Como você se organiza para escrever tanto?
Escrevo de noite. Sou totalmente noturno, por isso fico preso nesse horário. Então, de dia, é que faço minhas atividades físicas e leio bastante. Eu tenho muito livro, se você quiser levar algum para sua casa tem um monte numa cesta ali, que doo para quem quiser. Mas sou notívago, sempre fui. Minha mãe sofria, coitada, para me acordar para ir para a escola. Com 10 anos, eu era um terror para levantar de manhã.
 
E quando tem que falar com alguém da sua equipe?
O processo é que eu escrevo à noite, e aí se estou muito ligado ainda, fumo um charuto, vai desligando, e nesse processo de desligar, às vezes tenho uma ideia do capítulo, então passo um zap para minha equipe que está retrabalhando o capítulo, põe uma coisa, tira outra coisa, às vezes às 4 da madrugada, mas é claro que eles só vão ler isso de manhã.
 
Como escrever quando as opiniões do público estão exaltadas e divididas, como no Brasil de hoje?
Você sempre será tachado de uma coisa ou de outra, porque nunca vai fazer com que todo mundo concorde com você, então é algo que a gente tem que ficar tranquilo. O que vale é ser ético e escrever de acordo com os nossos princípios e os da emissora em que trabalha. E há uma coisa difícil no público brasileiro que é, quando você fala do bem, tem que mostrar o mal. É um desafio porque minhas novelas lidam muito com superação, tem personagem que está superando uma situação ruim para uma melhor.
 
E qual é a estratégia?
Olha, essa pergunta, sobre como se faz, como se articula, é impossível responder, porque meu trabalho é intuitivo. Talvez outro escritor tenha tudo planejado, racionalizado, mas eu não sou capaz de dizer que planejei assim, fiz assim, resolvi assim. Eu deixo rolar. Meu sentimento vai me dizendo o que escrever. Então, não sei responder essas perguntas racionais que os jornalistas fazem.
 
Mas tem que chegar ao maior número de pessoas…
O chegar ao maior número é ter uma boa trama, uma boa história. As pessoas, às vezes, ficam bravas por causa de uma situação que surge, mas a trama vai acontecendo e consegue superar isso. É preciso saber conduzir a história.
 
Há algum tema proibido?
A Globo não impõe limites. Mas você tem que ter um lado racional. Obviamente, o que entra aí é o que eu sou. Eu não sou, por exemplo, a favor do feminicídio, então jamais faria numa novela com um cara que agride uma mulher. Pelo contrário.
 
Nem para ser o vilão que vai perder no final?
Isso eu fiz. Em O Outro Lado do Paraíso tinha um personagem violento (Gael, interpretado por Sergio Guizé), mas mostrei que ele estava errado o tempo inteiro e as razões que o levavam a isso. A questão é sempre o que acredito e se o que acredito está em consonância ou não com o público. Quando o autor escreve, ele se revela, não adianta ele escrever sobre algo que ele não é, pois vai aparecer, se revelando.
 
Quando a Globo escolhe quem vai escrever a próxima novela, qual é o critério deles?
Ah, eu não sei. É deles (risos). Mas existe também o critério da história que você apresenta e a proposta que leva, é sempre uma proposta do autor.
 
Não há nenhum critério moral?
Os critérios morais existem porque a Globo tem seus direcionamentos, então você não pode ir contra. Mas não tem nenhum critério que eu diga: quero escrever contra isso. Por exemplo, quando você fala da questão da violência, a Globo é contra e eu também.
 
Como escrever novelas para horários diferentes?
Bom, nas novelas das 7 e das 9, a família assiste junto, então você não pode fazer ali uma cena, por exemplo, na qual a mãe tenha vergonha de assistir ao lado do filho, não pode promover um choque. Mas escrevo também livro infanto-juvenil e isso me torna muito fácil esse contato com o universo infantil e com aquilo que se diz ou não se diz. Meus livros são adotados nas escolas, então sei muito bem me mover dentro disso. A das 11 ousa um pouquinho mais, porque é um horário em que as crianças já foram dormir.
 
Onde você acha inspiração?
Se você me responder isso, eu te dou um prêmio. Ninguém sabe de onde vem. As ideias surgem. Todos esses processos não são racionais, eles são intuitivos. Vem talvez de uma antena que você tem com o mundo, apenas uma antena que de repente você liga e capta alguma coisa, não tem como saber. Não tem como entender o processo criativo. Mas essa é a minha postura. Pode ter algum autor ou músico, que acredita na racionalidade, mas eu não acredito. É uma questão pessoal.
 
