Paula Porci no Castello di Gabiano, do Marquês Giacomo Cattaneo Adorno Giustiniani.

No noroeste da Itália, aos pés dos Alpes, está uma das regiões vinícolas mais importantes do mundo. O próprio nome Piemonte significa “aos pés da montanha”, uma referência à geografia desse território, cuja capital é Turim. Por ali, qualidade sempre falou mais alto que quantidade: mais de 80% dos vinhos produzidos possuem denominação de origem, DOC, classificação que estabelece regras de procedência e produção. E há uma curiosidade: ao contrário de outras regiões italianas, o Piemonte não produz vinhos classificados como IGT, uma categoria mais ampla e menos restritiva.

Entre colinas cobertas de vinhedos, pequenos povoados e castelos, o vinho faz parte da cultura e da vida cotidiana. A grande estrela é a Nebbiolo, uva que dá origem aos supervalorizados e célebres vinhos Barolo e Barbaresco. São tintos que combinam estrutura com taninos marcantes e aromas delicados, frequentemente associados a flores, frutas vermelhas e especiarias. Muitos evoluem por longos anos na garrafa, desenvolvendo complexidade. Sua importância, porém, não deve ofuscar a diversidade piemontesa.

A Barbera, com sua acidez viva e expressão frutada, produz desde vinhos para a mesa cotidiana até exemplares de grande profundidade. A Dolcetto também integra essa identidade regional: apesar do nome, seus vinhos são habitualmente secos. Entre as brancas, Moscato, Arneis e Cortese têm lugar de destaque, enquanto a Timorasso desperta interesse por seus vinhos estruturados e capazes de envelhecer.

Estive recentemente no Piemonte e percorri diferentes áreas produtoras, conhecendo vinhedos, famílias e estilos que revelam a diversidade da região. Entre tradição e modernidade, grandes tintos e brancos surpreendentes, quatro vinícolas se destacaram na viagem, tanto pela qualidade dos vinhos quanto pela experiência de visitação. São endereços que vale a pena conhecer e também ótimas referências para quem deseja descobrir alguns dos bons vinhos produzidos no Piemonte.

Com a querida Betta, global export manager e Matteo, enólogo, no Castello di Gabiano.

No Castello di Gabiano, em Monferrato, vinho e história caminham juntos em um cenário extraordinário. É um lugar que impressiona antes mesmo de a primeira garrafa ser aberta. O castelo tem origens medievais e aparece em um documento de 805, quando Carlos Magno doou aquelas terras ao arcebispo de Vercelli. A tradição vitivinícola acompanha sua longa história. Entre os rótulos que mais me chamaram a atenção estão o Chardonnay, o Piemonte Pinot Nero e o A Matilde Giustiniani Gabiano DOC Riserva, ícone da casa, cuja safra 2015 recebeu o título de melhor vinho tinto italiano, pela Vinitaly 2022.

Em Barolo, a Marrone apresenta uma leitura que concilia tradição e técnicas contemporâneas inspiradas em Bordeaux. Seus Barolos têm estrutura e elegância e são verdadeiras preciosidades. Além deles, um dos vinhos que mais me impressionaram foi justamente o Chardonnay fermentado em barrica, com profundidade e grande persistência.

Paula Porci com Eleonora Dogliani, proprietária e produtora da vinícola Dogliani II Generale.

Na Dogliani Il Generale 1856, vinícola familiar cuja história começou, como o nome indica, em 1856, com Domenico Dogliani, e hoje chega à quinta geração, encontrei vinhos de excelente relação entre qualidade e preço. Conduzida por Eleonora Dogliani, a vinícola produz Barberas de que gostei especialmente, cheios de fruta e frescor, além de um excelente Barolo Riserva. Nos brancos, a proposta é mais leve e vibrante, com um Arneis particularmente agradável.

E, finalmente, a histórica Borgogno, fundada em 1761, no coração de Barolo. A casa preserva métodos tradicionais, com fermentações espontâneas em tanques de concreto e longos afinamentos em grandes botti de carvalho da Eslavônia. Além dos grandes Barolos, gostei muito do Riesling, e foi interessante provar também o Timorasso, variedade que vem ganhando atenção no Piemonte. A visita às antigas caves termina com uma bela vista de Barolo e de seu castelo, o que, por si só, já justificaria a parada.

Depois de alguns dias entre castelos, colinas, vinhedos e muitas taças, fica fácil entender por que o Piemonte ocupa um lugar tão especial no mundo do vinho. Uma região de muita história, grandes vinhos e uma diversidade que sempre deixa vontade de voltar.

Paula Porci é consultora, palestrante e colunista de bebidas. Juíza de vinhos, Sommelière de vinhos ABS-SP e AIS-FR e fundadora da Confraria das Granjeiras.

Vinhos com mais de 100 anos na Adega do Castello di Gabiano.
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