Já ouviu a expressão “Ichi-go Ichi-e” [it͡ɕi̥.ɡo it͡ɕi̥.e] alguma vez na sua vida? Sim? Provavelmente possui ancestrais no Japão que conheciam um dos ritos da Cerimônia do Chá. Se você é como eu, ouviu essa expressão só depois de adulto, provavelmente ficou encantado com o significado e começou a mudar o seu dia-a-dia. Nunca ouviu falar? Terei a alegria de te apresentar hoje esta arte de apreciar cada momento da vida como ele vier.

O dizer “Ichi-go Ichi-e” pode ser entendido como:“ Cada momento  na vida é único, nunca mais se repetirá”. Há sobre isso um pequeno dizer da tradição japonesa: “Um homem nunca toma banho por duas vezes na mesma água de um rio. Ele pode ir ao mesmo lugar todos os dias, na mesma hora, mas a água nunca será igual.” Esse é um conceito milenar, a história no Japão conta que o fundador da Cerimônia do Chá,  Sen no Rikyū, desenvolveu esse pensamento durante o século dos anos de 1600, quando foi a uma missa dos primeiros cristãos no Japão e viu a consagração da hóstia. Inspirado pela consagração do vinho desenvolveu o ritual do chá.

A filosofia da cerimônia do chá, também conhecida por Chadô, ensina a arte de se concentrar no agora, no presente. Geralmente esperamos sempre pelo Grande Dia, pela Situação Perfeita, que pode ser o nosso aniversário, ou o dia de um grande negócio, quando ganharemos na loteria. Contudo, a vida é construída a cada minuto, a cada dia, e se não valorizarmos as pessoas com quem estamos, o clima, as pedras – o asfalto também entra neste caso – e as flores que encontramos, ou, ainda, o sabor e o cheiro da comida que podemos provar, não valorizaremos a nossa vida, os momentos que a fazem ser como ela é.

Costumamos buscar uma perfeição de um local, econômica ou de bens que podemos usar. Esse conceito de “Perfeito” é algo ideal, normalmente está no mundo dos nossos sonhos e nem sempre perto de nós. Na cerimônia do Chá, o anfitrião recebe o convidado com a mais bela flor que cresceu naturalmente perto de sua casa, faz os doces com ingredientes locais e da estação, escolhe uma frase para colocar na parede em frente ao convidado, servindo o chá com muito cuidado e atenção. É parte do ritual contar a história de como conseguiu aqueles alimentos, comenta algo sobre a estação, sobre o porquê ter escolhido aquela frase. O convidado, por sua vez, deve chegar a casa com respeito, entrar com o pé direito, olhar e admirar as flores escolhidas, ler a frase, comentar o que acha sobre ela, apreciar cada sabor do chá e dos doces servidos, falar sobre o gosto, a textura. Depois disso tudo, é hora de tomar o chá, olhar cada detalhe da xícara e utensílios usados. A flor escolhida já deve estar um pouquinho desbotada, para lembrar que tudo passa na vida. A regra é a calma e a atenção aos detalhes, ao momento.

Você leu com atenção o parágrafo de cima? Viu como todos esses detalhes te chamaram a atenção por alguns segundos, te concentraram? Assim é a vida com base no Ichi-go, Ichi-e, devemos nos concentrar no que fazemos, no que vivemos e receber o momento que a vida nos traz com uma profunda gratidão. Agradecer pela beleza e pelos alimentos, pelo clima e até mesmo pelos desafios que somos obrigados a passar para estar onde estamos.

Muitas vezes imaginamos onde seria o Natal perfeito, como seria a festa perfeita, o encontro com pessoas X ou Y e não valorizamos quem está à nossa volta e o momento que vivemos. Então, achei oportuno trazer esse conceito e te contar que não é fora de moda receber e agradecer pelo que você tem e com quem você está. Aproveite as suas festas, aproveite o momento de café com a família. Permita-se ver a beleza de cada situação, de cada desafio, nem que você esteja no trânsito ou mesmo cheio de dívidas. A gratidão por cada momento te trará paz para resolver a sua vida. Aproveite o seu dia. Ichi-go, Ichi-e.

Para saber mais: O site do Centro de Chadô Urasenke do Brasil, disponível em: https://www.chadourasenke.org.br/


 

Mariana Nogueira Machado Simões
Advogada, especialista em Gestão e Tecnologia Ambiental, com atuação em desenvolvimento urbano, brasileira,  amante da natureza, admiradora dos povos e das culturas do mundo.