Há alguma revista, programa de TV ou algo assim que te dê ideias?
Não é por aí. Gosto de ler e leio bastante. Basicamente, vou na minha memória de leituras clássicas. Não só li, como adaptei vários clássicos para jovens, não é? Os clássicos já se aprofundaram no ser humano de uma maneira inigualável. O meu modo de trabalho é a inspiração literária. Outros autores podem ter inspiração cinematográfica, por exemplo, depende daquilo que foi a formação da pessoa.
 
O que você tem lido?
O que deixar cair na minha mão, eu leio, pode ser um clássico, pode ser um best-seller de pouca densidade também. Não faço esse crivo de só ler uma coisa ou outra. Li agora um livro muito bom chamado A Vegetariana (de Han Kang, da Editora Todavia), intenso e forte. O que gosto muito de ler são os de terror. Você pode ver que Drácula está logo aqui (aponta para a mesa de centro da sala), gosto muito de livros de terror, inclusive estou para começar a ler uma antologia de contos de terror.
 
Você tem uma biblioteca bem grande…
Veja, a leitura para mim é prazer. Não quero fazer nada que me tire os meus momentos de prazer, que é ler. Esse é o meu grande momento, é a conversa com o meu mundo interior.
 
Por que essa temática do terror te anima tanto?
Sei lá por quê. É essa a nossa contradição o tempo inteiro. Você quer que eu explique coisas que não sei explicar. É assim como eu gosto da cor azul, entende? Não tem uma explicação.
 
Tem alguma preferência? Stephen King, por exemplo?
Não, gosto dos clássicos. Gosto muito dos autores do século XIX. Aliás, gosto em geral de autores do século XIX. Mas para mim o grande livro mesmo é o Drácula, de Bram Stoker, que é esse livro que está aqui (aponta novamente para a mesa), já li várias vezes. É muito bem escrito, ele realmente vai te envolvendo, é muito bom. Gosto dessa coisa que lida um pouco com o outro lado, o desconhecido, que lida com a possibilidade de existir outros mundos, coisas que a gente não conhece.
 
Você tem uma coleção de caveiras. De onde vem esse gosto?
Na verdade, acho que o artista é sempre antenado. Comecei a gostar de caveiras numa época que elas não estavam na moda. Logo em seguida, começaram a entrar na moda. Hoje, você vê caveira para todo lado. Acho que comecei a gostar mesmo por uma… uma tendência estética de achar bonito caveira. Comecei a fazer essas caveiras, compro a estrutura delas, a armação, o crânio, de um pessoal que dá aula em escola, e aí pego esse crânio e mando para uma carnavalesca colar cristal Swarovski. Então, é um crânio que na verdade eu projetei. E comecei a fazer isso e mandar como presente. Aí aconteceu de as pessoas começaram a me dar caveiras de presente. Então, tenho caveira que não acaba mais, entendeu? Tem uma coisa filosófica aí, porque todos nós um dia seremos nada. A caveira é o destino final.
 
E o humor? Suas crônicas são muito bem-humoradas.
Quando escrevo, a situação é a seguinte: se eu não der risada do que escrevo, por que vou esperar que as pessoas façam isso? Se eu não chorar com o que escrevo, ou me emocionar com aquela situação, por que vou esperar que as pessoas se emocionem? Então, o ato de escrever é um ato de entrega, e nesse ato de entrega eu me emociono, ou para o humor ou para a lágrima. Mas a sua pergunta, ela cai num lugar que não é o meu. Que é o que eu espero, o que que eu planejo, o que que eu desejo. Não, não é assim. Simplesmente sento e me entrego à experiência de escrever aquela história. Se é uma história emocionante, vou me emocionar, e se eu não me emocionar é melhor não escrever. E se for uma cena de humor e eu não rir ou não me divertir, é melhor não.
 
Você escreve para o leitor Walcyr Carrasco…
Não, não escrevo para ninguém. Escrevo para entrar nessa viagem, viver essa experiência, que para mim é uma experiência profunda comigo mesmo. Não estou escrevendo para alguém, mas porque gosto de escrever. É uma vivência, uma viagem. Assim como ler um livro, é uma viagem, uma vivência, não é necessariamente um aprendizado ou algo assim.
 
