, agora pronto, não preciso cantar para cantar rap, não preciso ser afinado ou ter uma potência vocal, então agora posso cantar o que eu escrevo (risos). Foi assim o que eu pensei no dia que compus meu primeiro rap, não preciso mais compor e dar para os outros, que era minha ideia. E aí depois, quando eu cresci e montei meu primeiro grupo, veio outra neurose: mano, eu não tenho um vozeirão para cantar rap. Olha a voz do Mano Brown, do Edi Rock, do Mv Bill… eu não tinha essa voz toda, tenho uma voz simples, na média.

 

E como você se virou com a voz?

Trabalhei a voz. Mas aí isso se transformou porque, hoje em dia, o rap não é mais assim. É raro conhecer alguém das novas gerações que tenha esse vozeirão grave, porque agora a galera bota a melodia, eu coloco também, canto meu refrão, percebi que se eu trabalhasse a minha voz eu conseguiria cantar meu próprio refrão, colocar a melodia dentro do meu flow (fluxo de frases), e aí eu fiz isso, não fui o primeiro a fazer isso, mas talvez um dos primeiros a chegar num nível tão alto assim. Isso me ajudou muito nas músicas românticas. Acabei conseguindo encontrar com minha voz um meio-termo. Hoje dá pra ser agressivo e incisivo com essa voz e soa até grave na comparação, porque há alguns rappers com voz mais fina, é louco isso.

 

E esse seu jeito de gesticular, levantar a plateia, veio de onde?

Devo muito disso ao meu DJ, sabia? Porque ele (o DJ Zalla), para ganhar algum, promovia muitos eventos, e ele sempre conseguiu coisas de governo, ia pra parque, fazia duelo de beatmaker (músicos que no hip hop produzem sons percussivos), promovia eventos como a Liga dos Beats, e eu era o apresentador da Liga dos Beats, aquilo me deu uma bagagem… e eu batalhei muito também (batalhas são competições de improviso), eu tinha a oportunidade de ser o apresentador, o MC de fato, que era o cara que tinha que fazer as pessoas levantarem a mão e gritar, isso me deu uma bagagem do caramba. E aí vem a referência do rock, minha postura de palco sempre foi inspirada nisso. Pulo mais para trazer a galera, isso sempre foi do rock, e o meu gestual de mãos também, o que ajuda muito porque meu show é mais longo, tem uma hora e meia, então tem hora que percebo que não preciso nem andar, mas com o meu braço eu consigo dominar o palco.

 

Você já colocou solo de guitarra e piano nas músicas, já se apresentou com banquinho e violão e algumas músicas lembram até um reggae. Afinal, você ainda é um rapper? (risos)

Nunca vou parar de fazer rap, me considero um rapper. Mas não tenho preconceito com os outros estilos e a trazer outras coisas para dentro do rap. É que a galera gosta de tarjar, mas eu não ligo mesmo. Acho que a tendência é daqui a alguns anos não ter mais tarja, os jovens hoje não têm mais tarja. Não tem o grupo dos roqueiros, do hip hop, do pagode, do reggae. Os adolescentes ouvem tudo hoje, MPB, pop, rock etc.

 

E não há xiitas do rap que reclamam da inovação? Assim como o pessoal do folk reclamou quando o Bob Dylan começou a tocar guitarra?

Até que não. Dá muito certo. O “Para não dizer que não falei do ódio”, que tem guitarra e piano, foi uma produção para DVD e é um dos meus vídeos mais acessados, está indo para 70 milhões de views e é uma segunda versão, porque a antiga é de 2011, e essa música saiu em 2016. É mesmo nível de músicas que tocam na rádio, mesmo nível de Oh meu Deus, e Linda.

 

Linda parece um reggae, não é?

Tem influência, né? Tem também um quê de forró. Nos shows eu até brinco, agora vai começar o forró, e puxo uma dancinha. Essa é uma música que pode ser tocada em muitos estilos. Pode ser um pagode, um sertanejo, forró, reggae e até um rock.

 

O que está rolando de música que está te interessando?

Eu estou gostando muito do que está acontecendo no rap aqui no Brasil. Tem muita coisa boa, essa nova geração agora é fantástica, um melhor que o outro.

 

De quem você está falando?

Olha, tem um menino chamado Djonga, de Minas Gerais, que é muito bom, tem o Froid, de Brasília, que é um gênio. Tem uma menina chamada Cynthia Luz, do interior de São Paulo, que é fantástica, e tem essa galera toda do trap, que é a onda agora.

 

Que dizem que é o elo perdido entre o rap e o funk, é isso mesmo?

Acho que é diferente. Mas eu vejo as coisas assim: o que não se falou, não é que é proibido de ser falado, só não foi falado ainda. O rock foi assim, ele passou por todos os tipos de linguagem, de imagem, teve uns caras que pareciam fazer cara de mau, tinha um monte de gente que ia maquiado, tinha de tudo. O rap é isso também, ele vai passar por várias imagens e linguagens. Hoje a gente tem o trap, que está falando de outras coisas. Pode durar para sempre, como pode durar mais um ano e acabar, não se sabe.

 

Como foi que você conheceu a Granja Viana?

Cresci em uma casa e sempre quis ter meus filhos, quando vierem, crescendo em uma casa. E agora ainda tem essa questão, sendo artista, é mais complicado viver fora de condomínio. Aí teve uma época que morei na Serra da Cantareira, que é esse perfil na Zona Norte. As opções eram Zona Oeste, que tem Alphaville e a Granja, e tinha Arujá. Aí no ano passado fui pesquisar, e conheço algumas pessoas daqui. O (Felipe) Tito me falou de cara sobre o bairro, assim que nos conhecemos, era meu vizinho de porta aqui, e tem a Negra Li também. Eu falei sobre isso com eles e fiquei entre a Serra, Granja e Alphaville. A Serra é mais escuro, fechado, é meio Gotham City. Aqui tem uma energia mais feliz, mais aberto, ruas mais largas etc. Fiquei entre Granja e Alphaville, e aí foi uma questão de vir ver, entender como é o lugar, os restaurantes, os serviços etc. A questão financeira fez diferença. Aqui você consegue algo muito maior. Aí, pensei: meu, aqui não deve nada para o Alphaville, lá só é um pouco maior. Nunca tive problema em morar um pouco mais longe, a turma até fala que moro longe, mas pô, eu morava em Lauzane, pegava ônibus, eram duas horas e meia para chegar no centro de São Paulo, então você acha que moro longe? Agora, são 40 minutos.

 

E o que você mais gosta aqui?

Sou apaixonado pelo Tantra, é o meu restaurante favorito, e está na porta de casa. Gosto muito do kart (Kartódromo da Granja Viana), na verdade meu primeiro contato com a Granja foi o kart. Agora eu já conheço bastante, já sou amigo da galera nos lugares que vou e no posto de gasolina os caras já me conhecem. Descobri um restaurante bem bacana outro dia, que fica na José Félix, o Félix Bistrot.