Chegamos a Zurique, capital da Suíça. Viemos no trem que havíamos pegado na cidade de Berna. A paisagem era linda. O trem faz um belo passeio pelos Alpes Suíços. Depois de algumas horas de viagem, chegamos na capital da Suíça. Estava entardecendo e os rios da cidade, os prédios de construção modernista e as igrejas medievais estavam no horizonte.

Zurique é a maior cidade da Suíça, a grande região tem 1.8 milhões de habitantes. Fundada por celtas, foi fortificada e teve boa parte da cidade construída pelos Romanos no século V D.C. Depois da queda do Império, foi utilizada pelo neto de Carlos Magno, Luís o Germânico, no século IX D.C. Nesses períodos, foram construídos boa parte dos prédios do centro da cidade. No Centro Velho foi onde as cidades suíças – que até hoje são regiões independentes entre si, os chamados Cantões – fizeram o juramento da Liga Helvética, no ano de 1798. Essa foi a união que resultou na Suíça como o país que conhecemos hoje.  A cidade foi palco da Reforma Protestante, quando Huldrych Zwingle se desligou do papado de Roma em 1523, fundando um dos braços da igreja protestante.  Também recebeu Lennin quando ele estava desenvolvendo o seu manifesto. E, ali ao lado da casa desse líder comunista, havia o Cabaret Voltaire, local onde foi fundado o movimento Dadaísta.

Nós pudemos entrar nesse cabaret, hoje um bar para artistas em geral, e acompanhamos a filmagem de um curta-metragem, onde diversos jovens europeus conversavam em uma mesa, cada um falando em sua língua natal. Já imaginou a confusão? Alguém perguntava em francês, era respondido em alemão, italiano, português, espanhol e, até mesmo, catalão. Nessas horas a gente fica encantando com a diversidade do mundo. É um muito interessante como pequenos pedaços de terra, os países europeus, que são vizinhos, podem ser tão diferentes. Ainda bem que no Brasil podemos conversar com todo mundo e sermos entendidos, todos na mesma língua, de Norte a Sul. É linda demais essa possibilidade brasileira.

Além desse Cabaret, há vários barzinhos e casas noturnas interessantes na cidade. Quando se trata de fazer festas, a música eletrônica é bem representada por aqui. Mas, se quiser algo mais calmo, os cafés para longas conversas – onde você pode admirar e comentar sobre quem passa – ou as casas de doces são excelentes opções para curtir entre amigos. Junto a isso, os suíços desenvolveram a maravilhosa fabricação de relógios, canivetes e, claro, a organização bancária, elementos que fazem a fama da Suíça mundo afora. Tudo isso pode ser visto nos bairros medievais e no centro da cidade.

Chocolates, relógios, história, arte, a organização suíça, boas comidas e infraestrutura urbana, além do dinheiro que circula por aqui fizeram a cidade ser eleita em 2012 como a melhor cidade do mundo para viver. Isso impressiona a nós que enfrentamos as dificuldades de trânsito, os preços galopantes do custo de vida, a má gestão urbana e a precariedade de segurança no Brasil. Pois é, mas após a primeira guerra mundial um grupo de artistas questionou essa ordem toda e desenvolveu o Dadaísmo, para dizer que das contradições da vida, do caos, é que as pessoas são despertadas para boas soluções.

Muitos artistas vieram se refugiar na cidade, desde o período entre as guerras mundiais até os dias de hoje. Talvez pelo fato de a cidade ser neutra nas Guerras: a famosa Neutralidade Suíça é daqui. Conta-se que Paulo Coelho pode ser avistado em um dos inúmeros cafés, tranquilamente olhando as pessoas passarem – um dos passatempos de quem mora aqui.  Apesar de ser a capital do país, a cidade transmite uma calma em suas ruas. Nada de ficarem grudados no celular. O bacana é ficar vendo onde você está ou/e conversando com quem está perto.

No centro, há a região medieval chamada de Lindenhof. Hoje é um calmo platô de onde observamos as igrejas de Grossmünster, o rio Limmat, a prefeitura em meio a construções do antigo forte romano utilizado pelo neto de Carlos Magno: Luís, o Germânico.
É um lugar calmo, mas já foi local onde uma série de batalhas foram travadas e soldados abrigados. Também foi o local onde os Cantões Suíços juraram a Confederação Helvétia, fundando a Suíça como é hoje. Nós vimos o pessoal brincar com os seus cachorros e crianças ali, no chão de terra batida desse famoso átrio, como se essa movimentação toda de guerra fosse mesmo coisa de tempos longínquos.