Quando você está chateado, por exemplo, a produção é diferente?
Olha, acho que não é assim que funciona em nenhuma profissão. Você pega um médico, ele vai fazer um parto. Você acha que ele tem que estar inspirado ou não? O bebê tem que nascer de qualquer jeito. Tem dias que ele pode estar melhor para fazer o parto, tem dias que ele pode estar pior. Veja, ao mesmo tempo que vou fazer novela, que é uma viagem minha, ou um livro, e estou totalmente envolvido com aquela coisa, existe toda uma linha de produção me esperando. Não posso chegar e dizer, ah, vou ficar cinco dias sem trabalhar. Não posso. As pessoas têm que receber o capítulo, trabalhá-lo. É uma linha de produção bem grande, que envolve umas trezentas pessoas. Então, é como o médico que vai fazer o parto, a criança vai nascer e ele tem que fazer o melhor possível. Tem aqueles dias que são geniais, em que você está melhor do que em outros dias, e assim vai.
 
Já aconteceu algum bloqueio criativo?
Raramente. O que acontece, até em livro infantil e infanto-juvenil, é você lidar com temas mais espinhosos. Por exemplo, tenho um livro que chama Estrelas Tortas, que fala sobre uma menina cadeirante. E aí obviamente você tem que ir no médico, estudar aquilo, como são os exercícios, a fisioterapia, fazer quase um trabalho de reportagem mesmo, para não escrever bobagem. E depois de feito esse trabalho, tem que se policiar o tempo todo para que possa lidar com sua própria emoção em relação ao personagem. No livro, o desejo é que a menina volte a andar, mas essa não é a realidade. Pelo tipo de acidente que ela teve, de carro, ela não voltaria a andar com a medicina que a gente tem hoje. Então, ela tem que superar isso com a emoção dela, passar a viver a vida sendo cadeirante e isso tem que ser uma coisa boa para ela.
 
O que tem de sua vida nos teus livros?
Bom, nesse caso, nunca fui cadeirante. Conheci pessoas cadeirantes e me conectei de alguma maneira com a emoção delas, e tive vontade de escrever esse livro. Mas tenho um outro livro chamado As Asas de Joel, que é sobre um menino que conheci quando era criança, que é especial. Está vivo até hoje. Tem uma lesão cerebral. Então eu quis contar a história da minha amizade com esse menino. Esse livro é uma coisa que me toca bem de perto. Mas para escrever não é necessário viver aquilo tão de perto.
 
Tem saudade do jornalismo?
Nenhuma. Porque, lamentavelmente, o jornalismo é uma profissão que, a partir de certa idade, fica mais difícil. Não sei se hoje eu teria vontade de pegar o telefone e descobrir um furo, uma notícia, e batalhar com todas aquelas pessoas de novo para elas me dizerem alguma coisa. O jornalismo, a reportagem principalmente, requer uma disposição interior muito grande. Acho que o jornalismo está numa crise danada por causa da internet, algumas revistas estão fechando, e aí penso nos colegas que conheci e na dificuldade que eles estão passando porque o jornalista não costuma ganhar tão bem. Essas pessoas, nem todas têm um pé de meia tão bom, e de repente elas estão numa idade mais madura, como alguns meus antigos colegas, com dificuldade mesmo de encontrar trabalho. Eu lembro que quando era mais jovem, vivi uma época só de freelancer. Hoje, acredito, seria impossível. Os preços caíram, muitas revistas fecharam. Hoje, o jornalismo não me fascina. É uma fase ruim.
 
E há muita fake news, não é?
Sim, muita fake news e as pessoas tendem a acreditar nelas. As pessoas ainda não têm aquela maturidade de procurar os sites que sejam autenticados, comprovados, por ter uma redação funcionando, que faz checagem, reportagem etc. As informações correm como sendo verdadeiras, sendo mesmo ou não.
 
Na área artística, há muita fofoca?
Sim, no jornalismo, na área artística, sempre houve muita fofoca, não necessariamente verdadeiras, e se espalham mais rapidamente. Você tem que se abstrair disso e ter uma conduta ética, que permita provar, no momento de uma acusação, que aquilo não é verdade, e aí entrar com um processo se aquilo atingir de alguma maneira a tua produção ou vida íntima. Fora disso, as histórias de novela, que contam e inventam, falam isso e aquilo, não dá para controlar.
 
Você vai estrear novela nova, não é?
Em maio, A Dona do Pedaço.
 
O que você pode adiantar dela? Como vai ser?
É uma novela em que busco trazer uma história de esperança. Em um país em que a crise econômica motivou o surgimento de novos negócios, surge a história de uma batalha, de esperança mesmo. É uma história que lida bastante com esse mundo da internet e suas influências.
 
