Ellen nasceu em Helsinki, em 1869. Seu pai era um pintor amador de classe alta, que proveu a ela uma educação artística de alta qualidade, incluindo a Académie Colarossi, em Paris. Depois de anos de estudos optou por viver na Itália e passar os verões na Finlândia. A pintora começou, então, a aplicar a paleta de cores do país ensolarado, de florestas, lagos e paisagens às lembranças de sua infância, uma combinação incomum e muito dinâmica que a consagrou ainda em vida como uma artista de sucesso.

A artista foi uma pessoa à frente de seu tempo. Em sua juventude já exibia um corte de cabelo curtinho e raramente fazia o que lhe era esperado. Misturava trajes femininos com masculinos, nunca se casou ou teve filhos. Rejeitando as boas maneiras da burguesia, da qual fazia parte, ela passou a maior parte de sua vida viajando e pintando. Rejeitando a temática de artistas contemporâneas, Ellen se interessava pelos mesmos temas que pintores homens tinham: retratos, paisagens, nus, e, no final de sua carreira, abstratos. Ellen foi uma pioneira. Vivendo em uma época em que artistas mulheres sofriam todos os tipos de repressões, preconceitos e não eram reconhecidas por seu trabalho, ela teve uma vida fascinante e cheia de conquistas. Seu espírito aventureiro acabou por trazer para a Finlândia estilos artísticos que despontavam pelos lugares que passava.

Um ano antes de sua morte, foi atropelada por um bonde e quebrou o fêmur, o que a deixou acamada e contribuiu para sua morte.

A carreira de Ellen como pintora começou no início de 1890, aos 20 anos, e durou até o fim de 1940, aos 84 anos.

 

Vamos Observar

Ellen Thesleff – Self-Portrait (Autorretrato), 1894-1895

Lápis e tinta sépia em papel 

31,5 x 23,5 cm 

 

O autorretrato de Ellen Thesleff é único por vários motivos. Nele, a artista consegue unir muitas de suas influências e conhecimentos em uma só obra. Conscientemente, ela usa o menor número possível de cores, conseguindo assim concentrar a atenção do espectador para a técnica usada e para o tema explorado. Apesar do desenho tradicional, mistura traços expressionistas, muito inovador para o seu tempo. Ellen tinha Leonardo Da Vinci como um de seus ídolos. Sua influência na construção do rosto fica bem clara nesta obra. O tema é o eu.  Autorretrato é um retrato em que o artista mostra o seu aspecto físico e psicológico, representando o que captou da expressão mais profunda de si próprio. O retratista revela seus traços de criador através da forma como usa as cores e a tinta, como desenha suas formas e como lhes atribui volumes e texturas.

Para esta criação, a artista utiliza somente três materiais: papel, lápis e tinta sépia. O pigmento da cor sépia, extraído de polvos, era muito tradicional e utilizado como base da maioria das pinturas da época.

A obra inteira foi criada sem blocos de cores ou cores escuras, tendo apenas um arranjo de linhas delicadas, que juntas fazem surgir uma luz misteriosa, de onde o rosto da artista emerge.

O quadro foi exibido pela primeira vez em 1894, no Salão de Arte Finlandês. Ellen, não contente com a obra, continuou a trabalhar nela por mais um ano após a exposição. Por isso, é possível ver duas assinaturas na obra. O papel usado pela artista provavelmente já tinha pequenos desenhos e rasuras, elementos que ajudam a compor o fundo e trazem mais mistério à imagem. O autorretrato foi então exibido pela segunda vez em 1895. Desta vez, recebeu muita atenção de críticos e colegas artistas. Ellen decide doar sua criação para o organizador da mostra, o então secretário de Cultura da Finlândia. Sua única condição foi que, após sua morte, a obra fosse adicionada a uma coleção pública de arte e isso foi feito.

A arte de Ellen Thesleff está muito ligada à essência humana e à força criadora que move e conecta as pessoas. Para ela, a arte era um chamado espiritual que levava muito a sério.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.