A música que dá nome ao seu disco mais recente, Raízes, fala sobre orgulho negro, mas vai além deste, pois dá visibilidade a outras vozes, como a das periferias. Que raízes você herdou pelo fato de ter nascido na Brasilândia, na zona norte de São Paulo?
Meus pais tiveram cinco filhos. Assim, herdei essa coisa de ser guerreira, de superação. Meu pai bebia e quem tomava conta de tudo era minha mãe. Aprendi a driblar as adversidades, pois além de ser mulher, sou negra de periferia e comecei cantando rap. Por isso, aprendi a não desistir. Tudo isso é a raiz para eu cantar o que canto.

Sua mãe foi professora do município de São Paulo. Dela você diz agradecer a oportunidade de ter tido uma boa formação escolar, base que atribui ao seu sucesso.
Sim, minha mãe e meu pai sempre foram pobres, porém foram atrás de uma escola particular com bolsa de estudos, onde estudei da primeira à sétima série. Andava 45 minutos de ônibus para estudar. A gente não pagava a mensalidade, mas eu convivia com realidades que não tinham nada a ver com a minha. Hoje a minha linha de raciocínio, a forma como escrevo, tudo tem a ver com esta oportunidade que tive graças a eles. A partir da oitava série não havia mais bolsa e comecei a trabalhar e estudar numa escola estadual. Minha mãe era educadora infantil e trabalhava numa creche municipal, ela fez questão de nos dar uma educação de qualidade. E, depois dos 40 anos, ela se formou em pedagogia. Eu ainda não cheguei a fazer faculdade, pois investi meu tempo na formação musical. Mas dois dos irmãos fizeram. Se eu fizesse um curso superior hoje seria ligado à arte.

Quando você começou a cantar?
Sou evangélica e meu lugar de contato com o mundo era a igreja. O momento que eu mais gostava era quando, a partir dos 12 anos, colocava minha voz. As pessoas me ouviam cantar e diziam “Que voz bonita!”. Isso foi alimentando meu interesse. Na rua, eu fazia a alegria da galera cantando músicas. Como éramos evangélicos, não tínhamos TV em casa. A única coisa que a gente tinha era o rádio – a gente acordava com o Zé Béttio, ouvia os sucessos da Mariah Carey, da Whitney Houston. Era o que eu ouvia e imitava. Gravava as músicas e as cantava do jeito que eu entendia, inglês no embromation.

Quando você começou a cantar?
Aos 15 anos, um amigo de escola me convidou para participar de um grupo de rap. No nosso último show a gente abriu para o RZO. Quando eles viram nossa apresentação, me deram um cartão me convidando para cantar.

Você não só interpreta canções, como também compõe.
No início, compor era muito natural para mim. Sempre me dei muito bem em redação e, na aula de português, eu sempre era chamada para lê-la em voz em alta. Escrevia rap, músicas românticas – que adoro! Eu lia um livro de poesias e fazia uma canção. Em 2003, gravei com Charlie Brown Jr. o rap Não É Sério, que estourou! Contudo, o tempo vai passando e a gente vai tentando compor o que acha que vai tocar na rádio – e acaba saindo de uma forma que não é verdadeira. Em 2008, propus um disco estilo Beyoncé de balada e a gravadora não gostou, mas também não me ajudou a melhorá-lo. Aí, tive um bloqueio criativo. Até 2012, não escrevi nada. Às vezes, o não bloqueia a gente. Hoje que estou na White Monkey Recordings vejo como uma gravadora pequena é melhor, pois eles me ajudam em todo o processo. São pessoas que tiram o melhor de você. Foi aí que me encontrei e entendi o que as pessoas querem da Negra Li. O que só eu podia entregar. A gente conseguiu nesse trabalho fazer isso. Vamos voltar para sua raiz, sua identidade, suas referências, voltar para o rap. O disco novo [Raízes] é como se eu recomeçasse – até então eu estava somente fazendo shows. A gente foi de Rael a Seu Jorge. Amo a liberdade de transitar por vários gêneros.

