Nossa segunda viagem para a Índia tinha como propósito mostrar este país tão intrigante para nossos filhos.
Optamos em percorrer o estado do Rajastão, mais especificamente o deserto de Thar localizado no noroeste do país, quase fronteira com o Paquistão.
Uma possibilidade de alojamento que experimentamos nesta viagem foram os “Heritage Lodges”, que são mansões e palácios que, em algum momento, pertenceram a marajás e que posteriormente foram transformados em hotéis pelas próprias famílias ou vendidos para investidores.
Alguns muito bem conservados, outros menos, mas todos hotéis que estivemos desta categoria foram experiências muito interessantes.
Iniciamos nossa viagem em Delhi seguido de Jaipur que é a primeira cidade do circuito mais turístico do Rajastão.
Como no post anterior já decorri sobre estes dois locais já vou me dirigir à Jailsamer.
Conhecida como a “cidade dourada” pelas suas construções todas feitas de uma pedra amarelada tem como ponto turístico principal o Forte de Jailsamer.
Situado no topo de uma colina que promove um visual deslumbrante de toda a cidade é composto de vários templos e salões a serem visitados. Foi construído no século XII e nos vários portais, passagens, janelas podemos apreciar entalhes nas pedras e madeiras com temas hinduístas e históricos.
Nosso hotel, que já foi um dia uma mansão de algum marajá, estava localizada na beira do lago Gadi Sagar, que na verdade é um tanque de agua rodeado de casas e templos onde a população realiza rituais de purificações que envolvem banhos, oferendas e derramamento de leite em imagens que representam determinado deus (da infinidade de deuses do Hinduísmo).
Este foi mais um enorme desafio para mim…
Entrar num templo ou mesmo fora deles; em esquinas ou mesmos arvores nas calçadas e ver um pedaço de pedra ser adorado como uma emanação divina ou o próprio deus contido naquela rocha…
Como estas rochas estão sempre “melecadas” de leite, e outras coisas que não conseguia nem identificar me dava uma certa aversão à aproximação. Talvez um pouco do que sentimos quando deparamos na esquina da rua com um “trabalho” feito por algum adepto da umbanda, onde olhamos com o rabo do olho e logo nos afastamos com apreensão.

Visitamos vários Havelis, que são mansões ricamente adornadas e que possuem alguma importância histórica e mais outros templos hinduístas.
Nosso próximo destino era algo que fazia questão de visitar. O templo de Karni Mata, ou templo dos ratos.
Já desde o avião separei aquelas meias que são oferecidas pela companhia aérea, pois sabia que iria necessitar de algo parecido neste local.
Para entrar em qualquer templo indiano precisa-se tirar o sapato como forma de respeito. Os sapatos ficam todos juntos na entrada do templo.
Nas primeiras vezes que isto aconteceu confesso que fiquei um pouco incomodada, com a sensação de que na volta o meu nike ou a linda sandália estaria trocada por um calçado velho e podre.
Isto nunca aconteceu…
Mas, pensar na possibilidade de andar onde milhares de ratos circulavam me dava uma certa aflição.
Já contando com isto, na entrada do templo é fornecido pró-pés para os turistas por um preço simbólico que nós usamos sobre as nossas meias do avião.

Uma vez dentro do templo percorremos rapidamente o local disputando com a rataria as diversas passagens.
Logo visualizamos uma fila de tamanho respeitável para entrar no recinto principal de adoração; então, lá nos postamos aguardando a nossa vez…
Após alguns minutos, aquele cheiro de urina e fezes de rato começou a impregnar o meu nariz tornando-se insuportável. Saí da fila e tentei alcançar a entrada do recinto, que, com minha altura, permitiu que eu visualizasse, no fundo da pequena sala o que mais uma vez seria uma pequena imagem toda enfeitada e “melecada” e que era o motivo principal da concorrência.

