Kung Hei Fat Choy! Xīnnián kuàilè! Imagino que não tenha entendido essas duas expressões, como eu também não as entendi da primeira vez que ouvi.  Estava em Hong Kong, região administrativa especial da China, vizinha da província de Guangdong, chamada pelos portugueses de província de Cantão. Hong Kong é uma cidade independente, ligada à China pelo regime de Um país, dois sistemas, ou seja, faz parte da China, mas com um judiciário e legislativo independentes. Conhecida pelos seus arranha-céus, é densamente povoada e, por ter sido colônia inglesa até 1999, é uma cidade com maioria da população etnicamente chinesa, mas convivendo com conceitos ocidentais e pessoas vindas da Europa, Américas e Oriente Médio. Ou seja, é uma cidade onde o tradicional chinês convive com conceitos ocidentais e com tecnologias modernas.

Estávamos em Hong Kong em um dezembro, a cidade estava totalmente enfeitada com decorações natalinas, árvores de natal enormes nas praças e nos shoppings, casas com árvores de natal, papais-noéis em pleno frio asiático – que apenas chega a uns oito graus de mínima – extremamente úmido, parece com o nosso inverno daqui, não tem neve. Depois, o ano novo chegou com uma linda queima de fogos, tiros de canhão abrindo a contagem regressiva. Algo que é um resquício da colonização inglesa, os ingleses é que dão o ponto de partida para a contagem do ano novo, comemorada com os fogos de artifício que, lembremos, foram inventados na China e fabricados majoritariamente em Macau, ali perto de Hong Kong. Bem, em meio a esse cenário clássico de fim de ano, eu estava totalmente ambientada. Entendendo perfeitamente os simbolismos pela cidade.

Mas qual não foi a minha surpresa quando em início de fevereiro os papais-noeis foram vestidos com roupas tradicionais chinesas e passaram a segurar um barquinho de ouro. Virou o Choi San Do, o deus chinês do dinheiro, o barquinho é o formato da moeda que circulava na China antiga. Os anjinhos natalinos viraram bichinhos gordinhos alegres ou meninos chineses sorridentes. O bicho do ano estava em pelúcias e estátuas por toda a cidade. E, a árvore de natal havia sido substituída por lindas laranjeiras, bem pequenas, carregadas de laranjinhas, de um amarelo dourado como o ouro. Simbolizavam árvores de dinheiro espalhadas pela cidade.

A cidade mudou, os chineses se alegraram mais, tudo foi recoberto de vermelho e dourado, as cores da prosperidade. O Ano Novo Chinês havia chegado! Nas ruas ouvíamos as expressões escritas no começo deste texto. Xīnnián kuàilè, que significa Feliz Ano Novo! Enquanto Kung Hei Fat Choi pode ser traduzido, de uma forma livre, como: Desejo que você tenha muita fartura de dinheiro e de felicidade na sua vida e da sua família!

Os chineses possuem o próprio calendário, é um calendário lunar. Cada ano é regido pelas características de um dos bichos do horóscopo Chinês.  Sempre é atribuído a um dos doze animais que teriam atendido ao chamado do Deus Criador para uma reunião. Apenas doze animais vieram e, como sinal de agradecimento, o Deus Criador os transformou em signos da astrologia chinesa. O ano de 2018 foi o ano do Cachorro de metal – um bicho teimoso mas leal, amigo e companheiro. O ano de 2019 é o ano do Porco da terra – considerado um animal que gosta de viver bem, com fartura, riqueza e é capaz de trabalhar em serviços pesados, se isso lhe trouxer vantagens.

Os nascimentos, casamentos e negócios são regidos pelas características do bicho daquele ano. Alguns bichos são considerados auspiciosos para certos assuntos, outros são evitados para certas ocasiões. Muitas pessoas evitam casar, engravidar ou fechar negócios em datas ou anos regidos por bichos que trazem má-fortuna.

