O trabalho na televisão aconteceu por acaso, quando assistia a um programa e se ofereceu para transformar uma telespectadora que sofria de depressão. Em 2009, estourou no Esquadrão da Moda, exibido pelo SBT e agora também pelo Discovery Chanel. Aos 40 anos de idade e 27 de carreira, Rodrigo Cintra é um dos profissionais do ramo da beleza mais requisitados da atualidade. Estudava para entrar na academia da Força Aérea quando uma tia, que trabalhava como podóloga em um salão badalado de São Paulo, o convenceu a conhecer o espaço para seguir a carreira de cabeleireiro. Foi por curiosidade e acabou ficando. Aos 18 anos, foi estudar o ofício na Espanha. Quando finalizou o curso, em vez de “mochilar” pela Europa, engajou-se em outro aprendizado antes de retornar ao Brasil. Ariano, percebeu que havia um grande espaço para a formação profissional e dedicou-se ao treinamento. Hoje, seus workshops e palestras atraem cerca de 15 mil pessoas ao ano. O número de seguidores nas redes sociais também é expressivo: são quase 10 milhões. Ele é casado com uma granjeira, a empresária Carolina, e é pai de Vinicius (4) e Isabella (2). Prestes a abrir seu próprio salão, entre um compromisso e outro, Cintra recebeu nossa equipe com um sorriso no rosto, característica que lhe é peculiar, para contar um pouco de sua trajetória profissional, dar dicas de beleza e, claro, falar da sua relação com a região. No pouco tempo de folga, Cintra gosta de desfrutar em família do seu refúgio particular, que fica na Granja Viana.


Você estava prestes a entrar na academia da Força Aérea. De futuro militar, como você chegou ao mundo da beleza?
Meu tio-avô era oficial da Aeronáutica e eu estudava, aos 13 anos, para entrar na Força Aérea. Sempre passava as férias na academia e achava lindo todo mundo fardado. Uma tia, que era podóloga e trabalhava em um salão badalado em São Paulo, me convenceu a conhecer o local que ela trabalhava. Fui por curiosidade, vi várias pessoas ficando bonitas e acabei virando assistente de cabeleireiro.
Conte-nos um pouco sobre sua trajetória e crescimento profissional.
Comecei como aprendiz no salão, com 13/14 anos. Aprendi a lavar, fazer escova, aplicar coloração. Quando fiz 18 anos o dono do salão, que era espanhol, exigia que para se tornar cabeleireiro o funcionário tinha que fazer um curso de um ano no Instituto Llongueras, na Espanha. Fui quando completei 19 anos e fiz um aperfeiçoamento de um ano e meio lá. Voltei para o Brasil. Também fiz curso na academia Cebado, também na Espanha. Na época eram as melhores academias do mundo para aprender a profissão.
Como foi esta experiência na Espanha?
Foi muito rica, pois vim de uma família simples. Estar na Europa era caro. E muito jovem ter conseguido fazer esse curso, ter investido minhas economias nesse curso, foi a melhor coisa que fiz na vida.
Qual o perfil das mulheres espanholas? O que trouxe na bagagem de lá para cá?
É curioso. Hoje, o cabelo curto está em alta no Brasil. Mas na época a brasileira só usava cabelão e cortava curto quando envelhecia. A europeia já usava cabelo curto quando era jovem. Foi bacana lá, pois foi um divisor de águas por conta do cabelo arrojado, cortes curtos, tudo o que aprendi. Quando voltei para o Brasil, as mulheres só cortavam as pontinhas e eu já fazia um antes/depois bacana. O que abriu meu caminho no mercado publicitário para revistas e televisão.
Você cria novas técnicas para embelezar as mulheres. Quais são suas fontes de inspiração e referências?
Por muitos anos foram as academias internacionais, como a Tony & Guy e a Vidal Sasson. Meu aperfeiçoamento era ir para fora buscar o que estava sendo usado. Hoje com a internet isso mudou muito, o Brasil está exportando tendências. Mas posso dizer que as referências vêm por cursos, congressos, feiras de cosméticos e a internet.
Como você chegou à TV? É verdade que começou por acaso?
