A reportagem da Circuito foi até o centro de Cotia, na casa de Maria Leme Duarte, a Dona Maria, uma benzedeira conhecida na região. Coincidentemente, neste dia, foi o aniversário de 78 anos dela. Ao chegar em sua casa, alguns familiares lá estavam, tomando café da manhã. Entramos e fomos bem recebidos.

Após as despedidas e os abraços de felicitações, ficamos a sós com Maria, na sala de sua residência. Adepta do catolicismo desde a juventude, não fica difícil de saber que a sua fé religiosa movimenta a sua vida. Basta olhar ao redor dos cômodos de sua casa e constatar quadros e imagens de santos católicos.

“Eu não perdi a fé, por isso não mudo de religião. Eu vejo Jesus alegre, sorrindo para mim, mas também vejo Jesus triste, pelo que acontece. Eu consigo ver os dois lados de Jesus”, diz, com convicção.

O dom de benzer as pessoas despertou em Dona Maria aos 13 anos de idade. Ela contou à Circuito que começou esse trabalho espiritual através de uma sobrinha. “Essa menina nasceu chorando e ficou chorando por uns três meses”, disse.

Ela passava todos os dias perto da casa de sua irmã para ir à venda. Sem saber mais o que fazer com sua filha, convidou Maria para entrar. “Eu entrei e fiquei olhando minha sobrinha chorar no chiqueirinho. De repente, ela abriu o olhinho e, ao me ver, sorriu. Quando ela sorriu, eu a peguei no colo, comecei a conversar e ela dormiu. A levei no chiqueirinho e coloquei uma fraldinha de pano em cima dela e fui embora. De noite, voltei na venda, e a menina não tinha acordado ainda. Só foi acordar no dia seguinte e não chorou mais do jeito que chorava”, relembra.

O tempo passou e Maria guardou esse segredo, pois nunca falou para ninguém que tinha realizado tal feito. Foi somente após 15 anos que ela foi ‘descoberta’.

A DESCOBERTA

Maria mudou-se para uma casa no Jardim Central, em Cotia, onde reside até hoje. Foi em seu novo lar que aconteceu a sua descoberta. “As pessoas começaram a me procurar quando cheguei nesta casa. Eu tinha por volta de uns 30 anos. Começaram a me descobrir através do filho do Marcão”.

Maria se refere ao professor Marcos Martinez, conhecido como professor Marcão, que foi secretário de Educação de Cotia de 2001 a 2008, na gestão do então prefeito Quinzinho Pedroso. Naquela época, o filho de Marcão, Ícaro Martinez, tinha pouco mais de um ano de idade.

“O Marcão queria que eu benzesse o filho dele. Não sei como ele sabia. Quando ele veio pedir para eu orar para o filho dele, eu disse que não era benzedeira. Aí ele disse, ‘mas a senhora vai à missa, a senhora reza, a senhora pode rezar para o meu filho’. Mas eu disse que não poderia”.

Por mais que houvesse recusado, o avô de Ícaro o levou até a casa de Maria. “Eu fui abrir o portão e ele nem pediu nem licença. Já foi entrando”. O caso do menino era grave: um cobreiro (infecção de pele) em sua perna.

Sem saber o que fazer, afinal ela nunca tinha passado por isso, Maria conta que sua primeira atitude foi ir para o lado de fora de sua casa e pedir para que Deus a intuísse. “Tive então a ideia de pegar três plantinhas aqui no quintal. Lavei as plantinhas, tirei o excesso da água para secar e vim para a sala. Fiz uma reza e pedi para que Deus pudesse curar”.

No dia seguinte, Ícaro retornou no colo de seu avô com a perna praticamente curada. “E no terceiro dia que ele trouxe não tinha mais. Eu não contei para ninguém, mas eles contaram. Não demorou muito e apareceu gente para benzer de cobreiro, de quebrante, etc. E eu fui fazendo o que Deus permitia”, disse Maria.

Neste momento, a entrevista é pausada porque o telefone da casa de Dona Maria toca. Ela atende. “Bom dia. Sim, pode, beijo”. Desligou e não comentou mais nada.

Dona Maria e o seu filho Cido Duarte

OUTRO CASO

Após o caso de Ícaro e o sucesso pela sua cura, a notícia se espalhou por Cotia. Não demorou muito e Maria teve outro caso bastante difícil com uma criança de apenas um mês de vida.

