Françoise Gilot nasceu em Paris, em 1921. Sua mãe era artista, o pai, agrônomo, que insistiu que a filha estudasse Direito. Formou-se pela Universidade de Sorbonne, em 1938. Enquanto cursava a faculdade, estudou arte nas horas livres, até, eventualmente, abandonar de vez o Direito.

Ficou conhecida como amante e musa do artista Pablo Picasso, e mãe de dois dos seus filhos, Claude e Paloma.

Conheceu Picasso em 1943. Na época, ela tinha 21 anos e ele, 61. Durante os cerca de dez anos de vida em comum (que descreveu em seu livro de memórias Vida com Picasso, de 1964, um best-seller), Françoise frequentou um grupo do qual fazia parte Henri Matisse, embora hoje ela afirme que sua arte não sofreu nenhuma influência dos grandes artistas com quem conviveu.

No outono de 1953, François decidiu pôr fim ao relacionamento com Picasso; ela foi a única mulher a deixar o pintor. Ele então a expulsou da cidade e fez com que o mundo das artes de Paris se voltasse contra ela, contou Dorothea Elkon, a proprietária da galeria onde expõe em Nova York. Em 1955, casou com o artista francês Luc Simon. A união durou poucos anos e gerou uma filha, Aurelia. Em 1970, casou com o virologista Jonas Salk e viveu com ele até sua morte, em 1995.

Em 75 anos de dedicação à arte, Gilot realizou mais de 5 mil desenhos e 1.600 pinturas. Nas últimas quase cinco décadas, há pelo menos uma exposição por ano com suas obras. A maioria delas se encontra em coleções particulares, outras em museus famosos como o Metropolitan de Nova York.

 

 

Vamos observar

Autorretrato ao céu azul, 1952

Óleo sobre painel

65 x 53,5 cm

Coleção particular de David C. Copley, La Jolla, Califórnia

 

A obra Autorretrato ao céu azul foi criada em 1952, um ano antes da artista se separar de Picasso. A obra, estimada em torno de $25.000,00, foi arrematada por um colecionador da Califórnia por mais de $500.000,00!

Gilot sempre se esforçou para manter uma presença autônoma no mundo das artes. Seu estilo de pintura foi se modificando e evoluindo ao longo dos anos, transitando por vários estilos, até encontrar o seu próprio. Apesar de sempre insistir que não se deixava influenciar pelo marido, nesta obra podemos ver claramente sua influência.  Autorretrato é uma obra cubista, estilo fundado em Paris por Picasso e seu amigo Braque. As linhas grossas e coloridas, as formas do rosto transformadas em formas geométricas e as cores brilhantes, remetem diretamente ao trabalho de Picasso. A arte cubista é considerada uma “arte mental”, em que cada aspecto da obra deve ser analisado e estudado de modo individual. Cubos, cilindros e esferas são algumas das formas usuais do estilo, que se distingue da arte abstrata pelo uso concreto de todas as formas.

Mas como não se influenciar por Picasso, na época o maior e mais celebrado artista vivo? Um dos maiores gênios da pintura contemporânea, ele transpôs para as telas seu fascínio pelas mulheres, exaltando sensualidade e erotismo. Protagonizou inúmeras conquistas, foi o namorado amoroso, o amante infiel e o marido cruel. Suas mulheres passavam de deusas, quando apaixonado, a monstros torturados, no fim da relação. Poucas sobreviveram ao término do romance. Duas se suicidaram, algumas enlouqueceram e outras caíram no completo esquecimento. Mas, de uma forma ou de outra, todas influenciaram suas criações, especialmente as sete mulheres com quem conviveu. Alguns estudiosos afirmam que o trabalho do pintor está tão relacionado ao seu apego pelo sexo oposto, que as fases de sua carreira poderiam ser definidas de acordo com as amantes com quem esteve envolvido.  Assim, o neoclassicismo dos anos 1920 são os “anos Olga”, as banhistas do começo dos anos 1930 marcam a “era Marie-Thérèse”, os retratos do fim dos anos 1940, o “período Françoise”.  A artista não somente sobreviveu a Picasso – hoje, aos 97 anos, é cheia de vida, continua a pintar e tem uma carreira brilhante. Sobre sua relação com Picasso disse: “Eu sabia que ia ser uma catástrofe, mas uma catástrofe que valeria a pena viver. Arrependimento não passa de desperdício, além disso, é muito mais interessante viver algo trágico com uma pessoa especial, do que uma vida maravilhosa com alguém medíocre”.

Se você analisar toda a obra dela, notará todas as pessoas de sua vida – os amigos, os homens, os filhos crescendo, os lugares que conheceu. É possível perceber a emoção que sentiu, como reagiu, e o que lhe atraiu os olhos ou a lembrança. E assim é a arte, um diário em imagens, um espelho da vida.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.