Os Vinhos Naturebas…

"Como se sabe há nessa linha diversas correntes, os vinhos de agricultura sustentável, os raisonnée, os orgânicos, os Biodinâmicos e os naturais", escreve nosso colunista Didú Russo.

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Eduardo Knapp/ Folhapress

É incrível como as coisas mudam no mundo do vinho, em trinta anos houve o boom do novo mundo, o boom do exagero de madeira nos vinhos, que graças a Deus está indo embora, houve a busca do terroir, que continua, aliás, e que em alguns países é só conversa e há a onda dos Naturebas.

Adotei o termo Natureba, carinhosamente batizado pela Enoteca Saint Vin Saint, em São Paulo, que fez uma feira só desses vinhos e é único endereço que conheço a servir apenas esse tipo de vinho de produtores que se preocupam mais com a natureza e a autenticidade do seu vinho do que com o mercado. São os vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais.

A onda cresce e muitos endereços já esboçam uma página de suas cartas apenas com esses vinhos.

Como se sabe há nessa linha diversas correntes, os vinhos de agricultura sustentável, os raisonnée, os orgânicos, os Biodinâmicos e os naturais. Há também muito desconhecimento sobre esse assunto e é comum confusões a respeito. Nunca ouvi tanta bobagem a respeito do assunto e nunca respondi tanto sobre o tema.

Para deixar claro, simplificadamente trata-se mais ou menos do seguinte:

A maioria dos vinhos usa produtos químicos no vinhedo (fertilizantes, herbicidas, fungicidas, etc.,) que quebraram o equilíbrio ecológico e depois na vinícola também, onde se mata a personalidade do vinho com SO2 na fermentação, se lança mão de leveduras de outros lugares, leveduras trangênicas,  geneticamente modificadas, aromatizantes, aromas de outros lugares, recursos termo mecanicos, etc.,.

Tudo isso em busca de não correr riscos com a produção, não perder dinheiro, produzir um vinho considerado equilibrado, sem defeitos, atender ao gosto do consumidor, atingir mercado, conseguir regularidade, padrão. Ou seja tudo que a natureza não é.

Os vinhos foram ficando parecidos, mesmo entre ícones. Basta ver que na Cata de Berlin de Eduardo Chadwick, terroirs famosos do mundo se confundem na avaliação de experts de todo tipo. Bordeaux, Toscana, Aconcágua acabam ficando na mesma cesta entorpecidos pelas caras barricas. São deliciosos? Sim. De onde são? Ninguém sabe dizer com certeza.

Há diversos tipos de consumidores, os snobs que gostam de ostentar marcas famosas, os que preferem beber o que os experts dizem ser bom, os que não querem gastar muito, etc., mas entre esses inúmeros tipos de consumidores, vem crescendo os interessados por sinceridade, pureza, autenticidade, personalidade, terroir de verdade, mais que equilíbrio, ausência de aromas considerados defeito (?!), tipicidade da casta e essas coisas que alimentam apenas as discussões técnicas de pessoas de um distante mundo do consumidor real.

Assim, surgiram diversos tipos de culturas em busca desses vinhos mais sinceros e autênticos, duas delas (Sustentável e Raisonnée) mais tímidas mais interessadas em serem corretas politicamente para sua imagem que buscar autenticidade e  tres delas (orgânicos, biodinâmicos e naturais) mais diretamente no foco do autêntico.

Entenda as diferenças básicas de cada uma delas:

Sustentável: São vinhedos que procuram ter o menor impacto ambiental possível, sem correr riscos. Então trata-se efluentes, usa-se garrafas mais leves, procuram diminuir o impacto ambiental, preocupa-se com os funcionários envolvidos e o menor uso possível de produtos químicos. Digamos que se trata de um namoro com os vinhos puros.

Raisonnée é aquela cultura que flerta com a orgânica, mas se der algum problema mais sério, lança mão de produtos químicos para salvar sua safra. Como aquela familia que se trata com homeopatia, mas quando a febre do filho sobe, prefere dar uma novalgina a baixar a febre com banhos, que é muito mais trabalhoso e demorado…  Sua maior preocupação é com o entorno, reciclagens, efluentes, etc. Há institutos certificadores.

Orgânicos são vinhos vindos de vinhedos que não admitem uso de produtos químicos e os fertilizantes são naturais e orgânicos. Há institutos certificadores para eles. Os vinhedos, note bem, na vinícola porém ele pode se transformar com produtos químicos ou físicos, de transformação. Poucos atentam para isso.

Os Biodinâmicos usam conhecimentos ancestrais, antroposóficos (Rudolf Steiner), homeopatia, e nenhuma interferência química, exceto pequena quantidade de SO2 no engarrafamento, que pode inclusive ser natural, vulcânico.

A Biodinâmica age no momento em que a fotossíntese está transformando a energia solar em matéria, a uva que é 94% fotossíntese. depois que nasceu a uva, dificilmente se corrige algo. Não mecanizam o campo e os animais convivem com o ambiente.

