Dois corpos, uma vida e cinco livros

A história de luta, solidão e superação de Kelvin Valentim, mulher negra transexual que ganhou cinco prêmios em seu quinto livro, o Baralho Negro de uma Dama de Paus, lançado em abril do ano passado. Moradora de Cotia, ela é filha de pastores evangélicos e destaca a importância do lugar de fala quando o assunto é diversidade de gênero.

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Se ser mulher já não é fácil, imagine ser mulher e negra? Se ser mulher e negra não é fácil, imagine ser mulher, negra e transexual? Apesar de todas as dificuldades que esses corpos (da mulher negra e da mulher transexual) encontram durante a vida, Kelvin Valentim, 26, não desistiu. Assumiu sua identidade e partiu para cima. Hoje, a escritora já está em seu quinto livro, conquistando, com este último, cinco prêmios.

Intitulado ‘Baralho Negro de uma Dama de Paus’, já foram vendidos, até o momento, 345 exemplares. Os prêmios recebidos foram esses: Prêmio Poetize 2018; Prêmio Sarau Brasil 2018; Prêmio Poesia Agora – Inverno 2018; Prêmio Conto Brasil 2018 e Prêmio CNNP 2018.

Vivências, perspectivas e realidades. As três palavras-chave que resumem o livro. Mas essas palavras, apenas, não são suficientes para descrever as narrativas encontradas em cada poema, que aborda questões sobre a vida do negro de dentro para fora, e o que essas pessoas são capazes de fazer.

“Outra visão de que o negro também é um ser humano em potencial e que deveria ser respeitado em vários âmbitos, e não só na questão de ser perseguido. Fala do corpo negro no mundo”, diz a autora.

Em entrevista a Revista Circuito, Kelvin ainda falou sobre religião, política e autoestima. Filha de pastores evangélicos, o encontro com a poeta cotiana aconteceu na tarde de terça-feira, dia 8 de janeiro, na Biblioteca Batista Cepelos, próximo a Prefeitura de Cotia.

DESCOBERTA

Kelvin é formada em Administração pela Escola Técnica (Etec) de Cotia. Mas a sua paixão mesmo é pela arte. Tornou-se escritora há poucos anos, sendo que o primeiro e o último livro que foram lançados trazem, como gênero, a poesia.

Ela conta que o gosto pela poesia veio da música, especificamente do Rap. Entre as artistas que citou, estão as mulheres que integram o grupo Rimas & Melodias. Kelvin explica que o conteúdo de algumas canções fala exatamente o que ela quis escrever no livro ‘Baralho Negro de uma Dama de Paus’, no que se refere à importância de se reconhecer e do orgulho de ser quem você é.

E com ela não foi diferente. O processo para a descoberta de sua identidade de gênero não foi tão fácil, tanto é que fazem apenas dois anos que Kelvin se reconhece como transexual. A escritora conta que sempre foi mulher, mas acreditava que era homossexual. Não conhecia o que poderia ‘ter além’.

“Quando me descobri, foi uma questão de renascimento, de auto reafirmação. Há dois anos que me percebi como mulher preta e trans. Acabei tendo as vivências dessas pessoas separadas, esses corpos diferentes. O corpo preto recebe um tipo de tratamento e o corpo trans, outro. Eu sou essas duas minorias. É uma luta constante”, pontua.

SOLIDÃO

Convicta, ela afirma que nunca teve uma vida amorosa ou emocional estabilizada. “Fui me descobrindo pela própria solidão”. O abandono sempre fez parte de sua vida, sendo que o primeiro foi dentro do lar, quando, aos seis anos, presenciou seu pai indo embora. “Foi minha primeira visão de abandono”.

O primeiro amor também chegou tarde. Kelvin teve sua primeira relação aos 24 anos. Nem na escola, local onde é comum os primeiros casos, não aconteceu. “O amor chegou tarde na minha vida. Pela solidão, eu fui entender o motivo pelo qual estava acontecendo aquilo comigo. Sempre fui mais feminina e não afeminado.”

A solidão, após a descoberta da transexualidade, continuou em sua vida. “Parece que estou acumulando fardos pesados por uma identidade que eu assumi, que eu fiz questão de afirmar”. E prossegue: “Quando a gente fala sobre a solidão da mulher negra e quando você coloca o trans na frente, é mais difícil, porque eu tenho que andar até certo ponto para ser reconhecida como mulher e, depois sendo mulher, eu sou mulher preta e trans.”

BERÇO CRISTÃO

Nascida em berço cristão, hoje Kelvin traz feridas por ter sido ‘crucificada’ por muitos que frequentam a religião do homem que também foi crucificado. Por carregar essas marcas, hoje ela deseja conhecer outras religiões que possam trazer reais significados e sentidos para si.

“Sinto vontade de conhecer outras coisas além do cristianismo, mas foi essa visão cristã que eu cresci e sendo machucada de forma imperceptível para eles”. Questionada sobre os machucados, ela respondeu de prontidão: “A trans é demonizada. O afeminado não entraria no céu, então a trans entraria para aberração mesmo.”

LIVRO

Todas as vivências que foram citadas nessa matéria, fazem parte da construção de seu quinto livro ‘Baralho Negro de uma Dama de Paus’. O objetivo principal da obra, segundo ela, é abraçar as pessoas que passam pelas mesmas feridas e também informar as outras pessoas sobre essa questão de gênero.

“As pessoas precisam entender as questões ditas pela pessoa do lugar de fala. As pessoas têm que começar a ser responsáveis pelo que elas falam na internet, no grupo social, na família. Elas vão reproduzindo coisas que nos matam. Começam com pequenos apelidos que desenvolvem por um modo linguístico, muito natural, muito comum, e acabam pisando na bola nessa questão de agressão mesmo.”

Para ela, a importância de ter na literatura autores e autoras que tratam sobre a diversidade de gênero, é dar voz e poder ao lugar de fala. “Dessa questão de você perceber que existem essas pessoas, que elas trabalham, que elas têm muito mais dificuldade de chegar naqueles espaços, mas elas chegaram”.

E, por fim, Kelvin deixou uma mensagem para as pessoas que têm extremas dificuldade, ou medo, em assumir a sua verdadeira identidade.

“Fiquem vivas. Fiquem juntas. O corpo tran ou o corpo gay vivo é um ato político. Por favor, fiquem juntas, fiquem próximas a pessoas que vocês confiem, pessoas que não te tratam como menos, que te reconheçam como um ser humano, independentemente de qualquer outra coisa”.

(Por José Rossi Neto)