Versatilidade parece ser seu nome. Você também atua, certo?
Sim, atuei no filme de Tata Amaral, Antônia, filmado em 2004, que no ano seguinte virou um seriado homônimo na TV Globo, sendo a primeira temporada em 2005 e a segunda em 2006 [ela fez a personagem Preta Maria dos Santos]. Também atuei em 400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado [como Geni]. O último projeto que fiz foi o Z4 [foi Fátima], uma série adolescente que passou na SBT. E uma participação no programa novo da Multishow do Paulinho Gogó, como a ex do dono do lar, a mãe do filho que mora com ele. Em musicais, fiz a Rainha Branca no Chapeleiro Maluco, em 2012, a Sofia era novinha. E em 2014 a Maria Madalena no musical Jesus Cristo Superstar. Acho que domino um pouco melhor a situação do palco como cantora. Quando atuo, preciso de mais concentração, é mais desafiador para mim. Como não faço sempre, é uma arte que estou dominando, por isso sempre que posso conciliar aceito para não deixar morrer. A verdade é que se você ama, não consegue ficar sem, acaba dando um jeitinho. A arte é uma forma de respirar. Se a gente não faz vai morrendo por dentro aos poucos.

Você nasceu em 17 de setembro de 1979. Me disseram que você curte horóscopo, é verdade?
[Risos.] Nunca fui de seguir signos, mas de uns anos para cá sigo, pois as características da personalidade batem muito. Como virginiana, sou crítica, gosto de dar opinião, sou sensata – as pessoas adoram meus conselhos. Sempre fui mais caseira, mais mãezona e sou uma boa companhia. Mas sou perfeccionista e sofro quando as coisas saem fora do planejado. Cada vez sofro menos, já foi pior. Agora eu driblo os problemas. Lá em casa, só o Noah escapou de ser de virgem – ele nasceu em 25 de julho de 2017, é leão. Carlos e Sofia são virginianos também, ele de 11 de setembro; ela de 25 de agosto de 2009. Como Noah foi planejado, a gente não se segurou muito. Pensamos “vamos fazer logo de uma vez” – aí nasceu de leão [risos].

Você completou dez anos de casamento em 2018 com o músico Carlos Crésio Júnior, conhecido como Júnior Dread. Como se conheceram?
Fui solista do coral da Universidade de São Paulo de 1999 a 2002. Uma amiga que fazia o coral da USP perguntou: por que não entra lá nas Clínicas? Fui lá e aprendi a dividir vozes, fazer exercícios de vocal. A gente se conheceu lá, eu entrei e ele entrou em seguida. Ambos tínhamos acabado de terminar uma relação. Conversa vai, conversa vem, na saída até o ponto de ônibus. Uma vez fui assisti-lo no show, e fomos marcando encontros até que começamos a namorar em 2004. O que me encantou nele foi a simplicidade. Ele sempre teve muita sensibilidade como artista, como pessoa. Era um bom ouvinte, um cara que tinha horas de assunto, de papo. A inteligência dele também me chamou atenção. Autodidata, aprendeu a falar inglês fluente sozinho. Além disso, escreve as canções dele. Fora que ele é muito bonito. Eu sempre pedi para que Deus me mandasse um homem que fosse muito bonito. “Você me garante um galã em casa para eu não olhar para os da TV.” Aí Deus me ouviu. O interessante é que as pessoas bonitas de verdade agem como se não o fossem.

Você continuou a se aperfeiçoar musicalmente depois do Coral da USP?
Estudei com muito afinco para entrar nos musicais. Não foi fácil. Para passar no teste para Maria Madalena tive aula de canto de domingo a domingo. Estudei música até ficar grávida do Noah, que está com 2 anos. Ia lá em Pinheiros e estudava 3 horas por dia. Aprendia piano também. Parei temporariamente, retornarei em agosto.

Juntos, você e seu marido têm dois filhos: Sofia Kymani e Noah Malik. Por que escolheram esses nomes?
Gostamos de nomes sonoros, curtos. Para minha filha, escolhi Sofia. Eu experimentava nomes pela sonoridade, como se ela já existisse. Foi só aí que fomos ver o significado depois, sabedoria. E ela realmente veio dessa forma. Vai fazer 10 anos e já é sábia. Ela pergunta, questiona, dialoga conosco. Percebo que ela tem muito do nome dela. Quando perguntei que nomes masculinos Carlos gostava, Noah [Noé em inglês], bateu igual. Significa manso. Já o segundo nome deles é sempre uma escolha do Carlos, que gosta muito dessa coisa africana. Eu gostei da combinação. Sofia Kymani e Noah Malik.