De acordo com Dona Maria o menino tinha uma doença que os médicos não estavam conseguindo resolver. “Ele tinha um limbo. A gente pegava o cabelinho dele e pingava aquele limbo, que nem clara de ovo. E isso saía do corpo todo dele. A mãe estava desesperada. Não sabia mais o que fazer”. Mas Maria também não sabia.

Mais uma vez, ela disse que elevou o seu pensamento até Deus e pediu ajuda. Que logo veio. “Senti um arrepio. Aí disse para ela esperar um pouco. Saí lá na frente, apanhei três raminhos de um matinho que eu tinha aqui e benzi ele, pedindo para os anjos ajudarem. Depois queimei os raminhos no fogo e coloquei no lixo, como quem diz, já não tem mais doença”.

A mulher então foi embora com a criança e só voltou oito anos depois com uma surpresa: o menino, depois daquele episódio, nunca mais teve nada. “Ela veio se despedir, pois eles estavam indo para a África. Ela era de lá e disse que estava trazendo o menino para se despedir de mim e falar que ele estava muito bem, e que não teve nenhuma doença mais. Ele estava forte, sadio”.

Ao terminar de explicar o caso, a entrevista novamente parou por um momento. Alguém chama Dona Maria no portão. Entrou em sua casa uma moça e uma senhora com uma criança recém-nascida em seu colo. A criança estava desesperada, chorando sem parar. Sempre calma, Maria pôs as mãos sobre as pernas da criança e fez alguns gestos. Após poucos minutos, a criança se acalmou um pouco mais. Todos foram embora, não antes de cumprimentá-la pelo seu aniversário.

Maria se despediu e retornou para a entrevista. “É alguma perturbação na casa dela. A criança sente tudo”.

A reportagem fez alguns questionamentos sobre o trabalho espiritual de Maria, do início até hoje.

Quantas pessoas a senhora atendia por dia, na época?

Eu atendia, em média, umas dez pessoas. Não tinha horário. Já vieram tarde da noite já.

A senhora já cobrou alguma vez para benzer alguém?

Nunca.

Mas tem gente que cobra, né?

Sim.

Mas por que a senhora decidiu por não cobrar?

Porque Deus deu de graça e de graça eu dou.

Mas alguém já ofereceu algo para a senhora em troca?

Já sim. Na época a pessoa me ofereceu algo em torno de R$500. A mulher insistiu tanto que eu fui obrigada a pegar. Mas sabe o que eu fiz? Dividi com os pobrezinhos. Usei o dinheiro para ajudar outras pessoas. Eu não fico com nada que eu não preciso.

Antigamente, tinha mais procura para a senhora benzer?

Sim. Hoje não tem muito mais pela falta de fé. A falta de fé inunda o nosso mundo.

Naquela época, eram dez visitas em média por dia. Hoje quantas são?

Uma ou duas por dia. A falta de fé é muita.

A senhora vê isso com uma certa preocupação?

Com muita preocupação. Porque benzer, não é como um médico que está ganhando para isso, a gente faz de graça e as pessoas não vêm.

Todos os casos que chegam até a senhora, são resolvidos?

Nem todos. Nem todos acreditam. Tem gente que sai daqui e nunca mais volta. Já não acreditou. Veio só para ver como que era. E isso as vezes acaba interferindo no tratamento, porque eles não acreditam, passam isso para a criança uma coisa que não é certa. O ideal são os pais procurarem já com a mente aberta, acreditando.  

A fila dos hospitais aumenta porque a oração é pouca. As pessoas não creem mais. As pessoas vão aos centros religiosos sem crerem. Vão por ir, para saber o que é, mas no coração, não tem nada. A doença muitas vezes está atribuída a isso, à falta de fé, esperança e carinho.

Dona Maria, no entanto, ressalta que quando observa que para determinada doença o trabalho espiritual, por si só, não vai resolver, ela encaminha para a área médica. “Deus não ia deixar formar médico por bobeira. Há necessidade, sim. Tiveram casos que eu falei que benzeria, pedi a benção de Deus, mas o médico deve fazer a parte dele”.

“Tem médico que manda para a benzedeira também. Já tiveram pessoas que chegaram aqui e falaram que estavam trazendo seu filho porque já tinham feito de tudo no médico, e não resolveu. O médico mesmo pediu para procurar uma benzedeira”, finaliza.

Por José Rossi Neto