Da Etec de Cotia a Harvard: universitária realiza outro sonho

Nathalia Oliveira, 22, vai aos EUA para fazer intercâmbio no final deste mês; estudante de Medicina da USP, a jovem é moradora de Vargem Grande Paulista e concluiu o Ensino Médio na Etec de Cotia

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Sonho. Essa foi a palavra mais pronunciada durante a entrevista que a Revista Circuito fez com a estudante de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Nathalia Oliveira. A jovem, hoje com 22 anos, conseguiu arrecadar o dinheiro necessário para fazer intercâmbio de um curso de nanotecnologia na universidade americana de Harvard, durante um ano. Nathália fará sua primeira viagem de avião, no próximo dia 21.

A jovem universitária, que fez o Ensino Médio na Etec de Cotia, não utilizou a palavra ‘sonho’ em vão. Ela realmente sonha, e mais do que isso, luta para conseguir realizar cada plano que foi sonhado.

Por meio de um convênio com a USP, um banco deu uma bolsa de U$ 6 mil (R$ 23 mil) à aluna. Mas não era o suficiente, pois faltavam mais de R$ 30 mil para custear as passagens, moradia, alimentação e transporte.

Junto com a mãe, a universitária então começou a vender pão de mel para arrecadar fundos para a viagem aos EUA, conseguindo juntar R$2 mil com as vendas.

Além disso, ela criou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, com a meta de conseguir os R$ 28 mil que faltavam. Mas o valor foi além. A campanha recebeu mais de R$58 mil – R$30 mil a mais do que ela precisava.

À Circuito, Nathalia reconheceu que ‘a campanha foi um sucesso’ e agradeceu a todos que ajudaram. “Muita gente apareceu querendo me ajudar. Fiquei muito feliz por tudo isso e estou ansiosa para não decepcionar todas as pessoas que acreditaram em mim”, reforçou.

HISTÓRIA

O primeiro incentivo de Nathalia veio da própria família. Mesmo de origem pobre, seu avô Aurélio sempre dizia que ‘toda chance de uma vidinha melhor tá em quem estuda’. E ela levou isso a sério.

Filha de pedreiro e de dona de casa, Nathalia cresceu em São Miguel Paulista, bairro da periferia da zona leste de São Paulo. Mas, aos 13 anos, mudou-se para Vargem Grande Paulista, onde conseguiu ser aprovada em 4° lugar na Etec de Cotia. Foi neste momento, segundo ela, que começou a se apaixonar pela educação.

Já no cursinho pré-vestibular, Nathalia estudava 16 horas por dia para tentar uma vaga em uma universidade pública. E tamanho esforço não poderia dar em outro resultado. Ela não só passou em uma universidade pública, mas em cinco de uma vez: USP, UNICAMP, UNESP, UNIFESP e UFMG, escolhendo a USP como seu local de estudo.

Hoje, já no terceiro ano de Medicina, Nathalia reconhece o apoio que teve lá no início, quando ainda cursava na Etec. Ela agradeceu o incentivo de cada professor e de toda a instituição.

“Lá [na Etec] também tinham pessoas que sonhavam. Tinham professores que incentivavam. Perguntavam se a gente já tinha feito a inscrição para a prova. Tinha todo esse amparo”, disse.

Já seu Aurélio, avô de Nathalia, faleceu um ano antes de ela entrar na universidade.

POR QUE MEDICINA?

Durante a entrevista, a reportagem questionou o motivo de ela ter escolhido o curso de Medicina. A maior razão para tal escolha, segundo Nathalia, foi querer mesmo trabalhar com pessoas e ajudá-las de alguma forma.

“Antes eu tinha feito um curso técnico, que era de rede de computadores. E eu percebi que não queria trabalhar com máquinas, eu queria mesmo trabalhar com pessoas. Pouco a pouco, eu fui vendo que era uma maneira de transformar a realidade de algumas pessoas no contato que você tem com elas”, explica.

A futura médica ressaltou que a pessoa pode até não ser curada, mas o que importa é o conforto que o profissional da Saúde pode levar ao paciente.

“Você pode não curar, pode não trazer uma resolução que a pessoa esperava, mas você pode dar conforto, pode ajudar, pode fazer a diferença ali, no seu consultório, na sua atuação. Mesmo que você não consiga mudar o mundo, mas fazendo o seu pouquinho, você já transforma a realidade de uma pessoa”, acredita.

META E INCENTIVO

Após concluir o curso de Medicina, Nathalia afirmou, com convicção, que sua meta será trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS), para ‘retribuir tudo que recebeu’. A estudante não sabe qual especialidade vai seguir, mas não tem dúvidas quanto ao local que deseja atuar.

“Ainda não escolhi a minha especialidade, mas a minha intenção é trabalhar no SUS. Que seja por um período ou para sempre, mas eu preciso passar pelo SUS e retribuir tudo isso que eu tenho recebido. Eu sei que a faculdade pública ela é financiada pela população, e isso precisa ser devolvido de alguma forma”, declarou.

