O Irã nunca esteve nos meus planos como destino turístico por vários motivos.

Não é um país seguro para se viajar, está em guerra, não recebe bem turistas ocidentais e para mim particularmente, sendo judia, estaria até correndo perigo de vida. Achávamos que estaríamos sendo vigiados a todo tempo, e que estariam jogando pedras neste grupo descrente do islã.

Até que, inesperadamente, recebi um convite de um amiga dizendo que um grupo bastante heterogêneo de psiquiatras e jornalistas (todos inseguros como eu em fazer a viagem sozinhos) estava se organizando junto a uma empresa local para um percurso de 13 dias pelo país.

Nunca demorei tanto para fazer uma mala de viagem como nesta ida ao Irã.

Um mês antes, comecei alternadamente pesquisar na internet e visitar o meu armário. Nada parecia se adequar as ditas exigências do país; ou seja, cabeça coberta desde o momento que saíssemos do avião, manga comprida, calça cobrindo o tornozelo e túnica cobrindo o quadril até o meio da coxa.

Tudo errado; nada disto! A mídia dá informações enviesadas e com interesses específicos.

O povo iraniano é super amigável e nos recebe com sorrisos o tempo todo. As meninas fazendo sinal de coração com as mão e agradecendo a nossa visita ao país deles. Com frequência pedem que contemos aos amigos do Brasil que é seguro viajar por lá para que outros turistas venham também. É comum pedirem para tirar fotos conosco e começam um diálogo com o intuito de praticar o inglês. Dizem que o que mais lhes agradam nos estrangeiros é o colorido de nossas roupas.

O turismo baixou a quase zero desde o embargo dos USA na era Trump e o povo sente isto no bolso. Supermercados com poucos produtos nas prateleiras e pouco dinheiro circulando.

Com relação a vestimenta, o Hijab (lenço para cobrir a cabeça) realmente deve ser usado o tempo todo. Mas, após alguns dias já tinha me acostumado a ele e criei inclusive vários “modelitos” de uso, inclusive, como turbante ou mesmo somente o uso de chapéu de sol para cobrir a cabeça. De resto são bastante tranquilos, ou seja, calça comprida ou saia comprida e um camisão cobrindo o quadril já é o suficiente

Como o resto da Europa central, o país é absolutamente limpo, seguro, e em alguns momentos em Teerã me sentia andando por algum canto da Europa ocidental. Não se vê policiais ou exército em canto algum. Pode-se caminhar sozinho, inclusive a noite, por parques e ruas onde famílias e crianças estão passeando e se divertindo.

O nosso roteiro cobria nomes conhecidos para qualquer um que já tenha entrado numa loja de tapetes persas, como Kashan, Isfahan, Naien, Yazd e Shiraz. Produto este que, aliás, movimenta muito a economia do país, porém, diferentemente de outros países do oriente, a barganha existe, mas é moderada e o preço final de um tapete não diminui muito mais que 15 a 20%.

Teerã não é o ponto turístico mais cativante, mas mesmo assim tem lugares interessantes como o Palacio de Golestan, o Museu Nacional (que dá sentido à todos aqueles nomes, como Dario, Ciro, Xerxes, Ataxerxes, Alexandre o Magno, Aquemênidas, etc, que um dia ouvimos na escola) e as Joias do Tesouro Nacional, que são excepcionais e estão guardadas no cofre-forte do Banco Central do Irã. Estão abertas à visitação somente por 2 horas ao dia, sendo bastante concorrido e uma longa fila de espera.

O Grand Bazaar é variado mas não tão interessante quanto os de Isfahan ou Shiraz. Ao lado do bazar é imperdível o almoço no Moslem, um restaurante simples numa sobreloja, bastante movimentado, caótico até, com uma comida deliciosa e pratos baratos e imensos que servem facilmente duas pessoas.

Falando em alimentação, amei a comida iraniana. Possui várias influências de todos os povos que passaram por lá (por conquistas ou por fazer parte da rota da seda.Tem sempre um fundo azedo no paladar que é dado pelo farto uso de limão, cranberry, sumac (tempero bastante azedo) e dill (ou azedinha).

O Iran é um dos grandes produtores de açafrão do mundo estando sempre presente no arroz que é acompanhado com frequência de carneiro, vegetais e pistache. Não se vê alimentos semi-prontos nos supermercados e as iranianas passam longas horas na cozinha providenciando a alimentação.

Nosso próximo destino, já entrando no deserto da região central do Irã foi a cidade de Kashan. Famosa pela produção de óleo de rosas, tem residências históricas, os tão famosos jardins persas e um bazar muito interessante, onde não resisti e acabei comprando um lindo tapete persa após uma negociação bastante tranquila que foi ajudada pela nossa guia Samira. Uma jovem, era a única guia mulher do nosso grupo e durante toda a negociação ela estava junto ao telefone com sua mãe que foi uma artesã de tapetes a vida toda e orientava com relação a qualidade do tapete, número de nós, composição, tintura etc.

Samira era muito curiosa com relação aos nossos costumes ocidentais especialmente no que se referia a relacionamentos interpessoais ou mesmo entre sexos. Disse que a mulher no Irã é muito oprimida, e bastante controlada pelos pais até o momento do casamento; quando então é controlada pelo marido. Contou que para seu aniversário chamou algumas amigas em casa para comemorar, mas para tal, o pai, bem como os irmãos tiveram que sair de casa para que as mulheres ficassem sozinhas.

Saindo de Kashan a caminho de Isfahan paramos num pequeno vilarejo bem isolado chamado Abyaneh. É considerado um dos vilarejos mais antigos do Irã com mais de 2500 anos. As casas são construídas em adobe vermelho que dá um aspecto peculiar ao local. Hoje em dia a maioria dos jovens abandonou a cidade a procura de melhores oportunidades, então a vila é composta de poucos anciões que têm dialeto e costumes próprios.

