O maior tempo em casa ocasionado pela pandemia do novo coronavírus aumentou o consumo de cultura através de livros, filmes, música e outras formas de entretenimento. Em pesquisa realizada pela Datafolha em parceria com o Itaú Cultural, foi apontado que consumir produtos culturais melhorou consideravelmente a qualidade de vida e saúde mental durante esses meses. Os dados coletados em abrangência nacional, ouvindo pessoas com idade entre 16 e 65 anos registram que para 54% dos brasileiros, atividades relacionadas à cultura ajudaram a diminuir a sensação de solidão e, para os outros 46%, a ficarem menos estressados ou ansiosos.

Contudo, o setor cultural foi o primeiro a sofrer com o isolamento e as restrições para combater a propagação do vírus, ainda mais para artistas que dependiam da interação do público em suas produções. Para apoiar o setor cultural e os profissionais que se mostraram tão importantes na vida das pessoas, a Lei Aldir Blanc chegou a Cotia com subsídio destinado a todo o segmento afetado que vai de artistas e profissionais da cultura aos espaços e outros.

Gilmar de Almeida, o gestor de Cultura de Cotia e jornalista de formação, conta que a Lei Aldir Blanc foi fruto de uma construção intensa de toda a classe cultural e artística do país. A lei – que passou pelo congresso e foi aprovada na Câmara Federal e no Senado – chegou à Cotia em um momento muito importante para projetos da cidade e profissionais que passaram por dificuldades nos últimos meses. “Foi fundamental para o setor artístico e cultural, porque trabalhadores e trabalhadoras deste setor sofreram demais com essa paralisação. Eles foram os primeiros a sofrer o impacto da pandemia de uma maneira coletiva. Todos os artistas pararam as suas atividades, até que se voltasse por meio das ‘lives’, da internet, mas aí ficou muito uma questão de execução, de fazer cultura, mas não recebiam. Então, a lei veio para socorrer o setor artístico e cultural, por isso ela foi pensada para chegar a todas as pontas em todo o país”, explica.

Com as incertezas envolvendo resultados práticos das vacinas para o próximo ano, Gilmar pontua que além de ser o primeiro a sofrer com as paralisações, o setor artístico poderá ser também o último a retornar as práticas envolvendo público e espaço. “Um ano bastante atípico para a produção cultural e muitos projetos sofreram. A cultura, além de ser a primeira impactada de maneira coletiva, ela também será a ultima a voltar a ser liberada totalmente. O último setor será o cultural, porque não há cultura sem aglomeração de pessoas. A maior parte das execuções artísticas, culturais e apresentações ocorrem em locais fechados; então, será o último setor a voltar e daí a importância de uma lei como essa para poder fomentar não só, atendendo artistas, mas o setor. Essa lei vai atender o artista individualmente e vai atender coletivamente porque os projetos para os espaços culturais vão chegar, é claro, aos trabalhadores, aos produtores e aos artistas, por meio dos projetos”, completa.

Mídias digitais e cultura

A alternativa que muitos artistas encontraram para levar novos conteúdos de forma gratuita ao público foi pelas mídias digitais, que foi destacada por 67% dos entrevistados na pesquisa do Datafollha e Itaú Cultural. Foi um momento para muitos se reinventarem para trabalhar dentro dos novos hábitos de consumo e ainda se manter em atividade. De acordo com outros dados levantados pela pesquisa, alguns artistas pretendem manter atividades virtuais, mas a maioria, especialmente relacionados a música e shows, relata que as “lives” acabam cansando ou se tornando chatas como forma expressiva e interativa com fãs. Por outro lado, para produções de consumo visual como filmes e séries, a maior parte do público deve manter o consumo pelas plataformas digitais.

A cultura depende muito da relação entre os produtores de conteúdo e o público, mas a maneira como a situação de isolamento se mostrar nos próximos meses não deve ser tão duramente prejudicada com o apoio da Lei Aldir Blanc. Mas talvez ainda seja um período de paciência e de usar as ferramentas digitais para o meio cultural. “Vai ser ainda um cenário de expectativa e de espera. Vamos começar a notar o efeito da vacina, se baixa a infecção que hoje está muito alta, se baixa o número de internados e de mortes, tudo isso é uma incógnita ainda. Não dá para a gente afirmar nada. O que eu digo é assim, o que a gente puder fazer virtualmente, nós vamos fazer”, conclui Gilmar de Almeida.