Por falar em Noah, você parou recentemente de amamentá-lo, com quase 2 anos.
Terminei de dar mamar para ele em junho. Com Noah valorizei um pouco mais esse momento. Sofia amamentei até 10, 12 meses, e disse já deu. No Noah eu pensava que era tão necessário para ele… Eu estava mais madura e a gente tende a desacelerar um pouco, de ter o corpo de volta, a liberdade de volta. Eu soube aproveitar um pouco mais.

Como você é como mãe?
Tudo o que puder fazer para estar perto das crianças, faço. Vou no último voo que der tempo de chegar e volto no primeiro que der para partir. Faço questão de estar presente na vida deles. Vejo mulheres que têm de deixar a criança muito bebê na creche e sei que tenho o privilégio de meu trabalho. Apesar de não ter rotina, também não tenho o dever de bater cartão. Então posso estar perto de meus filhos, enquanto eles estão crescendo e sou muito grata a Deus por isso.

O Carlos te ajuda com a casa e com os filhos?
Meu marido ajuda muito. Ele é músico, leva para escola, busca, ajuda a trocar fralda, conversa muito com nossa filha sobre a vida, sobre as coisas. Ele é um excelente pai. No meu trabalho, a gente se ajuda, ele facilita em algumas coisas – quando vou trabalhar, ele fica com as crianças. Também posso contar com meus sogros. O Carlos ainda é bom para editar vídeos, me ajuda com dicas. Neste disco novo, ele me ajudou com a música que escrevi com Seu Jorge, Eclipse, e Malandro Chora.

Como consegue conciliar a vida conjugal com o marido, a maternagem e a vida profissional?
Sinceramente tem hora que eu me pergunto como é que consigo! [Risos.] Porque tem momentos que me sinto uma super-heroína. Não é fácil obter perfeição, êxito em tudo o que a gente faz. Tem hora que eu deixo a desejar. Mas aprendi a me cobrar menos. Às vezes, minha filha começa a contar uma história, perco o fio da meada e não me sinto culpada, porque isso não adianta nada. Tem de se saber lidar com essas frustações de uma forma divertida. Muitas vezes dou risada de minhas falhas, de minhas distrações. Ninguém é perfeito.

Você tem mais de 600 mil seguidores no Instagram, recebe mais de 2 mil curtidas quando posta uma foto com sua filha no Facebook. Como cuida de suas redes sociais?
A maioria dos posts, 98%, sou eu quem faço. Só quando tem de entregar algo de publicidade, que algumas já vêm com o texto pronto. Às vezes sinto falta de ter algo mais voltado à música, ao trabalho. Minhas coisas são muito orgânicas. Família e saúde, porque eu gosto muito de fazer exercícios físicos e prezo muito a vida em família. Gosto de mostrar para as pessoas o quanto é gostoso viver em harmonia e valorizar o amor que vem da família. Eu sou assim, mas também acho muito lindo a pessoa que decide não ter filhos. Acho isso muito maduro. Afinal, filho não é brincadeira, é uma preocupação para a vida inteira. Então, não se faz filho por fazer. Deixar de fazer um filho também é uma forma de amor. Aliás, é uma forma de amar aquilo que nem se teve.

Como cuida do corpo e da mente?
Vou à nutricionista, faço academia regularmente, eu me alimento muito bem. E é isso. A única coisa que não consigo fazer muito bem é dormir, sou superansiosa. Gosto de estar acordada e durmo já querendo acordar para viver. Gosto de comer bem em casa, sempre comida balanceada, com pouco sal, pouco calórica, me faz bem. Como não tenho tempo, tenho uma pessoa que me ajuda com a cozinha, uma alma abençoada pela qual agradeço a Deus. Mas minha sopa é famosa: quando faço até reclamam que fiz pouco. Vai caldo de feijão, brócolis, cenoura, couve, batata, tudo o que eu tiver de legumes – faço uma mistureba – e pedacinhos de frango. Bato no liquidificador, tempero só com coisas naturais – alho, salsinha, cebola, coentro, gengibre –, aí ponho macarrão.

