Maria das Dores, 52, foi diagnosticada com câncer de mama em 2016. Hoje fazendo tratamento por via oral, na época ela enfrentou sessões de rádio e quimioterapia para se curar, pois o câncer já estava em um nível “bem agressivo”. Mas não foi por descuido que chegou nessa situação.

Pelo fato de ter perdido a mãe com o mesmo problema, Maria conta que sempre procurou se prevenir. Na época, moradora do bairro Parque Miguel Mirizola, em Cotia, ela disse, no entanto, que seu principal obstáculo foi a dificuldade para conseguir fazer exames e passar pelo médico.

Maria conta que levou, entre as mudanças de médicos e o tempo de espera para realizar exames específicos, cerca de dois anos. Foi quando descobriu que tinha um nódulo no seio.

Por recomendação de duas amigas, Maria foi até o Hospital Regional de Cotia, onde foi solicitado “exames com urgência”. “Em menos de dois meses, fui encaminhada para o [Hospital] Pérola Byington. Lá eu fiz a biópsia e descobriram que eu estava com câncer bem agressivo. Fiz a cirurgia e todo o procedimento para me tratar”, relata.

Para ela, a demora para realizar o exame e a falta de estrutura na unidade de saúde foram os fatores principais que contribuíram para a doença.

“Eu, graças a Deus, fui incentivada por amigas a procurar imediatamente um médico. Tive a oportunidade de fazer um tratamento mais rápido possível. Mas e aquelas que ainda estão na fila? Que não tiveram essa oportunidade ainda de passar no médico? É maravilhoso fazer campanha, incentivar, mas precisa ter também hospitais adequados e aparelhos para fazer esses exames”, critica.

Além do Hospital Regional de Cotia, onde Maria das Dores fez o exame, na rede municipal há apenas um mamógrafo, que fica no Setor de Diagnóstico por Imagem, na UBS Atalaia. De acordo com a prefeitura, a oferta atual de exames no município, com a capacidade de 790 mamografias por mês, “é suficiente para atender toda a demanda da cidade”.

Quanto antes, melhor

Para a ginecologista Letícia Taufer, quanto antes diagnosticado o câncer de mama, é melhor para o tratamento. “Quanto mais tempo se passa entre aparecer a lesão e o diagnóstico e tratamento, pior a resposta e chance de cura. O ideal é fazer diagnóstico precoce, antes de aparecer nódulo palpável”, explica.

Quando diagnosticado em seu estágio inicial, o câncer de mama pode ter mais de 90% de chances de cura, além de permitir tratamentos menos agressivos e maior possibilidade de preservação da mama. No ano 2000, 17,3% dos casos eram diagnosticados nos estágios iniciais, e, em 2015, o percentual subiu para 27,6%.

E a melhor forma de identificar um câncer de mama, segundo a doutora, é através da mamografia. Segundo ela, hoje em dia existem outros exames, como a tomosíntese e a ressonância, mas esses são complementares e indicados em casos específicos e, em geral, após triagem com a mamografia.

E quando fazer a mamografia? A doutora Letícia explica que ela deve ser realizada a partir dos 40 anos, a cada dois anos e, anualmente, após os 50 anos. “De preferência, deve ser feita uma mamografia aos 35 anos, que é chamada de mamografia de base e serve como comparação com as seguintes. Em casos específicos, principalmente em quem tem história familiar de câncer de mama, a mamografia pode ser feita antes dessa idade”, reforça.

“Nunca desistir”

A vida da técnica de enfermagem do Hospital Regional de Cotia, Patrícia Prado, começou a mudar a partir de maio deste ano, especificamente no dia 22. Após ter descoberto uma mastite (inflamação das glândulas mamárias) na mama esquerda, ela fez um exame de mamografia, onde foi constatado um nódulo na mama direita.

Já com estado bastante grave, Patrícia foi encaminhada para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e passou por todo um trâmite até iniciar o tratamento.  Após ter feito uma série de exames, ainda foi constatado tumores em seu abdômen que, segundo ela, serão eliminados neste mesmo tratamento.

A técnica de enfermagem Patrícia Prado. Foto: Arquivo pessoal

Oito ciclos de quimioterapia. Essa é a atual batalha de Patrícia. “Não é fácil. Exige bastante da gente. É cansativo, temos reações diversas. Eu prefiro evitar essa parte de estresse e procuro contornar, porque problemas nós vamos ter, mas precisamos procurar fazer o melhor para o tratamento”, disse.

E Patrícia tem elementos que contribuem para manter a calma e o equilíbrio em um momento tão delicado como esse. “Muita oração, fé, sabedoria e otimismo para conseguir lidar melhor com esse problema. Deixo isso para todas as pessoas., para se autoexaminarem, irem atrás, se cuidarem. Não podemos abandonar nossa vida, não podemos abandonar nada”, detalha.

E a frase ‘não desistir’ é como um mantra para a auxiliar de enfermagem. “Eu debato contra o câncer, eu digo sempre que ele não me pertence. Vai nascer meu cabelo de novo. Não vou desistir. O importante é nunca desistir.”

A moradora de Carapicuíba, Ana Cristina. Foto: Arquivo pessoal

Um pedido de ajuda

Ana Cristina mora em Carapicuíba. Mãe de três filhos, foi diagnosticada com câncer de mama há mais de dois anos. Hoje com 36 anos, Ana conta que desde os 19 sentia um caroço que a incomodava muito. Na época, ela fez um exame e constou que era um ‘nódulo de gordura’, que chegou a sumir, mas depois voltou e com mais agressividade.

Desempregada e pagando aluguel, Ana já passou por duas cirurgias e tem mais duas para fazer. Com tantas necessidades e despesas, ela clama por ajuda.

“Por favor, peço ajuda, pois ainda não tive retorno nenhum do governo. Tenho diabetes, preciso de fita e agulha para o controle; necessito de verduras e legumes; mantimentos e roupas para as crianças e até para mim. Por favor, me ajudem.”

O trecho acima foi publicado em um grupo da Granja Viana no Facebook. Formado por mulheres granjeiras, o grupo está coletando doações. Para quem puder ajudar, um dos pontos de doação é no Buffet Tanti Auguri, na rua Adib Auada, 280, em frente ao Shopping Granja Vianna, no horário das 8h às 16h.

Ações de prevenção em Cotia

Neste mês, o município de Cotia vem intensificando as ações de diagnóstico precoce do câncer de mama. As mulheres que tiverem idade entre 40 e 69 anos poderão agendar a mamografia, mesmo que não tenham pedido médico. O exame será realizado no Setor de Diagnóstico por Imagem municipal, localizado na UBS do Atalaia.

De acordo com a Secretaria de Saúde, o objetivo da ação é facilitar o acesso, ampliar a oferta e realizar o diagnóstico precoce da doença.

Além da intensificação na realização de mamografia, a pasta informou que abrirá seis UBS no próximo dia 26, das 8h às 13h, para coleta de Papanicolau em mulheres com idade entre 25 e 64 anos que estejam com o exame atrasado.

Nesta ação também não será necessário pedido médico, basta ser moradora de Cotia e comparecer à UBS Atalaia, Arco-Íris, Caucaia, Mirizola, Portão ou Rio Cotia e apresentar RG, comprovante de endereço e cartão do SUS. O atendimento será feito mediante a distribuição de senha e as vagas são limitadas.

Por José Rossi Neto