Há quase 15 anos, o psicólogo Cristiano Nabuco reúne jovens em grupos para debater e tratar alguns tipos de dependência tecnológicas. Mas foi em 2018 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a classificar como doença da área da saúde mental Internet Disease Disorder. Para o especialista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, onde coordena esse grupo de apoio e tratamento, os holofotes sobre o tema abrem espaço para discutir as formas de suporte a esses dependentes e convoca toda a sociedade para a reflexão.

 

Quando a interação com a Internet virou um problema?

Isso aí é uma longa história. Desde que a Internet chegou, principalmente, com os computadores de mesa, há cerca de 13/ 14 anos, a gente já começou a registrar um aumento expressivo da dependência tecnológica. Estamos falando, claro, de indivíduos que ficavam sentados no quarto ou em algum outro lugar, sem locomoção. Foi quando passamos a atender, no Instituto de Psiquiatria, jovens nesta situação. Com a passagem do tempo, o computador ganhou mais velocidade e também portabilidade. O celular que, antes, só servia para comunicação, acabou se tornando um portal pessoal e passou a sequestrar alguns aspectos psicológicos das pessoas. Antes, os indivíduos que ficavam nos computadores eram os mais deprimidos e antissociais. Com esta portabilidade, não. Conforme o tempo muda e a tecnologia também, já é um problema considerado de saúde pública. Ao longo deste tempo, lutamos para que o diagnóstico pudesse figurar na lista das OMS como uma patologia. CID 11 foi incluído como uma nova patologia, a Internet Disease Disorder. Mas isso é apenas a ponta do iceberg. O que temos dito, dentro e fora do nosso grupo, é que é preciso produzir conscientização. Cada dia, surgem novos problemas e novas dificuldades. Crianças da primeira infância ficam conectadas o tempo todo, no banco de trás do carro, na mesa do restaurante. Pais usam o celular como uma nova babá eletrônica. Embora os estudos não sejam muito abrangentes, alguns indicam que, quanto mais cedo você apresenta a tecnologia para criança, maior é probabilidade de apresentar atraso cognitivo, como déficit de linguagem e dificuldades de empatia.

 

A exposição das crianças deveria começar quando?

A verdade é que, à medida que os pais trocam de equipamento, eles dão o telefone antigo para o filho. Quando não dão o próprio telefone para criança. A Sociedade da Pediatria Americana oferece uma série de recomendações e depois, aqui, nós fizemos uma adaptação. Como em toda situação, é preciso criar regras. Estabeleça um horário. Não deixe o telefone na mesa de centro da casa, de fácil acesso, porque isso ajuda a criar uma conexão. Até os 2 anos, a criança aprende seus comportamentos e, principalmente na segunda infância, passa a criar efeitos no entorno. Quando você deixa a criança o tempo todo conectada, ela perde a habilidade cognitiva e de sociabilização. A criança fica cada vez mais dependente. É a patologia das selfies, que chamamos. Já teve caso de um jovem que ficou conectado 55 horas, sem comer, sem evacuar, sem fazer xixi. Os pais vão criando um modelo e, sem perceber, criam autistas sociais, os filhos do quarto e vai criando problemas em educação, falta de concentração, sociabilidade

 

Como detectar a dependência?

Usamos alguns critérios diagnósticos e são oito. Quando a conexão fica restrita, o indivíduo fica irritado. Ou quando ele usa a tecnologia para modular questões negativas, ou seja, se está chateado, se conecta para melhorar o humor. Tem uma série de fatores indicativos. Depois de um certo tempo exposto à tecnologia, os mecanismos que são acionados na mente são os mesmos da dependência do álcool, das drogas. Então, fica viciado e criando problemas até em casa. Inclusive, escolas utilizam a tecnologia para estudo. Mas também não há pesquisas que indicam que um computador facilite o processo pedagógico. Pode até acabar. A sensação que nós temos é que está todo mundo perdido, tentando surfar na onda, sem conhecer as reais consequências.

 

O que a família deve fazer?

Criar regras. Dar um modelo. Computador jamais deve ficar no quarto. Tem que ter uma hora correta para uso, depois de estudar, fazer esporte, as tarefas de casa… O uso do computador não pode se sobrepor a todo o resto, a todas as obrigações reais.

 

O que nos diz do caso de Suzano, em que jovens entraram atirando na escola?

O caso de Suzano se debruçou muito sobre este assunto dos games, mas temos que ter cautela. O jogo não está associado ao aumento da violência, mas por outro lado quanto mais se usa, mais familiarizado fica. Quanto mais um jovem faz uso da tecnologia, menos reações emocionais ele passa a ter. Embora o jogo não seja o responsável direito, indiretamente vai ajudar a contribuir com este descontrole psicológico do indivíduo.

 

E o caso recente da boneca Momo?

Conforme o tempo passa, passamos a ter outras lendas urbanas. Na minha época, era bicho papão, lobo mau. Boneca momo se baseia em uma mitologia. Por pior que ela seja, e exista de fato, ela tem um lado positivo: ao assustar as crianças, jogou um pouco de luz sobre o uso descontrolado da Internet. Fez com que os pais passassem a ter mais atenção para isso. É importante para que eles tenham a consciência de que a Internet é terra de ninguém. Da mesma forma que você não deixa seu filho sozinho na pracinha, conversando com qualquer um, você não vai deixar seu filho entrar nos chats da Internet ou permitir que ele jogue com todo mundo, o tempo todo. Este episódio mostra que, na verdade, esse uso indiscriminado – e estimulado pelos pais – tem sérias consequências. Esta é a primeira de uma série de outras, que são silenciosas. E precisa de atenção.

 

Sobre Cristiano Nabuco
Psicólogo com 30 anos de experiência clínica. Tem doutorado pela Universidade do Minho (Portugal) e Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Aprimoramento em Psicoterapia Focada nas Emoções pela York University (Toronto, Canadá). Coordena o Núcleo de Dependências Tecnológicas do IPq-HC/FMUSP. Diretor do Núcleo de Terapias Virtuais – SP, e diretor do Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Publicou nove livros sobre Psicologia e Saúde Mental e é colunista do caderno de Ciência e Saúde da UOL.

 

Serviço

Dr. Cristiano Nabuco atende na Clínica Colussi

The Square Open Mall – Bloco C – Sala 110

Telefone: 2898-2424