Como é criar tantos personagens tão diferentes?
Eu sento e escrevo. O que você gostaria, como qualquer outro jornalista, e sei porque também fui jornalista, é que eu me expressasse de uma maneira racional, e estou dizendo para você que para mim não é um processo racional. Estou batendo nessa tecla e sendo chato, mas porque essa é a mensagem que quero passar, que não é algo que eu sente, pense e planeje. Não, apenas sento e escrevo. E aí o que acontece? À medida que você escreve e os personagens vão tomando corpo, é como se eles fossem pessoas que a gente conhece. Você começa a conversar com os personagens e eles me dizem qual é a história deles.
 
Você dialoga com os personagens?
É como se fosse uma pessoa, e eles conversam com a gente. Eles dizem: eu não quero ter esse fim, esse final que você racionalmente está pensando não é o meu final. Então, não se pode dizer que é racional. É um processo de criação no qual você se envolve com os personagens, meio que por intuição. É a intuição que vem. Inclusive, todo dia chega alguém e fala: tive uma ideia ótima para a novela. Aí, eu peço: não me conte, porque quero eu ter as minhas ideias. São viagens interiores.
 
Você já teve projetos que não deram certo?
Sabe, para mim, o projeto, o processo, o escrever é o que conta. Quando eu acabei de escrever, a continuidade desse filho, e tive isso mais em teatro do que em televisão… Já tive o prazer de escrever, tanto que em geral não gosto de falar sobre o que estou escrevendo. Já li isso em algum lugar: quando o escritor conta muito sobre o que ele escreveu ou vai escrever, ele já contou a história, então algo daquilo já não precisa mais escrever, já contou.
 
Como você vê o mercado das telenovelas?
A novela brasileira cresceu em qualidade técnica, as imagens são maravilhosas, os diretores e os atores cada vez melhores, e ela tem um espaço internacional enorme, que eu às vezes me surpreendo. Verdades Secretas foi vendido para a Coreia do Sul. Imagina, a Coreia do Sul está lá vendo minha novela. Algumas novelas, como essa, conseguem chegar no mundo inteiro. O Brasil realmente tem que valorizar isso, porque é um produto de exportação fortíssimo e com alto nível de qualidade.
 
Verdades Secretas, sobre os bastidores do mundo da moda, fala em prostituição, drogas, pedofilia etc. Você sofreu para escrever?
Não, adorei escrever. Muita emoção, né? Ao escrever, é claro que usei muita emoção minha, mas gosto muito dessa história. Escrevi outras coisas fortes na televisão, como o Outro Lado do Paraíso e Chica da Silva.
 
Verdades Secretas chegou a ter mais audiência que o Jornal Nacional. Por que fez tanto sucesso?
Ela lida com a ideia de fama e com o dinheiro conquistado através da fama, e mostra os bastidores disso no mundo da moda. Não de todo do mundo da moda, mas uma parte, coisas que acontecem. E isso para as pessoas é muito fascinante, porque elas querem a ascensão social através da fama e da beleza. E acho que foi muito surpreendente para elas saber que nesse meio existem outras coisas que não esperavam. Porque, veja bem, todos nós ainda somos criados como numa história de Cinderela, de conto de fada, principalmente as mulheres, e isso não é a melhor coisa para mulher, e para ninguém. As mulheres estão assumindo outros lugares, posições e profissões, e ainda se fala nessa história de casar com um príncipe, e fica tudo bem. Ora, não é essa educação que as mulheres merecem ter. Elas merecem uma educação que leve ao empoderamento, a uma profissão como todo mundo, a exercer mais poder na sociedade. Então, acho que esse conto de fadas ainda existe, e essa novela foi contra isso. Como se dissesse, olha, vocês pensam que é assim, que casa com o príncipe e pronto? Não é. A novela foi contra um mito da sociedade e acho que isso foi muito forte para as pessoas. A história da Cinderela não é a melhor história para a formação de uma mulher, porque ela não tem que casar com príncipe algum, ela tem que ter a vida dela. Se não aparecer um príncipe, ela vai ter a vida dela igual, entendeu?
 
Por que você escreve para crianças?
Comecei escrevendo para criança. Eu trabalhei na antiga revista Recreio, que era maravilhosa. Quem dirigia era a Ruth Rocha e ela falou: Walcyr, você tem que começar a escrever livros, porque você escreve bem os contos. Ela me deu essa força, comecei a escrever livros e nunca mais parei. Foi aí que eu nasci.
 
Qual foi seu último livro para crianças?
O Médico e o Monstro, uma adaptação. Aliás, ganhei o prêmio Jabuti pela adaptação de Romeu e Julieta, dois anos atrás.
 
Tem algum tema te interessando? Sobre o que vai ser seu próximo livro?
Tem, é um livro infanto-juvenil, mas não vou te contar não (risos).
 