Projetos em Cotia

A Lei Aldir Blanc contemplou 131 projetos culturais em Cotia. De acordo com relação de espaços e projetos que se enquadram aos pré-requisitos da lei, dos R$ 1.624.725,72 repassados à cidade, 98% estão sendo distribuídos aos beneficiados, ou respectivamente R$ 1.591.906,26. A lista com os projetos premiados e os espaços que contam com o subsídio foi divulgada pelo Edital de Premiação Benedito Pereira Castro (Seu Dito da Congada) e pode ser conferida neste link.

Um dos projetos que se destaca e que diz respeito à tradição popular é o da concepção e execução de uma peça audiovisual sobre a história do Seu Dito e a Congada de Cotia. O fotógrafo Marcos Batata é o autor desse projeto que narra a trajetória de Seu Dito, um dos maiores mestres da cultura da cidade. “É a realização de um documentário sobre a história do Seu Dito e da Congada de Cotia que visa resgatar uma tradição fundante da cultura popular e dos processos de formação da sociedade brasileira, com forte influência dos ritmos, mitos, festas e ritos africanos que se fundiram à simbologia católica, sobretudo a fé dos afrodescendentes em São Benedito e Nossa Senhora do Rosário”, explica o autor do projeto.

De acordo com Batata, a Congada de Cotia é a maior e mais antiga representação da cultura negra no Estado sobre a luta contra a escravidão no Brasil. Então, a missão do projeto nasce como forma de contar a história desse patrimônio imaterial através do mestre Dito, promovendo ações, dando visibilidade às minorias e ainda promovendo a cidadania no município. A estreia do documentário deve ser exibida na edição do próximo ano na data da congada, em 13 de maio.

Buscando valorizar a cultura local com a divulgação de poesias e obras literárias, o projeto “Vozes de Cotia”, criado pela jornalista Sonia Marques, também está entre os premiados pela lei Aldir Blanc e promete trazer conteúdo cultural por meio das novas mídias digitais. “O projeto será, na verdade, um reforço no trabalho já desenvolvido no blog Reconversa, editado por mim e com produção da Relações Públicas Patrícia Rigamonti. Será desenvolvido em duas frentes: podcast Vozes da Cidade, de poesias de poetas locais e de poetas famosos. A ideia é permitir que a sociedade cotiana conheça e valorize os artistas locais e também conheça a obra dos grandes poetas de uma forma diferente, por áudios.  Grito Cultural, vídeos e entrevistas sobre a cultura local em que iremos destacar locais históricos, personagens, eventos entre outros”, explica a idealizadora. O projeto relaciona cultura tradicional e as novas tendências de consumo.

Sonia afirma que apesar de não resolver todos os problemas enfrentados nessa fase de produção cultural de seu projeto, a lei deve garantir um alento para muitos produtores e artistas: “na prática, é sustentabilidade financeira, mas não acredito que essa ajuda viabilizada pela Lei vá tapar todos os buracos. Mas sim, será um alento para a retomada de projetos e, em muitos casos, tirar produtores culturais e artistas da situação de fome”.

A jornalista explica que, no seu caso, está recebendo um prêmio de reconhecimento ao trabalho que já executou em prol da cultura ao longo de sua atuação profissional que inclui podcasts, vídeos e entrevistas com “fazedores” de cultura que tiveram e têm papel importante na cidade de Cotia e região. Parte desse reconhecimento que se refere se trata de histórias marcantes como a da Mãe Alcina, considerada a mais importante líder das religiões de matizes africanas de Cotia, a história de Benedito Viviane e do Dr° Oswaldo Manoel, responsáveis pela construção do hospital de Cotia e muitos outros registros que constroem a história da cidade.

Esses e muitos outros projetos que a lei irá fornecer auxílio apresentam um papel fundamental não só na compreensão da história, como para os dias que estamos vivendo.  O investimento em cultura muda a vida dos moradores não só em tempos de pandemia, afinal a arte e a cultura estão em tudo o que consumimos.

 

Por Eric Ribeiro

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