Retratista famoso

O italiano Sargent produziu num ritmo intenso, mais de 12 retratos a óleo por ano, mas também fazia dezenas de retratos apenas desenhados.

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John Singer Sargent nasceu em Florença, Itália, em 12 de janeiro de 1856. Era filho de pais norte-americanos, e por isso, é considerado de origem americana. A família de Singer vivia modestamente em Florença, Itália. Desde pequeno, viajava com sua família por países europeus, visitando museus e igrejas, pois sua mãe considerava isso fundamental para a educação dos filhos. Ela era uma artista amadora, enquanto seu pai fazia ilustrações para uso na medicina. Por isso, desde cedo, ele ganhava cadernos de desenho e era encorajado a desenhar em suas viagens. Adorava desenhar navios, o que fez seu pai achar que o filho fosse acabar seguindo carreira de marinheiro. Começou seus estudos artísticos bem cedo e desenvolveu seus dotes com renomados pintores da época. Ele trabalhava intensamente em sua arte, de manhã à noite, diariamente, sete dias por semana. Entre 1877 e 1925, pintou mais de 900 telas a óleo e mais de 2 mil aquarelas, além de incontáveis desenhos com carvão e lápis grafite. O artista tinha Diego Velázquez como seu maior ídolo e, em 1879, viaja para a Espanha a fim de estudar suas pinturas. Lá, ele se apaixona pela música e pela dança espanhola, que se tornam temas muito explorados em sua obra. Em seu retorno a Paris, recebe uma enxurrada de pedidos de retratos e sua carreira deslancha. Sargent tinha grande capacidade de concentração e disciplina, que o manteve pintando durante os próximos 25 anos de sua vida. Ele já era, então, a grande vedete em meio aos artistas em Paris, inclusive por sua maneira refinada e seu francês perfeito. Sargent nunca teve assistentes, ele mesmo preparava suas telas, envernizava suas pinturas, além de se ocupar pessoalmente com a papelada e documentos do ateliê. Era um retratista tão famoso que diversos clientes iam a Londres apenas para serem pintados por ele. Entre 1900 e 1907, Sargent produziu num ritmo intenso, mais de 12 retratos a óleo por ano, mas também fazia dezenas de retratos apenas desenhados, que vendia por preço mais baixo. Com 51 anos, em 1907, Sargent fecha seu ateliê para retratos. Nesse mesmo ano, pinta seu próprio retrato e se concentra em pintar apenas paisagens.
 
VAMOS OBSERVAR
Madame X (Madame Pierre Gautreau), 1884
Óleo sobre tela
208.6 x 109.9 cm
John Singer Sargent
Madame X ou O Retrato de Madame Pierre Gautreau representa a figura em corpo inteiro e em tamanho real de Virginie Amélie Avegno Gautreau, também americana, da Luisiana, mas residente na França, mulher de Pierre Gautreau, um banqueiro parisiense. Virginie era frequentadora da alta sociedade francesa, famosa por sua beleza e rumorosas infidelidades. A pintura não foi encomendada, mas pedida pelo próprio Sargent a modelo. Em sua primeira versão, uma jovem de porte altivo e aristocrático, envergando ostensivamente um belo vestido de cetim negro, de generoso decote e com uma das alças caída sobre o braço, revelando e encobrindo ao mesmo tempo, para gerar um efeito de extrema audácia e sensualidade. O retrato se caracteriza pelo proposital jogo de contrastes entre a cor muito pálida da pele de Virginie com o preto brilhante do vestido e os escuros tons do segundo plano. As más línguas da época diziam que ela tomava arsênico para ficar com a pele mais branca.
Levado ao Salon de Paris de 1884, o quadro causou entre os frequentadores e críticos um verdadeiro escândalo. Sargent pretendeu consertar a má impressão causada, repintando a alça do vestido na posição normal e mudando o título da obra para Madame X, mas já era tarde. O estrago já estava feito. Com a polêmica gerada por seu trabalho, o artista foi alvo de duras críticas. Com isso, de famoso retratista passou a ser visto como um artista infame. Pressionado pela opinião pública, chegou a declarar que nunca mais pintaria, que se dedicaria à música e aos negócios. Mas, resolveu abandonar a França e residir em Londres, onde retomou sua bem-sucedida carreira artística.
O famoso retrato ficou por muitos anos no ateliê do pintor, que jamais fez questão de escondê-lo. Ao contrário, Sargent o deixava de forma ostensiva, em exposição, à vista de qualquer pessoa que visitasse seu estúdio. Ele ainda declarou que esta era sua obra favorita.
É difícil hoje imaginar por que uma obra desta causou tanto furor e quase acabou com a carreira de um pintor tão talentoso. Os tempos mudaram, porém até hoje a nudez incomoda. Por que a sociedade teme a nudez? A nudez não é vista como nudez, ela é sempre vista como algo que se sujeita ao lado sexual do contexto, mesmo que não tenha esse teor. A suposição de que a nudez traga consigo o sexual, nos traz, também, a insegurança. Talvez a resposta seja uma: O machismo, que fragiliza e diminui tudo que é ligado à feminilidade, fomenta o assédio, e, portanto, indiretamente, nos faz temer a nudez como algo que nos expõe a um suposto perigo.
Quando a modelo Virginie Gautreau morreu, Sargent vendeu a obra para o Metropolitan Museum of Art de Nova York em 1916, onde até hoje se encontra.
 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.