Você tem três discos solos até agora: Negra Livre (2006), Tudo de Novo (2012) e Raízes (2018). Quais projetos você está trabalhando?
É muito gostoso fazer parte de gerações diferentes. Comecei numa época que nem tinha internet, ainda tinha CD e locadora de DVD. Na minha época se fazia CD de quatro em quatro anos, era uma delícia. Depois do lançamento se fazia turnê, então se parava para fazer outro disco. Hoje a informação chega muito mais rápido. Alguns fãs que tenho são nativos digitais. Por isso, esse novo exercício de lançar single novo com videoclipe, muito rapidamente, para falar com meu público. Essa liberdade de lançar algo no momento que você quer lançar é muito legal. Afinal, daqui a pouco não está mais na moda este ou aquele tipo de batida. Agora estou me envolvendo com projetos na internet como o Poesia Acústica #7 [no ar desde meados de 2017, é a maior marca do rap acústico, com mais de 830 milhões de visualizações no canal] e Favela Vive 3, que juntam artistas de rap para fazer participações. Foi assim que retornei à internet para me conectar com esse público jovem, que gosta do rap. Para mim é muito gostoso ter essa sensação de recomeçar num ambiente diferente. Dá aquela coisa boa, inspiradora, do começo da carreira.

O que a Negra Li de hoje diria à pequena Liliane de Carvalho?
Keep calm. Mantenha a calma. Respira e vai, se joga. Eu fui uma menina muito tímida durante muitos anos. Não de não saber conversar com as pessoas, mas faltava uma ousadia que hoje estou trazendo para mim. O conselho seria “não pare mais de ter coragem, saia da zona de conforto. Isso vai ser estimulante para você. Vai permitir você viver com uma intensidade maior, sua arte vai ser passada e pegar pessoas de forma diferente”.

A Liliane de Carvalho imaginava que um dia se tornaria a Negra Li?
Acho que sim. Quando era criança sempre fui muito de imaginação, aquela coisa de sonhar acordada, de acreditar naquele meu sonho. Quando era bem pequena eu ficava no meu quarto, com minhas bonecas, pegava um desodorante para fazer de microfone e um xale e já fazia do meu quarto aquele mundo. Uma vez eu saí do quarto toda feliz, cheguei à cozinha e vi que minha mãe estava com a mão na testa, olhando para uma porta de armário vazio aberta, preocupada que não tinha o que nos dar de comer. Vi o desespero no olhar dela. E disse: “Mãe, um dia eu vou ser muito famosa e vou te ajudar”. Por um tempo, perdi aquela certeza, de 2008 para 2014 – foram os anos que fiquei sem gravar. Eu achava que era fraca, que não cantava tudo isso, que não tinha ouvido absoluto, que desafinava…  Fiquei achando que era ruim, que não era tão boa assim. Então aquela criança já tinha certeza do que seria e foi isso que eu atraí de volta para mim. Acho bacana estar retomando essa confiança. Depois do CD Tudo de Novo fiquei mais animada, comecei a achar um novo sentido para minha vida profissional.

Para finalizar, o que você acha de morar na Granja Viana?
Queria sair da Brasilândia devido à exposição. Logo cedo já tinha gente batendo no meu portão, querendo CD ou conversar. Aí fui morar num apartamento no Jardim Peri Peri, mas não me adaptei porque sempre morei em casa grande com quintal. Do Butantã, fui vindo para cá. Eu senti necessidade de ir para um lugar que tivesse privacidade, segurança, aí dei sorte e, em 2007, encontrei a Granja Viana. Foi a melhor escolha que poderia ter feito. Eu lembro que vim com o corretor atrás de uma casa e acabei ficando com a do lado. É maravilhoso poder acordar com a paz e a tranquilidade daqui. Sou muito feliz neste bairro. Meus filhos são privilegiados, mas eu sempre os levo à Brasilândia para também conhecerem a realidade bem diferente do morro cheio de pedra onde nasci.

Vocês têm amizade com outros músicos que aqui moram, como a Luciana Mello?
Sim, nossos filhos faziam natação na mesma academia, sempre trocávamos figurinhas. O Black Alien acabou de se mudar para cá, Leila Moreno com quem já gravei. No mesmo condomínio que eu, está o Bola, do Pânico.

Que mensagem final você gostaria de passar para a(o)s leitora(e)s?
Acredito que podemos mudar para melhor o nosso cotidiano, o que está próximo e o que está longe, com pensamentos e ações práticas. E com isso mudamos a sociedade, nosso universo. Para isso, é preciso dar o melhor da gente. Temos de olhar o coletivo, afinal somos todos seres humanos, todo mundo é igual. Por isso é preciso nos unir, ter uma força coletiva, gostosa.

 

Por Mônica Martinez