Descendo a pé e atravessando a uma das pontes sobre o Rio Limmat, que cruza a cidade com suas águas limpas e transparentes vindas direto das geleiras, onde cisnes brancos e outros pássaros aquáticos ficam flutuando, chegamos ao bairro de Niederdorf.  Cheio de ruazinhas estreitas, do século XVII, por onde não circulam carros e você pode andar tranquilamente em busca do Cabaret Voltaire e outros cafés, ou pode se perder e encontrar casas de personalidades que passaram por ali, como Lennin e, ainda, também visitar a igreja de Grossmunster. Ela foi construída entre 1100 a 1200 D.C. e foi palco da reforma protestante na cidade. Se você entrar ali, verá uma igreja em estilo romanesco, onde as pinturas de anjos e santos foram raspadas da parede, o altar foi transformado em palco. A arquitetura interna manifestando-se contra as regras da religião católica, em um movimento que trouxe como herança para os nossos dias a forma de arquitetura das igrejas evangélicas.

Continuando a caminhar por esse simpático bairro, você pode ver as casas das Guildas, as organizações de artesãos que foram o início do movimento sindical no mundo. Ali as regras para você ser ferreiro, marceneiro, padeiro, etc. eram definidas pelos mestres e entendidas pelos aprendizes, até que eles eram formados após apresentarem e ganharem boa nota à sua obra mais técnica, fruto de anos de aprendizagem: a sua obra-prima.

Ainda caminhando, você pode conhecer a igreja de Fraumunster, que fica do outro lado do rio Limmat, perto da Grossmunster. Essa igreja é católica e em estilo Gótico, construída nos séculos 12 a 15 D.C. e tem os vitrais do coro feitos por Marc Chagall. Eu tive a sorte de entrar na igreja enquanto alguém tocava lindamente o órgão. Foi mágico sentar ali, admirar os vitrais ouvindo aquela música.

Saindo dali você ainda pode conhecer a igreja de São Pedro, que possui o maior relógio de igrejas da Europa e uma arquitetura cuja torre pertence à cidade de Zurique e o corpo ao Cantão de Zurique, como se fosse a torre da igreja patrimônio da cidade e o corpo patrimônio do estado. Isso porque a torre era utilizada para acender fogueiras que ajudavam na organização de Zurique. Bem ao lado dessa igreja fica a Bahnhofstrasse, a avenida mais chique e elegante da cidade. As lojas das grandes marcas estão ali – Prada, Louis Vuitton e outras –  mas também há o restaurante Zeughauskeller que, em alemão, significa arsenal de armas.

O prédio foi construído em 1487 e no local eram feitas armas para os cidadãos da cidade e quem mais quisesse comprar. Não sei se sabem, mas cada suíço possui uma arma e balas de munição em casa. Se houver uma convocação para qualquer guerra, eles devem comparecer em tempo certo em um local de encontro e levar a sua munição. De tempos em tempos devem informar o governo como e onde estão as suas balas e armas, isso é super controlado. Ninguém pode perder, utilizar indevidamente ou vender as suas armas sem responder na Justiça por isso. Bem, este lugar foi transformado de antiga armeria em um restaurante. Possui o arco do herói nacional Guilherme Tell – aquele que acertou a flecha em uma maçã que estava na cabeça de seu filho – e todos os modelos de armas que já foram e as que são portadas por cidadãos suíços. A comida é maravilhosa, tipicamente suíça. Fomos duas vezes. Provamos a famosa carne de vitela com creme e batatas e também o rosti com carne. Come-se muito bem em meio a uma aula de história.

Há ainda na cidade o lindo Lago Zurique, com as mesmas águas geladas e transparentes que vimos antes no Limmat e com os seus lindos cisnes brancos e pretos. Você pode sentar em um dos inúmeros bancos que ficam às suas margens e ver iates e barcos de turismo ancorados em meio aos cisnes brancos.  Além disso, em outras regiões ali perto, há o prédio do Le Corbusier, o prédio em estilo rococó da Ópera Suíça, o Museu Nacional da Suíça e outros tantos pontos de interesse.  É uma cidade linda, pode ser explorada por quem adora comida, arte e história.

Terminamos o nosso passeio na praça da estação Central, em frente à sede do Banco Credit Suisse com a obra que eu mais gostei na cidade: um elefante de ponta cabeça, sustentando todo o seu peso na sua tromba. O artista espanhol Michel Barceló que fez esse elefante explica o seu sentido: “Essa obra é um auto-retrato. Os artistas estão sempre em dificuldades, estamos sempre nos equilibrando para nos manter.” Acho que é isso, uma cidade que se equilibrou na história para ser como é.

 

Onde saber mais:
Site sobre Turismo em Zurique: https://www.zuerich.com/en/visit/14-reasons-for-a-trip-to-zurich
Michel Barceló, Grand Elefandret: https://www.wnyc.org/story/158345-giant-upside-down-bronze-elephant/

 


 

Mariana Nogueira Machado Simões
Advogada, especialista em Gestão e Tecnologia Ambiental, com atuação em desenvolvimento urbano, brasileira,  amante da natureza, admiradora dos povos e das culturas do mundo.