O que determina o sucesso de um texto?
O que determina o sucesso em qualquer produção de criatividade é você gostar dela. Se você ama e se entrega, aquilo que você faz, tem muito mais chance de sucesso do que ter uma atividade que você não goste, não suporte. Isso é básico, você tem que amar aquilo que faz. Se não ama, vai lutar contra aquilo, não vai fazer bem. A história pode ser simples, mas se você ama aquela história, vai escrever melhor do que alguém que não tenha essa relação com o texto. Até por isso, a Globo não te diz qual é a história que você vai escrever, você é que apresenta um projeto. É um projeto seu e, se não gostar dele, não vai escrever bem, porque uma novela é um envolvimento muito grande, de um ano escrevendo aquilo. É uma atitude muito inteligente da empresa deixar você criar e em criação você não pode ser tão objetivo, específico.
 
Como está sendo morar na Granja Viana?
Morei na Granja uns vinte anos atrás. Ainda tenho a casa no Granja II, onde eu morava, encravado entre o São Paulo II, a Fazendinha e o Cotolengo. Desde essa época eu namorava um pouco este condomínio aqui, mas nunca deu certo de comprar alguma coisa aqui, por falta de grana ou porque não era o negócio certo. Às vezes, aparecia uma oportunidade, mas o imóvel estava meio abandonado e eu teria que reformar tanto que praticamente teria que erguer uma casa nova. Naquela época tinha, não sei se tem ainda, muita casa de gente idosa que o filho quer vender etc. Só que são casas que requerem reformas. Então, sempre evitei. Uma vez, há uns sete anos, apareceu uma casa, mas vendeu cinco dias antes de eu fazer a oferta, veja só. Aí apareceu essa oportunidade aqui, a casa estava um pouquinho abandonada, eu a revivi, porque é uma casa linda, até um pouco maior do que preciso, mas é maravilhosa, e aqui tem macaquinho, esquilo tem muito, tem uma floresta perto.
 
E um husky siberiano…
Olha, gosto muito de cachorro. Sempre tive, desde criança. Quando morreu meu outro cachorro, que era husky também, um amigo me deu a Luna. Adoro essa raça. Só que tem isso: ela come passarinho, esquilo, e eu fico com certa pena de ela ser tão caçadora. Os animais terrestres fogem um pouco daqui, mas os macaquinhos ela não alcança. A gente teve aqui um momento terrível. Tem uma parreira no fundo da casa, e uma passarinha botou em um ninho dois ovinhos, e a Luna sacudindo a parreira para fazer cair o ninho, e nós tentando salvar os passarinhos. Então, eu falei: nós vamos pegar o ninho e nós vamos alimentar os passarinhos, até eles saberem ir embora. Mas aí conseguimos amarrar a parreira, de modo que ela tentou sacudir e não conseguia mais balançar. Então, tentamos impedir que ela faça essas coisas, mas nem sempre dá. Às vezes, aparece um passarinho e ela pega ele no voo.
 
Você já se adaptou nesta volta à Granja?
Bom, essa casa tem isso: é muito gostoso para trabalhar, não precisa sair muito. Mas o que está me acontecendo é que mudei há uns sete ou oito meses, e ainda tem coisas que estou me ambientando, porque a Granja que eu morei, quando estava no Granja II, não tinha nem supermercado perto. Tem muitos restaurantes que eu nem fui ainda, e alguns antigos, o Canto ainda está aberto? Não voltei lá, não sei se eles mantêm a qualidade que eu conhecia.
 
O que você mais curte na Granja Viana?
É o estilo de vida. Primeiro, a natureza. Aqui não tenho vontade de sair de casa. Tenho apartamento no Rio, mas eu preciso daqui, gosto de ficar para ler, trabalhar, receber amigos. É muito gostoso, tem espaço e, no condomínio, tem lago, bosque. Uma coisa que estou adorando é a barbearia. (Fala com o assessor de imprensa.) Felipe, como chama a barbearia que eu vou? 4Shave? Adoro ir lá, virei freguês. Outra coisa que estou gostando muito, e nunca pensei que ia fazer, é krav magá (luta marcial de origem israelense). É uma experiência muito nova. É claro que já tenho certa idade e não vou virar um faixa-preta, mas é uma coisa gostosa de fazer e eu me dei muito bem com o cara que tem a escola, o Luciano. Virou um irmão mesmo. Tenho alguma dificuldade de coordenação, mas ele me deixou bem à vontade e me sinto bem nas aulas. Enfim, a adaptação à Granja está sendo fácil. Estou recomeçando a ver as coisas que me interessam.