Até os dias de hoje (2019), completei 3 viagens para Índia (2006/2010/2014).
A primeira vez que fomos para aquele grande desconhecido (2006) gerou muita insegurança com relação a viagem então entramos em contato com uma empresa local “Best Ways Tours and Safaris” na pessoa de Amit que na época era o filho do proprietário da empresa (hoje falecido).
Fiz muitas leituras ao longo do ano que precedeu a viagem pois queria me inteirar da cultura local. Entre os livros que li, cito “Um Delicado Equilíbrio” que é um romance maravilhoso, daqueles que não se quer largar, e dá uma boa ideia da sociedade indiana.
Li outros também que faziam referência à história e política indiana desde a colonização inglesa.
Contratamos um carro (Industan Ambassador) motorista e guia nos acompanhando por toda a viagem; e lá fomos nós…
Chegamos incialmente em Mumbai no meio da madrugada depois de mais de 30 horas de voo exaustos. À caminho do hotel, sob a pouca iluminação amarelada da rua, surgiram centenas e centenas de caixas de papelão encostadas e amontoadas nos muros das calçadas, e que, para minha surpresa, estavam habitadas por homens maltrapilhos com scarfs imundos enrolados na cabeça e mulheres vestindo saris que nunca viram uma bacia de água e sabão na vida.
Fiquei chocada, absolutamente horrorizada e comecei a gritar para meu marido “meu Deus, o que é isto? O que está acontecendo?”
Finalmente chegamos ao hotel para descansar o resto da noite.
Na recepção estavam sendo atendidos para o check in um casal de noivos recém saídos de sua festa de casamento. Ela, belíssima, era puro brilho, nas roupas e joias, e nas mão uma tatuagem rendilhada em hena que cobria as mãos até o antebraço.
Fiquei novamente chocada, só que desta vez extasiada com tamanha beleza.
Isto resume a Índia. É o grande contraste entre o belo e o sub-humano.
No primeiro telefonema que fizemos para nossos filhos desde Delhi, meu marido disse a eles:
– Filho, imagine um poço de merda…nós caímos dentro dele….
E, após alguns dias onde afirmávamos que seria a primeira e única viagem para Índia já retornamos duas vezes mais e faremos nossa quarta viagem neste ano de 2019.
Qualquer viagem que se faça é necessário se despir de todo tipo de preconceito para absorver a nova cultura que se apresenta. Mas, esta para Índia ….é muito mais do que isto!
É necessário esquecer qualquer referência ocidental de civilização e valores e deixar que lentamente os aromas se sobreponham ao fedor de merda, as maravilhosas cores dos saris sobre ao maltrapilho e a beleza dos monumentos sobre o caos urbano e a pobreza.

Em Delhi, logo nos primeiros dias entramos num doceria, que tinha uma aparência boa, estava bastante cheia e tinha uma infinidade de doces nos chamando para serem experimentados. Ao todo comemos oito doces e só paramos porque não cabia mais…
Bom; e esta foi a nossa primeira gastrenterocolite aguda…
Daí em diante somente restaurantes indicados e nada de comida de rua!
Visitamos os pontos obrigatórios da cidade e vale dizer que o bazar central defronte ao Forte Vermelho é imperdível e local para compras boas e baratas (mas lógico depois de intensa negociação).
Passamos por Jaipur que é a primeira cidade no deserto do Rajastão. Visitamos monumentos esplendorosos, como o Forte, o Palácio do Vento, e um bazar enorme em meio ao caos de pessoas, tuk-tuks vacas e elefantes pela cidade.
Ao entrarmos no Taj-Mahal em Agra não pude me conter e chorei copiosamente tamanha beleza deste mausoléu. O monumento é de um equilíbrio estético perfeito, numa coloração gelo/rosa ladeado por jardins e espelhos d’água.
Em seguida fomos de trem para Kajuraho, onde estão localizados os famosos templos eróticos.
A viagem de trem foi novamente bastante impactante. As estações abarrotadas de gente. Na plataforma quando se olha para os trilhos vimos montes e montes de dejetos humanos e ratos, que diga-se de passagem, dez anos depois na nossa última viagem para Índia já não vi mais.
Kajuraho é muitíssimo interessante. Um parque com uma grande área cercada de templos com imagens eróticas, religiosas e do dia-dia esculpidas em pedra.
Numa tarde quisemos nos livrar do guia que nos acompanhava, pois ele só nos queria empurrar para lojas onde ganhava comissões nas compras. E como guia histórico, acrescentava muito pouca informação a mais do que eu tinha acesso no meu guia de viagem.
Fomos andando livremente por esta pequena cidade visitando lugares mais afastados do centro.
Logo cruzamos com três jovens que estavam de cócoras na beira de um lago aparentemente conversando entre eles. Na medida que nos aproximamos mais, vimos que na verdade estavam fazendo coco. Ficamos muito envergonhados e os jovens de tão desconcertados, imediatamente sentaram em cima da merda como se nada estivesse acontecendo.
O mais interessante é que a poucos metros dali, dentro deste mesmo lago, um indiano, numa pequena canoa coletava uma batatinhas que cresciam debaixo de uns aguapés para serem vendidas posteriormente no mercado.
Varanasi, uma cidade extremamente importante para o hinduísmo, foi novamente cheia de espantos e belezas.
As escadarias que levam ao principal ponto de acesso ao rio Gandhi (os ghatts) são de uma beleza ímpar, apesar de que se você conversa com qualquer indiano fora da Índia eles são unanimes em dizer que a cidade não é para o turista ocidental, tal o apelo cultural e religioso da cidade.
Aproximar do local de cremação dos corpos na beira do rio provoca uma emoção intensa.
Não sei se pelo conceito da coisa (corpos sendo queimados!!!), pelo cheiro; pelas labaredas que se elevam nas piras ou pelas figuras que parecem sub-humanas (os intocáveis) que conduzem o ritual, aquilo ultrapassou meu limite. Comecei a passar muito mal e logo pedi para meu guia que nos afastasse de lá.
Voltar para o silencio e ordem de um hotel cinco estrelas, com referências visuais conhecidas, é imprescindível e um balsamo ao fim de um dia de jornada na Índia.
Esta viagem foi a minha estreia em países de culturas tão diferentes da minha. Abriu uma cratera no meu peito que foi, e continua sendo, preenchida progressivamente com novas experiências e desafios me tornando uma pessoa mais solida, e com a sensação de pertinência ilimitada nesse nosso mundo.
Estávamos, agora, preparados para nossa próxima viagem para a Índia que foi feita quatro anos depois na companhia de nossos filhos.

 


Debora Patlajan Marcolin, médica, 62 anos, muito curiosa com relação a diversidade cultural do nosso planeta. Viajo desde que me conheço por gente e tudo me atrai. Desde a minha vizinhança pobre de Carapicuiba até as cerimonias fúnebres de Tana Toraja na Indonésia, passando por paraísos naturais como o pantanal mato-grossense e deserto do Jalapão. Já conheci por volta de 75 países e não paro de projetar novos destinos. Entendo que para se viajar é preciso estar de peito aberto e abandonar todo tipo de preconcepção, que com certeza, a viagem vai te provocar profundas mudanças internas e gosto pela vida.
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