Dama do Norte de Paris

Catedral Notre-Dame reinou absoluta, por 850 anos, no coração de Paris, sendo um dos monumentos mais impressionantes da capital francesa.

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No dia 15 de abril, o mundo assistiu com tristeza a Nossa Senhora de Paris sucumbir às chamas.  Além dos franceses, pessoas que já visitaram, também quem nunca esteve lá, se comoveram ao ver a joia da França desmoronar em tempo real. Tal comoção impulsionou uma espécie de campanha de doações para sua reconstrução, que ganhou força logo no primeiro dia após o acidente. A lista de doadores é grande, mas um nome em particular chamou atenção por dois motivos: além de ser brasileira, a responsável doou sozinha uma quantia estimada em R$ 88 milhões. Trata-se da bilionária Lily Safra. Muitos foram às redes sociais para comparar a generosidade dos milionários europeus com a da elite brasileira quando o Museu Nacional pegou fogo em setembro do ano passado no Rio.  As doações-relâmpago viraram motivo de raiva. O questionamento foi o seguinte: como é que bilionários e empresas da França doam 800 milhões de euros para salvar uma construção, ainda que uma tão importante, enquanto há tanta pobreza e tragédia humana (nos próprios arredores de Paris, inclusive)?

Quem está pagando a conta da Notre-Dame é o contribuinte francês, pois o dinheiro das doações será dedutível de impostos lá na frente. Na prática, os 800 milhões de euros são só um adiantamento. E vale lembrar que o contribuinte não vai ganhar nome da plaquinha na igreja. Com certeza, se não houvesse nenhuma doação, os mesmos críticos estariam indignados.

Mas por que tanto alvoroço ao redor de uma igreja?

 

VAMOS OBSERVAR

Catedral de Notre-Dame

Início da construção em 1163 

Vários arquitetos e artistas 

Paris, França. 

 

No coração da Ilha de la Cité, a Catedral Notre-Dame é uma das principais construções medievais de Paris. Símbolo do poder episcopal desde o século XII, sua ambiciosa edificação teve início em 1163. Com a Catedral, nasce o estilo gótico, que iniciado na Inglaterra teve pleno desenvolvimento na França, com a criação da Basílica de Saint Denis, em 1144, nos arredores de Paris.

O principal objetivo de construir templos com estruturas tão audaciosas era o de unir o mundo terreno ao mundo divino, aproximar o homem do céu, de Deus. Para alcançar este fim, a inovação fundamental introduzida no estilo gótico foi a invenção do teto côncavo, em forma de ogivas, arcos diagonais que reforçam a arcada gótica, permitindo assim a elevação do edifício.  Quanto mais alto o templo, mais “perto de Deus o homem está”. Outro elemento essencial da construção gótica é o vitral, canal de entrada da luz, de forma natural e abundante. Os primeiros vitrais medievais surgiram no século X.

A Catedral Notre-Dame é uma homenagem à Virgem Maria, tendo sua fachada ornamentada de estátuas retratando cenas bíblicas, com destaque para o portal central, o famoso portal do Último Julgamento, onde Cristo está representado na cena do peso das almas, portal de grande influência para os fiéis na Idade Média.

A construção da Notre-Dame de Paris durou mais de 170 anos: canteiro de obras iniciado pelo bispo Maurice de Sully no fim do século XII e concluído no início do século XIV.  A catedral também passou por recorrentes reformas e ampliações. No século XIX, em plena renovação urbana de Paris, o arquiteto Viollet-le-Duc, especialista em restaurações góticas, entre outras intervenções, reconstitui fielmente a fachada da catedral, com o apoio de imagens de arquivos e de fragmentos originais, como as estátuas de Adão e Eva.

Grandes momentos históricos foram celebrados na Notre-Dame, como o depósito das santas relíquias em 1329, pelo rei Luís IX. Em 1804, a catedral serviu de cenário para a Coroação de Napoleão Bonaparte como primeiro imperador dos franceses, momento histórico eternizado pelo pintor neoclássico Jacques-Louis David, obra que pode ser vista no Museu do Louvre.

A catedral é também referência na obra de Victor Hugo, que nela se inspirou para escrever o romance Notre-Dame de Paris, mundialmente conhecido como O Corcunda de Notre-Dame, onde o personagem central, o deformado sineiro da Igreja, Quasímodo, se apaixona pela cigana Esmeralda. Lançado em 1831, o livro teve sucesso imediato e é considerado o maior romance histórico de Victor Hugo, adaptado para o cinema e para o teatro.

Há 850 anos, a Catedral Notre-Dame reina absoluta no coração de Paris e é certamente um dos monumentos mais impressionantes da capital francesa, por sua arquitetura, suas estátuas, seus vitrais, seu mobiliário e sua importância histórica. Um monumento que atrai e encanta cerca de 14 milhões de visitantes por ano, vindos de todas as partes do mundo.

A raça humana é de longe a mais complexa de todas. Não nos contentamos em apenas sobreviver. A Catedral de Notre-Dame não é somente um monumento famoso e tombado pela Unesco, é também uma ponte entre o homem e o ápice de sua capacidade criativa.  É a conexão do homem com o divino. Seja este para alguns Deus ou a criação artística em si, para outros. Além disso, a catedral conta a história da humanidade. E como George Santayana disse: “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.