Eu assistia o Dia a Dia, da TV Band, e me ofereci para transformar o cabelo de uma entrevistada que sofria de depressão. Convidei-a para ir ao salão, mas a produção do programa pediu para fazer o cabelo dela ao vivo, na TV. O programa fez muito sucesso e fui convidado para fazer parte dele. Ganhei um quadro chamado Esquina da Beleza. Fiquei por lá quatro anos. Lá na Band, fiz o Dia a Dia, Bem Família e Atualíssima. Em 2009, recebi o convite para fazer o Esquadrão da Moda no SBT, que hoje também é transmitido pela Discovery. O programa tem uma audiência bacana, é sucesso e, se pensar, poucos programas duram dez anos.
O Esquadrão da Moda, como aconteceu?
O diretor que foi convidado para fazer o programa me conhecida da Band. Ele me convidou para bater um papo. Estava precisando de um cabeleireiro acostumado com televisão, que é um trabalho diferente. Foi esse o motivo do convite.
Além de hairstylist, você também é educador-palestrante. Em que momento descobriu esse dom?
O mercado educacional aconteceu por acaso. Quando voltei da Espanha, poucos cabeleireiros tinham essa formação e era muito caro fazer o curso fora. Comecei a juntar grupos de cabeleireiros aos domingos no salão para ensinar o que aprendi fora. E aí começou com grupo de cinco profissionais, subiu para 10, depois 15, quando chegou a 50 profissionais comecei a locar sala de hotéis. As marcas de cosméticos começaram a me contratar para viajar pelo Brasil. Meu público passou então para 300, 400, 700 pessoas. E o mercado cresceu bastante. O mercado educacional para mim também aconteceu pela oportunidade. E o público foi crescendo conforme minha carreira ganhou corpo. E a preparação foi a prática mesmo.
Trabalhou muitos anos com Wanderley Nunes, como foi essa parceria?
Eu me formei no De La Lastra, que trabalhei dos 13 aos 30 anos. Dos 30 ao 40, fiquei no W. Tem o nome bacana no mercado, rede consolidada e a experiência de trabalhar com profissionais grandes foi incrível. Aprendi muito com amigos experientes que trabalhavam lá. Foi bacana e proveitoso. Uma década feliz.
Fale-nos dos seus planos futuros.
Passada essa década no W, optei por montar um salão, com minha marca. Em novembro deste ano, vou fazer a primeira unidade do The Art Saloon, um espaço de 830 m² localizado entre os bairros Jardins e Itaim. Vai ser um salão premium, com valores de salão premium, bem posicionado e vou atender todos os dias com uma equipe de 100 pessoas.  E a partir dessa unidade pretendo fazer a expansão com unidades com preços mais acessíveis em São Paulo e em outras capitais. Vou treinar as pessoas para levar um serviço bacana a um preço mais acessível.
Este segmento de beleza tem crescido no Brasil. Como profissional e, agora empreendedor, como analisa o setor e as diretrizes do mercado para os próximos anos? Os salões sentiram a crise econômica? De que forma?
O Brasil sentiu a crise. Em salões de beleza os profissionais que sentiram mais a crise são aqueles que têm o perfil de clientes de serviços semanais: a mulher que fazia a mão semanal passou a fazer a cada 10/15 dias, quem ia retocar o branquinho passou a usar coloração em casa. No meu caso, trabalho mais com conceito, faço mais corte e cor. É algo que a cliente, a cada quatro meses, precisa refazer (retocar o reflexo e cortar). É um trabalho mais apurado. Se a mulher faz uma escova malfeita e não gosta, ela lava e refaz, mas um corte ou cor malfeita pode estragar o cabelo. No meu caso, a clientela acabou dando opção por economizar em outras coisas e não no cabelo (corte e cor). É uma das profissões que não pode ser substituída. Um robô não pode cortar cabelo nem fazer uma escova. É uma profissão que tem um valor muito grande e nunca vai acabar.
O que não pode faltar em um bom profissional de beleza?
Dedicação com as clientes e as pessoas. Atualização, sempre olhar o movimento de mercado para fazer o trabalho o mais atual possível. E vontade de trabalhar. Você trabalha muito, fica muitas horas no salão, abdica de férias, horas com a família, da vida pessoal. E profissional que não fica no salão, não tem cliente.
Quais são os detalhes que fazem a diferença no cuidado dos cabelos?
A diferença no cuidado do cabelo é um bom produto e de qualidade, com tecnologia e boa técnica. Quando o profissional domina uma boa técnica, tem conhecimento e usa um bom produto, com certeza, o resultado vai ser bacana e o cabelo da cliente vai ficar bonito e saudável.