Com toda essa história de vida, Nathalia reforçou que, assim como ela conseguiu vencer todos os obstáculos que a pobreza gera, outras pessoas também podem conseguir. Para isso, ela lembra ‘que os jovens precisam sonhar e se dedicar pelos sonhos’.

“Eu nunca fui uma aluna gênia, sabe. Eu sempre fui uma aluna mediana. O meu negócio é se esforçar”. E finaliza: “O que eu mais gostaria que ficasse de lição de toda essa repercussão é que é possível, sim. A gente precisa sonhar mais e se dedicar mais pelos nossos sonhos, que Deus nos ajuda, e a gente alcança.”

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Revista Circuito – A campanha foi um sucesso, né? Como está a ansiedade agora?

Nathalia – Foi uma grande surpresa mesmo. A campanha foi um sucesso. A meta foi até superada. Muita gente apareceu querendo me ajudar. Fiquei muito feliz por tudo isso e estou ansiosa para não decepcionar todas as pessoas que acreditaram em mim.

R.C – Qual foi a sua reação quando recebeu o e-mail confirmando que você tinha sido aprovada para o intercâmbio em Harvard?

Fiquei chocada, não sabia o que fazer. Eu estava estudando para fazer uma prova no dia seguinte e já perdi o foco. Não estava conseguindo me concentrar. Pensei em ligar para os meus pais para contar naquele mesmo momento. Essa foi a minha primeira reação.

R.C – Você algum dia imaginou que tudo isso fosse acontecer na sua vida?

Olha, está indo muito além do que imaginei. Quando entrei na faculdade, já tinha ouvido falar desse intercâmbio. Cheguei a conhecer pessoas que no final do ano eu soube que elas estavam indo. E eu pensei: não vou mais sonhar com nada tão grande assim, porque foi uma luta muito grande.

Quando eu entrei na faculdade, eu não queria mais desafio. Queria aproveitar a faculdade, estudar e seguir minha vida. Não queria propor um desafio que poderia me frustrar novamente.

Mas as coisas foram encaminhando para isso. Eu comecei a participar de projetos e a fazer iniciação científica. Ainda que achasse que não conseguiria, que não merecia estar no lugar daqueles colegas que eu tinha visto, eu falava assim: pelo menos quero saber que eu tentei.

R.C – Por ser de origem pobre e ter estudado em escola pública, acredita que sua história pode servir de incentivo para que outras pessoas acreditem mais nelas mesmas?

Com certeza. O que eu mais gostaria que ficasse de lição de toda essa repercussão é que é possível, sim. A gente precisa sonhar mais e se dedicar mais pelos nossos sonhos, que Deus nos ajuda, e a gente alcança.

R.C – Qual foi a contribuição que a Etec de Cotia deu em todo seu processo educativo?

Além de ter excelentes professores, que faziam de tudo mesmo para ensinar, eles também sabiam ouvir a gente. Mas não só por isso. Lá também tinham pessoas que sonhavam. Tinham professores que incentivavam. Perguntavam se a gente já tinha feito a inscrição para a prova. Tinha todo esse amparo.

R.C – Existe algum “segredo” para conseguir realizar esses sonhos?

Eu acho que sim, viu (risos). Eu acho que para mim foi determinação, disciplina e fé em Deus.

R.C – E seus pais, como estão reagindo a tudo isso que está acontecendo?    

Desde o começo eles choram muito. Acho que no início era de alegria junto com preocupação e não conseguir contribuir, sabe. Acho que eles ficaram com medo de achar que pelas condições deles eu não poderia ir. Mas agora é mais de saudade mesmo [que eles choram].

R.C – Saudade mesmo antes de ir, né?

Sim, é só falar que é um ano [fora] que os olhos deles já enchem de lágrimas.

R.C – E por que você escolheu a medicina?

Antes eu tinha feito um curso técnico que era de rede de computadores. E eu percebi que não queria trabalhar com máquinas, eu queria mesmo trabalhar com pessoas.

Pouco a pouco, eu fui vendo que era uma maneira de transformar a realidade de algumas pessoas no contato que você tem com elas.

Você pode não curar, pode não trazer uma resolução que a pessoa esperava, mas você pode dar conforto, pode ajudar, pode fazer a diferença ali, no seu consultório, na sua atuação. Mesmo que você não consiga mudar o mundo, mas fazendo o seu pouquinho, você já transforma a realidade de uma pessoa.       

R.C – Depois de formada, qual vai ser a primeira coisa que você vai querer fazer?

Ainda não escolhi a minha especialidade, mas a minha intenção é trabalhar no SUS. Que seja por um período ou para sempre, mas eu preciso passar pelo SUS e retribuir tudo isso que eu tenho recebido. Eu sei que a faculdade pública ela é financiada pela população, e isso precisa ser devolvido de alguma forma.

R.C – Para finalizar, você gostaria de acrescentar alguma coisa?

Gostaria de reforçar que os jovens precisam sonhar, se dedicar pelos sonhos que eles vão conseguir sim. Eu nunca fui uma aluna gênia, sabe. Eu sempre fui uma aluna mediana. O meu negócio é se esforçar.   

Por José Rossi Neto  

Fotos – Arquivo pessoal / Facebook