Mais do que depressa, senti a minha curiosidade satisfeita e nos apressamos para fora do templo. Mas com um certo enjoo na boca do estomago.
Na saída fiquei pensando se eventualmente estes ratos não saem de dentro do templo e entram nas casas ao redor? Acho pouco provável pois eles são muito bem alimentados lá.
Mas, pode ser que isto aconteça. Porém como veem de dentro do templo são consideradas visitas ilustres…
Gostaria de ressaltar que de forma alguma faço estes comentários pejorativamente.
O mais certo é que … tenho ainda muuuito o que aprender para compreender esta cultura tão particular!
Passamos a noite de réveillon de 2010 no meio de um deserto dourado, alojados em tendas (onde me senti uma exploradora inglesa de 1800) e cercados de camelos.
Na verdade este “camping” era uma forma bastante sofisticada de passar o réveillon, e fomos brindados com um banquete indiano maravilhoso, música e dança noite a fora. Éramos os únicos estrangeiros no local e meus filhos foram convidados a dançar com os jovens indianos na tentativa de aprender a “Bollywood Dance”.

É nesta região onde ocorrem as famosas feiras de camelos. São imprescindíveis para a vida do povo desta região, e apesar de não termos tido a oportunidade de estar presente numa feira cruzamos com camelos o tempo todo.
Jodhpur é também chamada de cidade azul, pois uma boa parte das casas da cidade são pintadas de azul anil dando um belíssimo visual quando visto de cima do Forte Meherangarh.

Visitamos outras locais turísticos da cidade e depois nos dirigimos a Udhaipur nosso último destino no Rajastão.
A visita incluía o Palácio da Cidade com seus numerosos salões ricamente adornados e que agora se transformou num museu. Novamente Havelis e templos a serem visitados e o charmoso Lago Pichola com o Palácio do Lago, que foi transformado num hotel e é famoso local para realização de ricos casamentos.

Termino a descrição desta viagem para o Rajastão; mas não sem antes contar a nossa experiência na visita de uma comunidade Jainista.
Jainismo é uma doutrina regida pela não violência e a incapacidade de ofender qualquer criatura viva, entre animais e plantas, Então o seu povo é vegetariano e incapaz de comer qualquer alimento mesmo que vegetal que mate a planta, como raízes, por exemplo.
Esta comunidade jainista indiana vive em sua maioria no deserto do Rajastão e sempre foram mercadores. Vivem em pequenas aldeias e foi numa delas que fomos recebidos para o almoço e conversa com o líder local.
O assunto girou, com a ajuda na tradução do nosso motorista, sobre assuntos do dia a dia da comunidade, conceitos religiosos e curiosidades sobre a nossa vida também.
Passado algum tempo ele nos perguntou se queríamos experimentar chá de ópio.
Levamos um susto com a oferta, e por medo da legalidade da oferta, composição da substância e efeitos da droga acabamos recusando.
O líder, então, preparou e consumiu seu próprio chá enquanto continuava o bate-papo conosco.
Ao fim de nossa visita nos retiramos. Não sem ficar com aquela sensação de ter perdido uma boa oportunidade de experimentar algo, normalmente, bastante fora do nosso alcance.
Algum tempo depois, pesquisamos e descobrimos que o uso do chá de ópio por estas comunidades, é legal e tradicional nesta parte da Índia.
Mas aí…era tarde demais.
 


Debora Patlajan Marcolin, médica, 62 anos, muito curiosa com relação a diversidade cultural do nosso planeta. Viajo desde que me conheço por gente e tudo me atrai. Desde a minha vizinhança pobre de Carapicuiba até as cerimonias fúnebres de Tana Toraja na Indonésia, passando por paraísos naturais como o pantanal mato-grossense e deserto do Jalapão. Já conheci por volta de 75 países e não paro de projetar novos destinos. Entendo que para se viajar é preciso estar de peito aberto e abandonar todo tipo de preconcepção, que com certeza, a viagem vai te provocar profundas mudanças internas e gosto pela vida.
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