É em Isfahan que se encontra uma das maiores praças do mundo, a Praça Iman. Ela só perde em tamanho para a Praça da Paz Celestial em Pequim. É imponente e cercada de lindos monumentos como a Mesquita Shaik, Palácio Ali Qapu, Mesquita Sheik Lotfollah, e a imponente entrada do Grand Bazaar.

O bazar de Isfahan é o maior bazar coberto do mundo e vale a pena comentar que são nos bazares onde acontece o dia-a-dia do iraniano. São sempre bastante movimentados e pode-se comprar absolutamente de tudo.

Visitamos o bairro armênio de Jolfa com uma catedral armênia e um museu emocionante que conta um pouco do genocídio armênio praticado pelos turcos por volta de 1920.

No caminho de Yazd paramos em Naien e visitamos o interessantíssimo sistema de abastecimento de água. A captação de água subterrânea das montanhas se faz por antiquíssimos canais subterrâneos chamado qanat que perduram até os dias de hoje.

Por todo canto se vê as “torres de vento” que formam um sistema de refrigeração das casas para o intenso calor. Consiste em 1 torre com 2 dutos e aberturas verticais superiores. Por um lado o vento força o ar para baixo na casa. Este ar passa então sobre um recipiente cheio d`agua que refrigera a casa e empurra o ar quente para fora pelo outro duto da torre.

Foi em Yazd que tivemos contato com o Zoroastrismo, uma das religiões mais antigas do mundo e ainda com alguns poucos adeptos no Irã.  Até muito pouco tempo a Torre do Silencio de Yazd ainda era utilizada para o depósito dos mortos para serem devorados pelos abutres, pois acreditam que o cadáver é impuro e não deve violar a sacramentalidade da terra.

Apesar do conhecimento da rigidez do governo teocrático iraniano com relação a outras religiões que não a muçulmana, notamos que minorias como os cristãos, judeus e zoroastristas convivem na sociedade com tolerância.

Nosso destino final Shiraz, foi o ponto alto da viagem com visitas a Passargada e Persépolis.

Passargada foi capital do Império Persa por muito tempo e o túmulo de Ciro II lá se encontra. O local é muito pouco preservado e com longas caminhadas de um sitio arqueológico a outro. Vale a pena contar que no caminho para Passargada li o poema de Manoel Bandeira para meus companheiros de van para que fossemos entrando no clima do lugar. Nosso guia, Ali, muito atento, ao final da leitura fez o comentário de que não havia entendido nada, mas que a sonoridade do poema lhe chamou atenção. Minutos depois, ele muito rapidamente achou o poema em inglês no seu celular e leu em voz alta novamente para deleite de todos.

Persépolis é majestosa, um dos grandes museus a céu aberto do mundo. Construída por Dario I, e posteriormente por Xerxes e Ataxerxes é bastante preservada com palácios e mais palácios para visitação. Foi construída para ser uma cidade cerimonial de intensa grandeza, mas a construção acabou sendo interrompida com a invasão de Alexandre o Grande em 330 a.C. Próximo a este complexo estão as tumbas de imperadores persas incrustadas na montanha que muito me impressionou.

A visita a cidade de Shiraz é cheia de encantos. É lá que damos vazão a todo imaginário iraniano.

Novamente um bazar bastante movimentado onde comprei os ingredientes secos para preparo de pratos iranianos, sempre com ajuda de passantes que ficam muito curiosos e logo se dispõem a ensinar as receitas milenares.

A Mesquita Nasir ol Mok ou Mesquita Rosa deve ser visitada pela manhã quando os raios solares atravessam o vitrais dando um ar etéreo e absolutamente mágico.

Imperdível é o Eram Garden, um exemplo refinado dos jardins persas com uma coleção maravilhosa de rosas. Posteriormente visitamos túmulo do poeta Hafiz que foi um adepto da filosofia sufista, da liberdade e reflexão. Escreveu versos cheio de sensualidade. Então, o túmulo além de uma joia arquitetônica é ponto de encontro de casais que passeiam de mãos dadas, bem como, de manifestantes insatisfeitos com o regime atual.

Foi com o coração engrandecido por tanta história, beleza e carinho do povo iraniano que deixamos a Persia. Mas, não antes, sem passar por um susto quando de volta em Teerã.

Enquanto meu marido tinha um encontro acadêmico na Universidade de Teerã, decidi visitar o museu do carpete relativamente perto do nosso hotel. Após 4 ou 5 quadras do hotel notei o olhar enviesado de um senhor sentado num banco do parque. Instintivamente coloquei minha mão na cabeça e me dei conta que estava sem o Hijab. Fiquei absolutamente apavorada, pois isto é motivo de prisão no Irã. Voltei correndo para o hotel, peguei o lenço e me cobri de acordo. Ufa!

De volta à travessia do parque passo novamente pelo senhor do banco que, ao me ver, abre os braços, me aconchega e me afaga com um belo sorriso iraniano.

 


Debora Patlajan Marcolin, médica, 62 anos, muito curiosa com relação a diversidade cultural do nosso planeta. Viajo desde que me conheço por gente e tudo me atrai. Desde a minha vizinhança pobre de Carapicuiba até as cerimonias fúnebres de Tana Toraja na Indonésia, passando por paraísos naturais como o pantanal mato-grossense e deserto do Jalapão. Já conheci por volta de 75 países e não paro de projetar novos destinos. Entendo que para se viajar é preciso estar de peito aberto e abandonar todo tipo de preconcepção, que com certeza, a viagem vai te provocar profundas mudanças internas e gosto pela vida.