Rafaela Gomes de Almeida, de apenas 5 anos, estava fazendo uma atividade na escola, utilizando jornais. Em uma das páginas, tinha a foto do presidente Jair Bolsonaro. Foi então que começou a discussão sobre política na sala de aula. Já no período da tarde, Rafa foi conversar sobre política com um de seus colegas debaixo de uma árvore. Ela contou tudo isso para sua mãe, Rosemeire Gomes da Silva, a Rose.

“Aí falei, nossa, Rafa, que interessante, e como foi essa conversa, você gostou? Ela disse que gosta muito de conversar com esse amigo sobre coisas da vida. É impressionante como as crianças encontram sentido em suas experiências”, disse. Para Rose, foi importante sua filha compartilhar com o amigo um pensamento que ambos reprovavam: sobre a liberação da arma de fogo.

Dentro de casa, Rose relata que o assunto ‘política’ nunca foi um tabu. A conscientização, segundo ela, já começa desde cedo. “Isso vem da conscientização que a gente vem fazendo dentro de casa. Eu pego situações corriqueiras da nossa vida, do dia a dia, e vou fazendo comparações”, disse.

Para o arteterapeuta especializado em questões derivadas das interações familiares, Carlos Habe, falar de política dentro de casa com os filhos é muito importante. Muitas vezes, segundo ele, os pais preferem evitar falar de assuntos mais complexos, ou por terem a ideia de que as crianças não vão entender determinado tema mais ‘espinhoso’, ou para preservá-las emocionalmente.

Mas Carlos ressalta, no entanto, que as crianças estão inseridas no mundo e a qualquer momento podem tomar contato com assuntos relacionados à política, seja por meio de um programa de TV, escutando uma conversa alheia ou vendo manifestações nas ruas.

No caso de Rafa, que tem 5 anos, o especialista explica que é justamente nessa idade que começam a surgir essas dúvidas e curiosidades devido ao convívio social na escola. “De um modo geral, o recomendável é utilizar uma linguagem simples, objetiva e sem carga emocional excessiva ou juízo de valor moral tendencioso.”

Carlos lembra também que os pais não devem antecipar e introduzir o assunto ‘política’ antes de surgir a demanda por parte da criança. “Por isso é importante levar em consideração a adequação da linguagem a sua faixa etária, respondendo as perguntas dos filhos, utilizando referências e exemplos que eles entendam”, sugere.

Rose com sua família. Foto: Arquivo pessoal

A INFLUÊNCIA DOS PAIS NO COMPORTAMENTO DOS FILHOS

Com o filho mais velho, de 17 anos, não foi diferente. Rose conta que Reinaldo sempre observou suas manifestações dentro de casa relacionadas a política. A busca pela justiça sempre foi incessante de sua parte e, para isso, não faltaram exemplos para que o comportamento dos filhos, do lado de fora, fosse o mais adequado possível.

“Acho importante aproveitar os exemplos que a vida nos proporciona no dia a dia, são excelentes oportunidades para falar sobre o tema e ainda inserir os valores que são essenciais para todo ser humano, e não só para nossa família”, posiciona.

Mas a influência dos pais no comportamento dos filhos não é tão simples quanto parece. Carlos Habe lembra que filhos podem tanto reproduzir como negar e reagir a um modelo de comportamento dos pais. “Além disso, e como já foi dito, temos de levar em consideração que as crianças também sofrem a influência das outras pessoas com as quais convivem e de outros contextos fora das relações familiares.”

O arteterapeuta ressalta que é incerto afirmar que a criança que recebe esses ensinamentos dentro do lar será um adulto politizado que saiba reivindicar seus direitos. Mas ele acredita que quanto mais os pais estimularem a autonomia de seus filhos e acolherem seus questionamentos e suas dúvidas, maior será a probabilidade dessas crianças se tornarem adultos que sabem se manifestar de forma respeitosa socialmente.

“Adultos que saberão ouvir opiniões divergentes, e que possuem interesse em conhecer mais sobre seus direitos e obrigações sociais”, conclui.

CRIANÇA NÃO NASCE PRECONCEITUOSA

Um vídeo que mostra o encontro entre duas crianças de 2 anos viralizou na internet recentemente. Os amigos Maxwell e Finnegan correram um em direção ao outro e se abraçaram, comovendo os pais e, claro, todos que assistiram à cena. O caso aconteceu em Nova York (EUA), no mês passado.

As crianças se tornaram melhores amigas depois que os pais se conheceram em um restaurante de Nova York e desde então são inseparáveis. Elas estavam sem se ver havia dois dias, quando aconteceu o reencontro filmado pelo pai de Maxwell, Michael Cisneros. O post teve milhares de visualizações e compartilhamentos por todo mundo.

“Com todo o racismo e ódio acontecendo, acho que é um vídeo muito bonito”, afirmou Michael em entrevista à emissora americana WPIX. “É ótimo espalhar o amor e mostrar esse tipo de amor e beleza no mundo”, acrescenta.

A mensagem central do vídeo, para o arteterapeuta Carlos Habe, foi o exemplo de afeto e de uma atitude “não discriminatória” por parte de crianças mais novas. Segundo ele, essa cena serve de alerta para pensarmos a respeito sobre o que vai influenciar essas crianças em relação a construção de seus valores morais até elas chegarem à idade adulta.

De acordo com o especialista, apenas falar sobre racismo e preconceito dentro de casa com os filhos não é o suficiente. “Os pais também precisam ser bons exemplos de respeito às diferenças através de suas atitudes cotidianas, demonstrando respeito com todos, proporcionando oportunidades para os filhos interagirem com diversos grupos raciais, culturais etc., além de dar acesso a produções artísticas e culturais provenientes de diferentes grupos sociais”, alerta.

A criança, ainda de acordo com Carlos, não nasce racista ou preconceituosa. Boa parte do comportamento e dos valores morais, segundo ele, são construídos em um longo processo que começa desde que essa criança nasce até mais ou menos os 10, 11 anos de idade, quando ela chega até sua fase de autonomia moral. “E isso acontece a partir da interação dela com os diferentes ambientes sociais e na convivência com os outros – principalmente com os adultos mais próximos que acabam servindo de referência”, conclui.

Por José Rossi Neto