Eles observam inúmeras informações desprezadas pela ciência como ciclos lunares, posições astronômicas e compostos animais para cada tipo de necessidade além de dinamização de produtos para ser aplicado no vinhedo, como chás, sílica, etc.

O conhecimento é vasto e trabalhoso. Para se ter uma ideia, um composto fertilizante se enterrado no vinhedo dentro de um chifre de vaca, de um equinócio a outro, quando desenterrado tem 80 vezes mais potência que o mesmo composto que não passou por esse processo. A ciência não sabe explicar a razão e ignora seus efeitos.  Também há institutos certificadores para eles.

Não deixe de ver este vídeo com um dos mais importantes produtores biodinâmicos, o chileno Alvaro Espinoza, que gravei na última edição da Naturebas:

Naturais, são os vinhos que não admitem nenhuma interferência, nem a adição do SO2 no engarrafamento, radicais totais. Aliás, a própria uva fermentada produz SO2. Não há institutos certificadores para estes vinhos.

Existem maravilhas como o vinho de Granada Barranco Oscuro, que com 15 anos de idade e sem sulfito apresentou-se com um Bordeaux evoluído, sem nenhum aroma ou sabor considerado “defeito”.

Quando se fala em “Naturebas”, estamos falando mais dos últimos três tipos de vinho, com ênfase mesmo nos dois últimos, os biodinâmicos e os naturais.

Os vinhos puros da verdade não matam leveduras, nenhuma delas. São elas que trazem a verdade do local para nós, a tal paisagem engarrafada a que se refere Luiz Horta em seus belos textos. Elas transformam o açúcar em álcool e deixam lá todo seu registro do local. Elas são absolutamente vitais para se falar de terroir.

Acontece que existem leveduras chamadas ruins, que podem carregar o vinho de aromas estranhos considerados defeitos. E como se livrar delas? Há duas maneiras, uma intervencionista que usa um pouco de SO2 no momento do esmagamento da uva, em porcentagens muito pequenas que costuma eliminar apenas as chamadas leveduras ruins, que não é o ideal, mas muitos fazem.

E outra que é a melhor delas, que é ter um vinhedo são. Acontece que  única maneira de ter um vinhedo são, limpo, preservado de qualquer interferência que quebre seu equilíbrio e por tanto doenças,  é ter um vinhedo cercado, preservando seu equilíbrio e evitando a interferência externa, o que não é nada fácil.

Aí entra a qualidade dos conhecimentos dos biodinâmicos (bio é vida e dinâmica movimento). Por tanto vida em movimento, equilíbrio.

Um vinhedo em equilíbrio não produz doença. Mas isso dá um trabalho danado e requer conhecimentos que a maioria dos enólogos não tem nas escolas.

Quem a esta altura duvida disso e sei que há muita gente,  peço que prove apenas um Clos de La Coulée de Serrant ou um Mme. Le Roy ou um Champagne Fleury ou Egly-Ouriet para citar apenas quatro vinhos e me diga se são bons, se têm defeitos, se são desequilibrados, etc., e tal.

Importante você saber que há vinhos ditos orgânicos que são manipulados na vinícola, há vinho natural que comprou a uva sem garantia de seu cultivo ser limpo, há biodinâmicos não certificados e assim por diante. Mas experimente, saia dos padrões técnicos de equilíbrio, defeitos, falta de tipicidade, irregularidade e coisas assim que não fazem parte do mundo de apreciadores de vinho, mas de chatos pernósticos, que têm medo de sair da curva do previsível.

Mas certamente é fundamental conhecer os homens que fazem seus vinhos, pois há muita coisa excelente e pura sem nenhum certificado, pois são caros esses certificados e criam problemas em muitos mercados.

No Brasil por exemplo o nosso governo não reconhece a Demeter que tem cem anos e exige um outro certificado brasileiro caríssimo, que envolve a ida de gente daqui até o produtor para conferir e “certificar” o que nem conhecem direito…

Mas o fato é que os “naturebas” crescem, graças a Deus, como pode ser comprovado nas cartas das importadoras, e até resulta hoje em importadoras dedicadas apenas a estes tipos de vinho como De La Croix, a Galeria do Vinho, a Bionisos e a Weinkeller, além de mais de duzentos rótulos nas conhecidas MistralVinciWorldWine,DecanterZahilPremiumCasa FloraVinica, etc. e até uma vinícola brasileira se aventura nesse trabalho, caso do excelente Imortali da catarinense Santa Augusta.

Importante incluir neste grupo os abnegados produtores artesanais brasileiros que vêm fazendo maravilhas, com o Era dos VentosDominio VicariEduardo Zenker,Atelier Tormentas e Elephat Rouge, Vinha Unna, Faccin, além de outros pequenos produtores que namoram com o assunto.

Que bom, o planeta agradece, nossa saúde também e a experência sensorial nos diverte. Afinal quem quer a mesmice da regularidade? Eu prefiro o desequilíbrio natural…

Saúde!


Didú Russo é editor do site www.didu.com.br, está no facebook (www.facebook.com/didu.russo/) e no Instagram (www.instagram.com/didu_russo/)