Há comidas especiais a serem servidas e rituais dos dias do ano novo. É uma festa bem familiar, todos voltam para casa ou organizam viagens com a família pelo mundo afora. É o maior feriado da China. Tudo fica lotado. Comemoram o Ano Novo por uma semana, chamada de Semana Dourada. Todos trocam presentes especiais. Vestem cores vibrantes, enfeitam a casa com símbolos chineses. Há feriados e a cada dia há uma tarefa a fazer. Sempre envolvendo festa e limpeza de antigas energias, para abrir caminho para a entrada de boas coisas no ano que se inicia.

Muitos comerciantes ou mesmo famílias afortunadas contratam a Dança dos Leões. A dança do Dragão é realizada em ruas e praças. É tarefa das academias de Kung Fu fazerem essas danças, cada uma com a sua especialidade. Há competições sérias sobre isso e Hong Kong possui algumas das mais famosas e antigas técnicas para construção de Dragões e realização das danças típicas. Na década de 1980 eram famosas as guerras das gangs de Kung Fu, competindo e lutando seriamente sobre as danças de Dragões. Há filmes do Bruce Lee e outros sobre isso. Todos da época que Hong Kong era considerada a Hollywood do Oriente.

Quem não pode contratar o leão para vir dançar em seu negócio ou na sua casa para afastar más energias, as famílias podem comparecer aos eventos promovidos pelo governo. Há os dragões feitos de incenso, outros que dançam junto com leões, há os mais cumpridos, os menores, cada um com o seu tipo e o seu significado.

O Ano Novo Chinês é uma festa de caráter familiar. Come-se e bebe-se muito bem. Mas os mais velhos e os casados, na qualidade de exemplos da casa, têm a sua obrigação a cumprir com os mais novos. Cobram os solteiros para se casar, fazem a cobrança por bons resultados na escola e no trabalho, têm a chance de exigir atitudes mais maduras e de melhor organização das famílias mais novas. Enfim, é a aquela hora do ano em que todas as avós, mães e tias estão liberadas para exigir dos netos, filhos e sobrinhos tudo o que se espera de uma pessoa bem-sucedida.

Mas quem exige também deve contribuir. Um dos rituais mais importantes desta época é a entrega dos Lai See, os famosos envelopes vermelhos. Geralmente belos envelopes desenhados em letras douradas que os mais velhos, os casados e os empregadores usam para dar dinheiro aos mais novos, aos solteiros e aos subordinados, respectivamente. Os netos esperam ansiosos essas datas e os empregados também. É costume que sejam dadas boas somas de dinheiro através do Lai See, para garantir prosperidade aos que recebem e boa vontade para os que doam. Nesse dia víamos todos os felizardos sorrindo, esperando pela sua parte. No fim, tudo vira uma festa.

Assim, passamos o Ano Novo Chinês quando estávamos em Hong Kong. Mas o mesmo ritual é repetido mundo afora. Todo lugar onde há comunidade chinesa o Ano Novo Chinês é comemorado. Vale a pena ver e participar. A dança do dragão é imperdível. As comidas também. O Lai See não é esperado se você não estiver convivendo ou trabalhando com chineses. Há a mesma festa também em São Paulo, em meio à comunidade chinesa da Liberdade. A tradição de trocar presentes entre quem se visita, vestir cores vibrantes, as danças de dragão, as lanternas enfeitadas, as danças típicas e o estouro dos fogos de artifício para afastar maus-espíritos se propagam pelo mundo.

Então, este ano de 2019 será o Ano do Porco no calendário chinês. Espero que possam ter muitos dias de alegrias, farturas e trabalhos com bons resultados. É Ano Novo de novo, um Feliz Ano do Porco!

Onde comemorar: Ano Novo Chinês na Liberdade sempre divulgado por este site https://chinavistos.com.br/ano-novo-chines-2019/

Filmes para entrar no espírito do Ano Novo Chinês: Podres de Ricos (Crazy Rich Asians) (2018), O Tigre e o Dragão (2000), Enter the Dragon (Bruce Lee, 1973), A Chinese Ghost History (2001)


 

Mariana Nogueira Machado Simões
Advogada, especialista em Gestão e Tecnologia Ambiental, com atuação em desenvolvimento urbano, brasileira,  amante da natureza, admiradora dos povos e das culturas do mundo.