
A CasaCor nasceu da vontade de transformar o morar em poesia. Inspirada na mostra argentina Casa Foa, ela foi trazida ao Brasil com o desejo de reunir o que há de mais sensível e criativo na arquitetura, no design de interiores e no paisagismo. Ao longo destas 37 edições, tornou-se uma das maiores e mais respeitadas mostras de arquitetura das Américas, reunindo profissionais consagrados e novos talentos.

O que o público costuma ver é o resultado final: espaços belos, envolventes, surpreendentes. Mas por trás de cada ambiente, existe um processo intenso de curadoria, pesquisa, convite e criação. Os arquitetos e designers que integram a mostra são selecionados com cuidado, com base em sua trajetória, originalidade e coerência com a proposta do ano. A partir de um open house, são definidos os espaços e os profissionais convidados começam, com o apoio de parceiros e patrocinadores, a conceber ambientes que proponham experiências.

Em 2025, ela acontece no Parque da Água Branca, um local tombado, carregado de memória, enraizado na paisagem urbana de São Paulo e na vida cotidiana de quem vive ao seu redor. Instalar a mostra neste parque não é apenas uma escolha logística — é uma decisão simbólica. Os edifícios históricos do parque, que estavam há anos fora de uso, foram cuidadosamente recuperados para que pudessem receber os ambientes criados pelos profissionais convidados.

O trabalho dos arquitetos, então, se dá em diálogo direto com a história. Projetar em um espaço tombado exige respeito. Não se trata apenas de intervir, mas de compreender as camadas do lugar, os ritmos do entorno, a presença das árvores, da luz filtrada, dos sons que vêm de fora. A Casa Cor 2025 se constrói, assim, nesse entremeio: entre o que já existe e o que ainda pode ser imaginado.

O Parque da Água Branca é mais do que um cenário — ele é parte ativa da experiência. Para a comunidade que vive nos arredores, ele é ponto de encontro, memória afetiva, espaço de respiro em meio à cidade. Para os arquitetos escolhidos pela curadoria da Casa Cor, trabalhar neste espaço é um privilégio: trata-se de habitar, mesmo que temporariamente, um lugar vivo, com identidade própria.
O tema deste ano, “Semear Sonhos”, convida todos — criadores e visitantes — a imaginar futuros mais poéticos, sustentáveis e afetivos. Em tempos de cansaço sensorial e pressa cotidiana, sonhar se torna um ato radical. Cada ambiente da Casa Cor 2025 é pensado para inspirar esse gesto: o de desacelerar, contemplar e imaginar outras formas de viver.

A CASACOR não mostra só o que está em alta no design de interiores, mas também o que as pessoas estão buscando para suas casas hoje. E, pelo que a própria divulgação do evento aponta, algumas tendências estão bem claras este ano.
A primeira é a conexão com a natureza. Materiais como pedra, madeira e fibras naturais aparecem em móveis, acabamentos e objetos. As formas orgânicas continuam fortes e ajudam a criar ambientes mais acolhedores e fluidos.

A sustentabilidade também ganhou força — agora mais prática do que discurso. Muitos projetos apostam em reuso de materiais, construções reversíveis e escolhas conscientes, pensando não só na estética, mas no longo prazo.
A tecnologia aparece de forma discreta. Nada de exibir aparelhos: o foco é integrar
iluminação, som e automações sem interferir no visual do espaço.
E, por fim, a personalização. Cada ambiente quer contar a história de quem vive ali. Isso aparece em objetos afetivos, livros, cores escolhidas com intenção. A casa ideal hoje não é perfeita — é a que tem sentido pra quem mora nela.

Afinal, viver cercado de equilíbrio, arte, natureza, livros, texturas e formas harmônicas — é uma forma possível de habitar o mundo. A casa, mais do que um abrigo, é extensão da alma. Estar em espaços que respiram beleza e criatividade é um direito transformador.
Durante a visita, vale observar que cada ambiente apresenta uma ficha técnica logo na entrada, com nome do arquiteto, conceito, fornecedores e equipe de execução. Os QR Codes trazem informações até sobre a neutralização de carbono. Cada arquiteto ou escritório projeta e monta seu espaço com recursos próprios ou por meio de parcerias. É um investimento significativo — tanto financeiro quanto em visibilidade.