Antes de sugerir qualquer mudança no visual de uma mulher, o que você analisa?
Antes de fazer uma análise, tenho que entender como é o dia a dia da pessoa, seu trabalho, como ela se vê, a imagem que quer passar, o comportamento com o cabelo, se tem o perfil de fazer uma escova, se deixa secar natural, se prende, se prefere solto. Diante disso faço uma análise de formato do rosto, corpo, se é baixa, alta, se tem ombro largo, quadril pequeno, rodamoinho, para compor uma sugestão para essa nova imagem.
Cabelos da moda e visagismo. Qual dos dois deve ser seguido?
Os dois. O visagismo é algo personalizado. Cabe ao profissional dentro de uma consultoria do visagismo indicar o atual. Ninguém gosta de ficar com uma imagem ultrapassada. No meu trabalho tento fazer uma mescla do visagismo, do que melhor fica pra ela, pois o cabelo de uma atriz não necessariamente fica bonito para ela, com algo mais atual, moderno que a deixe com uma imagem atualizada.
Cabelo define estilo e comportamento?
Sim. Uma mulher com cabelo longo passa como imagem a sensualidade, a feminilidade, a delicadeza, aquele lado mais sensual da mulher. No caso do cabelo curto ele é mais forte, arrojado, despojado. Então, eu falo que, quando a cliente se encontra no cabelo, aquela imagem está de acordo com a personalidade, que muda durante a vida. O ser humano evolui e essa imagem vai acompanhando essa mudança interna. E quando ela se olha no espelho e se gosta está enxergando ali a imagem de acordo com a personalidade.
Vamos falar de tendências. O que o inverno deve trazer de novidade?
São cabelos mais curtos, entre o pescoço e os ombros, vindo com tudo. Desde o blunt cut, que é um long bob sem bico, até um Chanel desfiado. Os pixies estão com força. E as cores: o loiro está vindo com um tom mais quente, saiu aquele loiro branco. E para as morenas, um tom que é um caramelo acobreado. E um marrom com uma pitadinha de vermelho que fica superbonito e favorece todas as tonalidades de pele.
Você parece ser muito presente, como pai e marido, como faz para conciliar a agenda entre salão, programa de TV e workshops pelo Brasil? Tem descanso nos fins de semana?
Tento fazer um esforço muito grande para acompanhar meus filhos (Vinícius e Isabella). Quando atendo no salão do meio-dia às 22h, chego quase 23 horas em casa e eles estão dormindo. Então comecei a dedicar algumas horas da manhã para eles. Optei por entrar mais tarde no salão para justamente tomar café da manhã com eles, levar para a escola, estar presente. Trabalho no salão terça, quinta, sexta e sábado. Na quarta, gravo no SBT. E domingo é minha folga, mas à noite viajo para algum lugar do Brasil para dar curso na segunda. Volto na segunda à noite. É bem corrido.
Vamos falar do seu refúgio particular. Há quanto tempo mora aqui e por que a Granja Viana?
Moro há oito anos na Granja Viana. Minha esposa Carolina é granjeira, quando ela mudou para a Granja tinha 4/5 anos. Os pais dela moram há mais de 35 anos aqui. Quando casei, morava em São Paulo e percebi que todo fim de semana estava na casa do meu sogro. E era por causa da natureza, do verde da Granja, da casa com churrasqueira e piscina. Gostávamos muito disso. Aí chegou um momento que avaliamos e pensamos em mudar. Compramos o terreno e construímos a casa. Esses são os motivos: o bem-estar, o verde que a Granja tem, que praticamente não tem em outro lugar em São Paulo ou próximo, como Alphaville. Acho que os moradores são pessoas que têm a ver com o meu perfil, mais low profile, mais tranquilas. Então é possível ir ao supermercado de chinelo e ninguém ficar te olhando e te medindo. Acho que o ambiente da Granja é muito familiar, as pessoas curtem ficar em família, reunir amigos nas casas. Lembro quando eu estava fazendo minha mudança e meus dois vizinhos de lado bateram na minha porta se apresentando e oferecendo ajuda. Detalhe que morei muitos anos em um prédio no Morumbi e eu nunca nem tinha visto meu vizinho da frente. As pessoas são mais amáveis na Granja.


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