Van Gogh: de pastor radical a pintor da natureza

Van Gogh assimilava em sua técnica as questões estéticas dos movimentos artísticos que surgiram no período, adaptando-os ao seu estilo. "Muitos filmes já foram feitos sobre o artista, mas em março estreia no Brasil mais um. Intitulado No Portal da Eternidade, dirigido pelo também artista plástico Julian Schnabel e tendo Willem Dafoe como Van Gogh, promete ser o melhor de todos", escreve nossa colunista Milenna Saraiva.

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Vincent van Gogh dispensa apresentações. O artista faz parte do imaginário popular do pintor moderno que vive, enlouquece, definha e finalmente morre por sua arte. Muitos filmes já foram feitos sobre o artista, mas em março estreia no Brasil mais um. Intitulado No Portal da Eternidade, dirigido pelo também artista plástico Julian Schnabel e tendo Willem Dafoe como Van Gogh, promete ser o melhor de todos!

Vincent Willem van Gogh nasceu em 1853, na Holanda. Hoje é considerado uma das figuras mais conhecidas e influentes da história da arte ocidental. Mas, durante sua vida toda, lutou contra seus demônios pessoais. Diz a lenda que o pintor vendeu somente um quadro enquanto vivo. Criou mais de 2 mil trabalhos em pouco mais de uma década, incluindo mais de 860 pinturas a óleo, a maioria durante seus dois últimos anos de vida. Suas obras abrangem paisagens, naturezas-mortas, retratos e autorretratos, caracterizados por cores dramáticas e vibrantes, além de pinceladas impulsivas e expressivas que contribuíram para as fundações da arte moderna.

Em sua busca por estabelecer-se na sociedade, passou por diversas profissões, de pastor radical a pintor da natureza, amante do cachimbo, do absinto e das prostitutas. Substituiu Deus pela arte. Van Gogh assimilava em sua técnica as questões estéticas dos movimentos artísticos que surgiram no período, adaptando-os ao seu estilo. Van Gogh foi influenciado por Hals, Rembrandt, Seurat e pelo japonismo. Suas investigações artísticas resultaram em uma imensa obra que influenciou de forma profunda a arte do século XX.

Van Gogh morreu pobre e sem êxito em sua profissão. A ideia do artista excluído da sociedade, que enxergava além de seu tempo, incompreendido por seus contemporâneos, tem como reverso o valor de suas obras, vendidas hoje por milhões de dólares, para serem armazenadas em cofres ou acervos, longe dos olhos do grande público. Justo Vincent, que ansiava tanto que sua obra fosse vista e compreendida por todos.

 

VAMOS OBSERVAR

Autoretrato com a Orelha Cortada

Óleo sobre tela

60 x 49 cm

Autorretrato com a Orelha Enfaixada ou Autorretrato com a Orelha Cortada é uma obra feita a partir da técnica de óleo sobre tela, em um autorretrato, como o título da pintura sugere.

Meses antes da realização do retrato acima, em 1889, Vincent esteve mergulhado em uma crise de loucura, uma das muitas que se tornaram recorrentes. Pouco conhecido pelo grande público, esse foi um de seus últimos autorretratos e também uma das duas obras nas quais o pintor se representou com sua orelha amputada. Além disso, o rosto apresenta aparência de cansaço. O retrato foi pintado em camadas grossas de tons amarelos e verdes. Não há cores fortes e vivas como na maioria de suas obras anteriores. Esse retrato não tem mais o otimismo dos primeiros autorretratos. A quantidade exuberante de autorretratos que criou (foram catalogados 35 pintados entre 1886 e 1889), comparados com a relação que manteve com seu próprio corpo, culmina no triste episódio da mutilação de parte de sua orelha direita. O motivo da automutilação teria sido um desentendimento com Paul Gauguin, pintor e amigo de Vincent, o qual supostamente mostrou uma navalha aberta a ele, que assustado decidiu ir embora de sua casa em Arles. O pintor levou o pedaço cortado de sua orelha para uma prostituta amiga sua, Rachel, com um bilhete que dizia: “Guarde com cuidado”.  Após cortar a própria orelha, Van Gogh voltou para sua casa e dormiu como se nada tivesse acontecido. Ele foi encontrado pela polícia desmaiado e ensanguentado. Foi levado ao hospital, onde ficou por 14 dias.

Para Van Gogh, pintar a si mesmo não era só um estilo de arte, mas também uma forma de melhorar suas técnicas artísticas e de se conhecer melhor – tudo isso graças ao processo introspectivo ao qual se submetia, já que ficava horas diante de um espelho observando-se criticamente. Este autorretrato destaca-se dos demais por demonstrar a crise psicológica do pintor. A obra passa uma complexa emoção entre a absoluta genialidade pictórica das obras, a reflexão sobre as contingências da vida que dali transparece e o sentido das escolhas que fazemos pela vida fora. Neste autorretrato seus olhos fogem dos nossos, há uma cautela, mesmo resistência em nos olhar nos olhos. O olhar do artista não está voltado para o exterior, mas para o seu interior, olhando seu mundo imaginário.

Numa das muitas cartas que dirigiu ao seu irmão Theo, afirmou: “Estou, uma vez mais, próximo da (…) loucura (…). Se não tivesse uma espécie de dupla personalidade, uma de monge e outra de pintor, já me encontraria há muito no estado que referi”. Vincent acabou por suicidar-se alguns meses depois, aos 37 anos, com um tiro no próprio peito.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.