Fora do circuito comercial da mostra, a CASACOR 2025 dedica o último andar do prédio à parceria com o Museu das Culturas Indígenas. O espaço é ocupado por artistas, lideranças e curadores de diferentes povos originários, que apresentam modos de habitar, narrativas e expressões que escapam às lógicas tradicionais do design. A proposta vai além da representação: propõe uma escuta real e o reconhecimento de outras formas de pensar território, estética e construção, ampliando o campo de diálogo da arquitetura contemporânea.
Apesar da minha formação, escolhi visitar a mostra com liberdade. Quis primeiro sentir o que cada espaço propunha, antes de pensar tecnicamente. Faço o mesmo com um filme: na primeira vez, não analiso roteiro, cenários ou fotografia. Me deixo levar. E quando é bom, tudo flui — não há ruído, nem atrito. Sob esse olhar, alguns projetos me tocaram de forma especial — pela delicadeza nas escolhas, pelo equilíbrio entre conceito e sensibilidade, pela criatividade, autenticidade e pelo repertório afetivo e merecem ser destacados:
– João Panaggio, logo na entrada da mostra, traz um projeto com referências à arquitetura modernista brasileira.

– João Armentano, leveza com que dialoga com a arquitetura existente e a sensibilidade no uso da luz e da arte.
– Pedro Rabelais, paisagismo, integração com a arquitetura, criatividade e originalidade.
– Felipe Carolo, proporção e linguagem arquitetônica e uso das cores, muito bom.

– Maurício Arruda, maneira de articular cultura popular, design e pesquisa das cores.

– Marina Linhares, proposta de conforto refinado, delicadeza nas escolhas, harmonia entre materiais, atmosfera acolhedora, não dá vontade de sair de lá.
– Leo Shehtman, liberdade criativa e ressignificação de objetos, memória afetiva, composição de formas, volumes e luminosidade.
– Traço 8 Arquitetura, frescor, suavidade, vontade de estar.
– Rodra Arquitetura, textura, contraste e proporção. Arte.
– Natangil, uma proposta minimalista, fria, mas uma presença que quebra o padrão.
Essas são impressões pessoais e momentâneas. A proposta da CASACOR é justamente essa: permitir que cada visitante construa seu próprio percurso. Às vezes o projeto precisa limpar, abrir espaço para o novo. Outras vezes, precisa acolher o que já existe. E há momentos em que tudo se mistura: o passado ressurge em texturas, cores, detalhes.

Mais do que mostrar objetos, acabamentos e tendências do mercado, alguns espaços lá inserem cultura na vida cotidiana, muita arte, livros, discos de vinil — tudo se mistura e cria uma atmosfera cheia de significado e pequenos detalhes que fazem a diferença.
Conviver com arte não é luxo. É repertório. E o repertório transforma a maneira como tomamos decisões, percebemos o ambiente e interagimos com o mundo. A arquitetura tem esse papel: dar forma a algo que também é simbólico.
Materiais sofisticados, peças únicas, soluções criativas e uma liberdade quase total para compor — tudo isso cria ambientes de alto valor estético. Mas a força desses espaços não está só no que é possível ter, e sim no que a gente pode perceber. É o que o espaço comunica, como ele nos faz pensar sobre o que queremos ao nosso redor.
Se quiserem um resumo de tendência, pelo meu filtro: é a presença da cultura , da arte e da sustentabilidade. Foi isso que mais se destacou pra mim — nas escolhas, nas narrativas dos espaços e nas atmosferas.
por Kita Flórido – Arquiteta e Diretora de Arte
A Revista Circuito foi convidada especial para conhecer a mostra pela TCL.
A TCL é a marca oficial de televisores da CASACOR São Paulo 2025 e a CASACOR é o maior evento de arquitetura, design de interiores e paisagismo da América Latina. A CASACOR São Paulo 2025 acontece no Parque da Água Branca, até 3 de agosto, com o tema “Semear Sonhos”.















